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Existe um nirvana em todas as artes. Um campo tão almejado e difícil de atingir que parece impossível. No caso da arte do documentário, há uma busca eterna pela forma mais pura para transmitir uma ideia, uma moral, um sentimento. Isso é tão complicado de fazer porque o documentário é um gênero que aceita muitas intervenções do realizador como encenações, entrevistas posadas, narração over ou manipulação escancarada para favorecer sua mensagem.

Com cineastas tão fissurados pelo poder do verbo, do discurso, é compreensível que o documentário como arte atraia pouca atenção do espectador comum. Entretanto, o impossível, a busca pela pureza desse gênero, foi conquistado em 1982 por um cineasta improvável que é bem possível que nunca tenha ouvido falar: Godfrey Reggio.

Koyaanisqatsi é essa realização monumental que procurar trazer um retrato sobre o nosso planeta, a natureza e a civilização sem ousar dizer uma palavra. Exatamente isto. Nesse documentário não há narração, entrevistas, diálogos ou idiomas. Ele é simplesmente universal e poderosíssimo ao trazer epifanias e catarses no espectador somente com a junção muito apurada de imagens.

O Mundo que Você não Vê

Reggio se dedicou por seis anos para conseguir montar essa obra pioneira e extremamente difícil. Pode parecer, em primeiro momento, que se trata de uma experimentação vaidosa muito prepotente, mas realmente não é sobre isso que Koyaanisqatsi se trata. Apesar de ser um experimento que testa os limites da arte do Cinema como um todo, seu formato é necessário para que Reggio consiga transmitir a mensagem com todo o impacto possível.

É aí que muita gente indaga: como é possível compreender um discurso se ele só e feito através de imagens e música? Justamente pela resposta dessa pergunta que é possível perceber que Koyaanisqatsi não se trata de um filme prepotente, mas sim consciente ao máximo.

A experiência de assistir a essa obra-prima de Reggio é repleta de adjetivos positivos, mas como temos o ápice da relação semiótica entre filme e espectador, é muito evidente que a experiência de quem vos escreve é a que menos importa para compreender a qualidade absurda deste longa. Para debruçar a análise nesse sentido, é preciso citar alguns dos pontos narrativos mais fortes da obra que é sim repleta de lógica e, portanto, compreensível.

Reggio abre Koyaanisqatsi filmando com delicadeza o berço do testemunho do registro humano: as pinturas rupestres. A evidência de que estávamos na Terra há milhares de anos clamando nossa memória na própria rocha eterna. Logo depois, ele nos apresenta a uma grande indústria metalúrgica, inferindo que a conquista mais importante do homem sobre a natureza tenha sido a dominação sobre os elementos e da manipulação química dos mesmos, permitindo o progresso humano até o ano de filmagem da realização.

Esse é o primeiro contraste e certamente o mais simples dos diversos que o diretor apresenta ao longo de toda a obra. A obra é nitidamente dividida em atos sendo o primeiro focado em mostrar as maravilhas de um mundo natural escondido que nós nunca ousamos visitar ou desfrutar – isso é posteriormente contextualizado em outros atos tão eficientes quanto o primeiro.

Reggio busca, sob um olhar fotográfico impecável – também ao lado do excepcional diretor de fotografia Ron Fricke que posteriormente faria documentários semelhantes, mostrar diversas a ordem perfeita do mundo natural através de uma singela jornada que flerta com os quatro elementos: terra, fogo, ar e água. Os melhores explorados vêm através do contraste magnífico entre imagens que mostram a fluidez da água, do mar e de suas ondas para depois apresentar a mesma força delicada com a formação das nuvens e de suas pequenas jornadas através de picos rochosos imensos.

Pouco a pouco, vamos abandonando esse milagre da natureza para nos aproximarmos dos milagres da civilização. A transição surge a partir de uma imagem impactante com Reggio focando em um pai e filho dormindo tranquilamente em uma praia, para então realizar um tilt e movimentar a câmera para cima, revelando a construção monumental de uma usina.

Logo vemos e compreendemos que o custo do milagre humano é a devastação da eterna natureza da Terra em sua generosidade solene. Novamente, lembro aqui que Koyaanisqatsi é uma obra pura, então não há julgamentos sobre certo e errado, apenas as consequências realistas do nosso impacto para sustentar o modo de vida que vivemos.

O Mundo Que Vivemos e Não Vemos

Abre-se, então, o segundo ato espetacular da obra: dessa vez totalmente focada em mostrar a vida humana e seus caprichos. Para isso, temos um longo preâmbulo para mostrar o ritmo da rotina das metrópoles. A partir de planos aéreos majestosos, o diretor mostra as vias terrestres como grandes veias e artérias de um corpo de cimento repleto de cinza, amarelo e vermelho (as cores dos faróis dianteiros e traseiros dos carros).

Essa longa jornada de idas e vindas também é proposital para dar sentido para o avanço “narrativo” que Reggio pretende formalizar depois. O intuito é mostrar como as jornadas de diversas vidas sempre são entrelaçadas pelo trânsito da migração pendular da casa para o trabalho e vice-versa, apesar da nossa total indiferença sobre o resto dos integrantes que formam essa gigantesca massa de mão de obra.

Saindo brevemente dessa lógica, para enganar o espectador, o diretor traz os segmentos mais poderosos do filme. Primeiro, com nossa vista tão acostumada com a visão de carrinhos se deslocando de lá e pra cá, Reggio aproveita para mostrar um estacionamento repleto de veículos de diversas cores esperando seus donos para então cortar, sob o mesmo movimento de câmera e ponto de vista, para imagens exibindo montanhas de tanques de guerra estacionados esperando para matar.

É justamente aqui que o diretor consegue apertar emoções do espectador que nem mesmo sabia que existiam. Caso tenha visto Laranja Mecânica, conseguirá lembrar das sessões de tortura psicológica que Alex tem que enfrentar para ser “curado” da violência. Apesar de Koyaanisqatsi não ser uma tortura, ele envolve técnicas que mexem com seu subconsciente a ponto de suscitar verdadeiro terror através de um contraste imagético tão simples como o mencionado.

Isso também é reforçado a partir da trilha monumental de Phillip Glass, conhecido pelos ritmos minimalistas que brincam com o formato modal da música, criando composições aparentemente infinitas entre maquinações repetitivas que quase hipnotizam o espectador. O resultado da aliança da trilha musical perfeita de Glass com as imagens simples, mas tão fortes de Reggio e da sapiência de sua montagem, tornam Koyaanisqatsi um experimento realmente transformador.

Retomando sobre o desvio que Reggio faz da rotina de idas e vindas para abordar a guerra que ocorre em terras distantes, temos a criação da sequência mais genial do longa. Novamente, o diretor pede que o espectador tome parte do longa ativamente com seu intelecto e se ponha a relacionar as imagens de seu filme como um eficiente e divertido quebra-cabeça.

No caso, o cineasta aborda figuras humanas com clareza pela primeira vez e logo opta em mostrar pessoas miseráveis que vivem à beira da sociedade, completamente esquecidos e marginalizados por outras classes sociais. Do desamparo humano vamos ao desamparo arquitetônico com imagens que trazem um complexo enorme de edificações muito castigadas pela falta de preservação e totalmente abandonadas. Logo, qualquer mente pensante, liga uma coisa à outra: apesar de serem edifícios indesejados, certamente servem como moradia digna para os mais castigados pela estrutura socioeconômica da civilização ocidental.

Com um crescendo fascinante da composição Pruit Igoe, um dos trabalhos mais conhecidos de Phillip Glass, Reggio pega o espectador de surpresa para mostrar toda aquela porção de prédios ainda utilizáveis sendo implodidos sem a menor piedade. A catarse é tão tremenda pela junção do áudio com a imagem que logo nos traz a tona o outro sacríficio agonizante do planeta que cede diverses recursos para a construção de obras, em pressuposto, imortais.

A sequência é arrebatadora e muito eficiente em provocar questionamentos sobre como nos portamos até mesmo em comunidade, sobre o altruísmo praticamente impossível de uma espécie cada vez mais individualizada a ponto de sacrificar moradias abandonadas sem nem teorizar antes sobre a utilidade daquele espaço para os menos favorecidos. Afinal tudo aquilo, pelo documentário, estava abandonado, sem uso e sem gerar lucro algum. Novamente, é algo transformador que suscita esses questionamentos válidos sobre a vida em comunidade e na nossa união como espécie.

A Vida dos Outros

O desvio é tão válido que quando Reggio retoma a linha de imagens para traduzir a vida humana nas metrópoles, simplesmente há uma estranheza. O cineasta reconhece que o impacto da sequência anterior é devastador, então novamente traz uma junção de imagens fantásticas de tráfego novamente. Mas dessa vez, nota-se mudanças interessantes.

A música surge calma, mas passa a crescer rapidamente. As imagens do trânsito também ficam cada vez mais rápidas até enfim termos outra sequência fantástica repleta de time lapses. Nela, o diretor mostra os diferentes meios de transporte, abandonando os carros por um momento, além de trazer imagens viciantes e frenéticas de pessoas em passos apressados se dirigindo ao trabalho e também trabalhando.

São diversos empregos que mostram a fabricação de salsichas, veículos, componentes de computação e outros setores de abastecimento importantes. Ou seja, a infraestrutura para a nossa vida cotidiana. Apesar de haver muita beleza nesses segmentos, Reggio foca bastante na banalidade dos movimentos repetitivos que os empregados fazem o dia inteiro, em uma implicação forte de alienação que a própria sociedade vive, trilhando um caminho sem volta para a depressão.

Depois do trabalho, há o lazer. Mas qual lazer? Castigado pelos anos 1980, Reggio se limita a trazer pequenos momentos de prazer em fliperamas, cinema, shoppings, alimentação, mas com uma ênfase perturbadora na televisão. Estabelecida a lógica da equação, os segmentos começam a repetir os temas: jornada, trabalho, jornada, trabalho, lazer, jornada e assim sucessivamente.

Nesse ponto, como tudo está em um ritmo tão frenético e sobrenatural, além da música atingir uma hegemonia perfeita de ritmo e sons, Reggio acelera os time lapses até tudo se tornar uma enorme massa disforme, mas frenética, abundante e colorida. A sugestão é bastante forte para trazer a tona o ritmo insano padronizado que a vida humana se comporta nas metrópoles.

Aliás, o próximo ponto é justamente o padrão. Porém, é preciso apontar que sucintamente temos a presença de elementos naturais nesse ato tão focado no humano. Em outra imagem fortíssima, o diretor enquadra dois prédios gigantescos e, no pequeno reflexo de uma janela, vemos a figura diminuta do sol se escondendo, pouco a pouco, além da linha do horizonte. Apesar de belo, é bastante triste, pois se trata de um fenômeno tão belo e, realmente, tão esnobado no ritmo frenético do cotidiano.

O Ápice Degradante

Com todo o discurso armado sobre a vida humana e nosso impacto sobre a serenidade da natureza, Reggio chega ao clímax de sua sequência visual lógica. A partir do padronização do ritmo das nossas atividades, o diretor começa a se afastar cada vez mais da vida urbana ao ponto de mostrar imagens aéreas noturnas

A abordagem distante mostra os padrões das ruas e das migrações, até só haver as luzes que contornam os quarteirões e ruas. Em outra crítica sagaz, o diretor logo insere e intercala essas imagens com outros planos que mostram padrões semelhantes em circuitos embutidos nas peças de computador.

Nesse avanço infernal, resta conquistar o cosmos. Terminando o longa com uma ironia cruel e bastante cínica, vemos o lançamento de um foguete que chega muito perto de sair da atmosfera, mas acaba explodindo pouco antes de conquistar o espaço. Ou seja, para Reggio, o avanço humano é tão fascinante quanto o voo de Ícaro com suas asas coladas com cera.

Alçamos voo e conquistamos incontáveis conquistas, mas chegará o dia que em que voaremos tão perto do sol que só restará a memória eterna registrada na rocha imóvel de uma natureza que cada vez mais não pertencemos.

Antes de chegar nessa culminação pessimista acerca da humanidade, Reggio também elabora o legado e o pertencimento com imagens inteligentes ou emocionantes. Ora brincando com fusões mostrando figuras fantasmagóricas ainda presas na rotina do trabalho, ou dos instantes mais frágeis da uma vida moribunda que clama não por cuidado, mas contato humano reconfortante antes da última jornada que aguarda por todos nós.

Experiência de Vida

É muito raro que um filme consiga transportar um impacto emocional tão grande em mim, porém Koyaanisqatsi consegue de formas perfeitamente absolutas. Ciente que seu filme é puro e traz verdades universais sobre o enorme desequilíbrio que existe em nosso planeta em tantas camadas, Godfrey Reggio batizou sua obra com o nome Koyaanisqatsi, uma palavra que aborda justamente desordem e caos, mas de um dialeto tão desconhecido que praticamente não provoca reação emocional alguma para quem a escuta pela primeira vez.

Realmente, todos somos indiferentes ao Koyaanisqatsi antes de escutarmos e vê-lo, mas o golpe de mestre do diretor é abrir e fechar seu filme com o coral proclamando o título do longa para então revelar o sentido da palavra. Após testemunhar esse pioneirismo estético que ultrapassa os limites da narrativa para trazer uma percepção acerca da nossa vida individual e em comunidade, é uma certeza absoluta: é impossível ficar indiferente ao Koyaanisqatsi depois de escutarmos e vê-lo.

Koyaanisqatsi: Uma Vida em Desequílibrio (Koyaanisqatsi, EUA – 1982)

Direção: Godfrey Reggio
Roteiro: Ron Fricke, Michael Hoenig, Alton Walpole, Godfrey Reggio
Gênero: Documentário
Duração: 86 minutos.

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