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Faço logo uma pergunta aqui: antes de vocês terem ouvido o anúncio de que Warner e a Legendary estariam planejando o crossover entre Godzilla e King Kong no mesmo filme, que já está planejado para lançar em 2020 como forma de continuidade em seu novo Monsterverse, alguém já tinha noção de que os mesmos icônico monstros já tinham se encontrado frente à frente no mesmo filme?! De fato, não é difícil de imaginar, ainda mais tendo em conta o enorme sucesso que alavancou ambos os personagens por anos em diversas adaptações e versões, etc, cada um com sua marca própria.

Mas talvez, uma ideia não tão óbvia como é de fato o filme em que vimos aqui com ambos Godzilla e King Kong juntos pela primeira vez no cinema. E que por mais bizarro e enfadonho possa soar em sua trama um tanto despirocada, o filme se garante no final como uma divertidíssima experiência.

A trama inicia seus eventos quando Tako (Ichirô Arishima), o presidente de uma empresa farmacêutica, descobre que as cerejas vermelhas denominadas de romãs que crescem na ilha Farou possuem uma espécie de cura milagrosa, dando início a uma expedição à ilha liderada por Sakurai (Tadao Takashima) e Furue (Yû Fujiki) para coletar as cerejas. Mas ao chegar eles descobrem que os nativos locais louvam um deus chamado King Kong, que supostamente cresceu até o tamanho gigante por comer as cerejas. Tako logo pensa que qual a melhor maneira de promover o produto se não trazer a criatura de volta ao Japão como o marketing perfeito?!

Mas em simultâneo à isso, um submarino americano é mandado investigar uma estranha atividade sísmica no Ártico, quando descobrem o pedaço da geleira em que Godzilla fora selado anos atrás, e agora despertou em fúria. Agora com os dois destrutivos monstros se aproximando de Tóquio, tem-se início à uma luta que carrega o futuro da humanidade.

Um Encontro às Cegas

Aceitemos os fatos, juntar dois dos maiores monstros do cinema em um só filme não é só uma tarefa um tanto complicada, como quase atinge o nível do ridículo que permite um salvo conduto de lógica, onde os roteiristas podem despirocar em qualquer idéia absurda possível que sirva como desculpa apenas para garantir ao público o espetáculo que elas esperam e que o título sugere.

Mas pra chegar até isso, terão que passar por um filme inteiro que inventa seus malabarismos narrativos hilariantes que quase alcançam o nível de satírico, mas que por uma perspectiva mais dura e crítica só revela um tom aparentemente confuso e misturado.

Tendo que passar por diferentes núcleos narrativos com os personagens humanos, só para pavimentar terreno para o vindouro aguardado confronto. E isso pode tanto recair para personagens e arcos minimamente interessantes ou simplesmente enfadonhos e desinteressantes, mesmo que não sejam mesmo a parte mais importante ou de principal foco do filme. Mas ainda assim pode se notar alguns traços interessantes aqui.

Como dito antes, há uma linha bem tênue de humor satírico presente aqui e que é horas até muito bem implantado. Como quando vemos Tako olhando para a destruição de Godzilla na TV e surta dizendo: “estou farto de Godzilla” – adressando sutilmente a saturação do gênero de monstros gigantes destrutivos até então, e que porventura o certamente renova por colocar o Kong no pacote, uma intensão partida deliberadamente do hilário personagem.

Ou até na forma com que o filme estrutura os eventos de destruição do filme com as constantes reportagens do noticiário americano que apontam um certo fator de frieza midiática, mas talvez não tão proposital como se possa imaginar já que haviam feito o mesmo em Godzilla Rei dos Monstros, o “remake” americano do Godzilla original, que basicamente consistia no mesmo filme só que contendo cenas adicionais com o personagem de Raymond Burr reportando todos os eventos.

E sendo cenas, em ambos os casos, de um tom mais tedioso em comparação às divertidas sequências em que vemos a expedição na ilha seguindo os personagens Sakurai e Furue à procura das cerejas vermelhas e do “novo monstro” para o programa farmacêutico do seu chefe Tako, onde embora tenham um tom extremamente caricato, consegue divertir muito graças aos seus elementos de comédia escrachada assumida bem presentes.

Levando em conta também de que as mesmas cenas do “núcleo” americano foram adições na versão americana cujo o filme recebera em seu lançamento internacional, que havia sido produzida por John Beck (Meu Amigo Harvey), cuja idéia original do filme viera dele e Willis H. O’Brien antes do projeto ser vendido para a Toho, mas onde a ideia original seria de um filme de King Kong vs Frankenstein (o que mais tarde se tornou no filme Frankenstein Contra o Mundo, também do diretor Ishirô Honda).

O que faz compreender-se assim a sensação destas cenas estarem completamente fora de lugar. Sem falar da dublagem em inglês do núcleo japonês serem bem sofrível, mas perdoável quanto a execução de todo o resto da obra. Embora infelizmente não sejam tão poucos os momentos narrativos que soam completamente desnecessários dentro da proposta puramente escapista do filme.

Como todo o arco tedioso envolvendo o casal românico entre a irmã de Sakurai, Fumiko (Mie Hama) e seu noivo Kazuo (Kenji Sahara) que soa basicamente desnecessário na história, mas que vem à mostrar seu real propósito no terceiro ato quando vemos Kong tendo sua usual paixão não correspondida por uma moça histérica.

Porém, isso só comprova o quanto o filme, mesmo que aparentemente escrachado e satírico em tom, mostra querer honrar os melhores elementos clássicos de cada um de seus monstros. Não só amarrando a história de Godzilla como uma continuação direta dos eventos de Godzilla Ataca Novamente, assim como estabelece elementos já familiares e característicos de Kong como suas origens na ilha onde é cultuado como um Deus e tem seu coração mole para jovens moças.

Mesmo que supomos que não seja o mesmo Kong que vimos no clássico de 1933, e que, por alguma razão, é dito e posto no filme que o Kong tem a capacidade de absorver força à partir de energia elétrica. Bom, se o Godzilla pode soltar um raio atômico então com certeza o Kong tem direito a ter poderes elétricos. Tanto que na primeira cena que dá indício de sua presença é durante uma tempestade e também o vemos comer literalmente um cabo elétrico para recuperar ENERGIA (piada não intencional).

Além do que, é o protagonista bem mais beneficiado com tempo de tela no filme. Tanto seja pelo fato de tudo que vemos Godzilla fazendo em cena já é familiar e mais do mesmo, enquanto seu diretor Ishirô Honda quer aproveitar todas as chances que tem com o Macacão que garante alguns dos melhores momentos do filme. Seja sua breve luta na ilha com um polvo gigante (excelentemente criado com incríveis efeitos práticos misturado stop-motion com as miniaturas), e a icônica luta final entre os dois Titãs.

E por ironia, seria o terceiro filme no cinema de cada um dos personagens. Godzilla vindo do clássico original de Honda e sua continuação Ataca Novamente. Enquanto Kong, mesmo que não partisse de uma continuação direta, também vinha do seu grande clássico de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, seguido pelo sofrível Filho de Kong de Ernest B. Schoedsack. Então era um encontro já marcado nos céus cada um dos monstros terem um encontro épico em seus terceiros filmes, e não poderia ser qualquer um que poderia comandar esse encontro.

O verdadeiro Rei dos Monstros

Ishirô Honda foi sem dúvidas a perfeita e completamente merecida escolha de realizar esse filme. Pode não ser um legado tão bem reconhecido quanto à de um mestre autoral supremo do cinema, mas quanto à dirigir e criar os filmes de monstros gigantes, poucos foram tão bons quanto ou melhor que ele. As cenas com os personagens humanos podem carregar quilos de caricatura e fatores genéricos, mas o diretor não deixa de enquadrar tudo em câmera tão bem, levando toda a execução de cenas à sério mesmo que seu roteiro não.

Montando as sequências em que vemos os monstros destruindo as miniaturas com as sequências em câmera com os atores com perfeccionismo e atenção aos detalhes mesmo dentro de seus limites. Além de ter sido a primeira vez em que ambos os personagens apareceram em cores em filme e filmados no belo formato widescreen, e Honda tira total proveito disso em querer enquadrar os gigantes em planos grandiosos e que só revelam a imensa escala que o filme almeja visualmente dentro de seus limites, e o consegue.

Compartilhando também dos vários avanços vistos em Godzilla Ataca Novamente, Honda consegue capturar a magnitude dos monstros dentro dos cenários móveis, seja com o uso de tanques, carros e trens remotos, e as miniaturas de prédios que passam o sentimento de palpabilidade convincente, e que se torna bem mais prazeroso do que antigamente em ver toda a destruição causada no Reino humano enquanto vemos os dois Titãs se digladiando.

E quando tudo se resume na luta final, vemos o quanto a criação de expectativa foi eficiente e o filme não desaponta em entregar um confronto épico, ao mesmo tempo em que é hilariantemente divertido. Com Kong atirando pedras como se fossem bolas de futebol, Godzilla revida com seu sopro atômico que deixa os pelinhos de Kong tostadinhos. Depois Kong tenta enfiar uma árvore na goela de Godzilla fervendo em raiva só pro lagartão revidar com uma épica e literal voadora, e muito mais. Impossível não abrir um enorme sorriso durante toda a sequência!

E o que pode ser dito da cena em que Kong é transportado em balões até a localização da grande luta final. Idéias assim, absurdamente malucas, que demonstram o porque desses clássicos filmes de monstros japoneses serem tão atrativos até hoje. Afinal você realmente vai ligar para lógica quando temos dois dos maiores monstros gigantes de todos os tempos se enfrentando mano à mano? Qualquer desculpa para os colocar juntos é completamente válida!

Um confronto que consegue no final ter um significado maior do que se pode esperar do resto do filme que segue a veia humorada acima de tudo, e isso é graças à direção de Honda. Consertando um dos vários problemas vistos no filme predecessor do Godzilla onde víamos simples destruição por destruição, e podemos ver Honda voltando sutilmente ao espírito alegórico do filme original ao mostrar na trama como a imprudência e influência humana no meio natural ocasionaram novamente nas consequências que agora atingem as criaturas.

Tanto seja no despertar de Godzilla, com as fortes imagens de um submarino vazando remetendo à óbvia poluição marítima e claro ao derretimento glacial quando Godzilla desperta. Ou quando vemos Kong sendo arrastado à força de seu habitat. Ambos trazendo sua ira causada pela humanidade contra ela. Só para vermos depois os mesmos humanos fazendo todos os esforços para tornar ambas forças da natureza encarnadas contra si, até a morte.

É um retrato trágico, ao mesmo tempo que é hilário em execução. Uma estranha mas prazerosa mistura no final das contas que faz do filme ser tão especial mesmo com suas bizarrices e momentos enfadonhos. O que pode mesmo não ser um ótimo ou totalmente bem executado filme, mas mostra ter total respeito e admiração pelos seus icônicos protagonistas e deixa seu confronto ser um verdadeiro espetáculo de entretenimento à moda antiga.

E que nos faz pensar o quanto arroz e feijão de criatividade o diretor Adam Wingard vai ter que se esforçar em comer para conseguir fazer de seu vindouro Godzilla vs. Kong um filme com personalidade tão especial quanto esse filme de Ishirô Honda, algo que talvez nem mesmo as mais avançadas tecnologias conseguem criar ou alcançar. Apenas com destreza e coração no qual esses filmes eram feitos!

King Kong vs. Godzilla (Kingu Kongu tai Gojira – Japão, EUA, 1962)
Direção: Ishirô Honda
Roteiro: John Beck, Bruce Howard, Paul Mason, Willis H. O’Brien, Shin’ichi Sekizawa, George Worthing Yates
Elenco: Tadao Takashima, Kenji Sahara, Yû Fujiki, Ichirô Arishima, Jun Tazaki, Akihiko Hirata, Mie Hama, Akiko Wakabayashi, Akemi Negishi, Senshô Matsumoto
Duração: 99 min.

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