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A indústria do entretenimento mundial é apaixonada por histórias de ação, por um simples motivo: toda a tensa atmosfera que precede as icônicas e memoráveis cenas de perseguição, de tiros e afins é justamente o que deixa o público à beira da poltrona, contraindo os nós dos dedos enquanto a montagem frenética nos permite mergulhar dentro de um frenesi maluco de momentos catárticos e de tirar o fôlego. Entretanto, optar por uma aproximação a esse lado muito emocional muitas vezes emerge em detrimento de uma história original e realmente envolvente, abrindo margens perigosas para os clichês do gênero: temos o mocinho, o bandido, os reféns; todo o escopo gira em torno de motivações previsíveis e que tem apenas duas saídas quando todos os arcos forem resolvidos – normalmente, pendendo para a vitória do bem sobre o mal.

La Casa de Papel traz tudo isso e mais pouco, mas sua superioridade criativa é inegável e inenarrável. Apesar da existência à prima vista estereotipados e normalmente pautados pela ética: logo, espere sim a inserção de figuras como o detetive, o inspetor, o líder dos ladrões, a mente por trás do roubo e todas as figuras próprias desse tipo de trama. E ainda que a série não traga muitas alternativas novas para o pano de fundo que arquiteta, o seu brilho reside justamente no miolo, mais precisamente nas interações entre os personagens, em suas histórias, objetivos, traumas e medos. Ao invés de criar réplicas de robôs endeusados por personalidades intransponíveis e engessadas, ela se permite utilizar-se das falhas e de uma clara humanização para criar uma rendição incrivelmente sedutora. Não é à toa que digo, sem necessidade de favoritismo e baseando-se apenas em sua concepção final, que esta é uma das melhores produções dos últimos anos.

O título faz menção à Casa da Moeda de Madrid, local conhecido por ser o centro financeiro de uma das maiores metrópoles da Europa – e também por ser o alvo de um grupo de assaltantes nem um pouco convencional. Ao centro de tudo e entrando também como uma poética e metafórica narradora – o que já se tornou muito comum entre várias obras seriadas e espanholas (As Telefonistas, por exemplo, segue o mesmo padrão) -, há Tokyo (Úrsula Corberó), uma sagaz e irrefreável jovem que fez várias escolhas erradas durante sua vida, tornando-a uma criatura marcada por traumas e por um amor não correspondido por parte de sua mãe, que apesar de não admitir, enxerga-a como uma criminosa. Isso a leva por um caminho trágico até ser surpreendentemente carregada para um mundo que nunca pensou em ser tangível: a do crime organizado.

Logo no episódio piloto, acompanhamos de forma acelerada e que, para as inúmeras revelações que acontecem ao decorrer do show, funcionam quase em sua totalidade, a criação do grupo. Tokyo na verdade não é seu nome verdadeiro, e sim um pseudônimo que adotou juntamente a seus outros colegas para que as reais identidades não fossem descobertas pelos reféns ou pelos policiais. Cada um dos integrantes admite para si um nome citadino diferente e que refletem sua personalidade de modo mais profundo que lhes damos crédito – é quase inexplicável de que forma essa escolha influencia e é influenciada por suas personalidades sem qualquer presunção preciosista.

Toda a equipe é comandada pelo extremamente inteligente e minucioso Professor (Álvaro Morte), cuja visão aberta é um dos principais motivos que permitem que esse plano seja perfeito – bom, quase perfeito, por assim dizer. Já nos primeiros momentos, percebemos que sua mente arquitetou todos os passos, tanto de seu grupo de criminosos quanto da polícia que, com grande probabilidade, apareceria para tentar contê-los ainda que pensassem sair na surdina – ora, não é à toa que seu quartel-general, um amplo e rico espaço para treinamento e para aulas sobre táticas de espionagem e de roubo, é perscrutado até mesmo por uma réplica idêntica da Casa da Moeda construída em papel-machê. A construção de sua psique resgata as maiores mentes sociopatas do cinema, passível de paralelo até mesmo com o icônico Coringa de O Cavaleiro das Trevas. É claro que, configurando-se como um drama de ação realista, ele não se mostra tão psicótico quanto o arqui-inimigo do Batman, mas alguns traços permanecem ao menos durante os primeiros episódios.

Tokyo é a mediadora de tudo. Sua narração se passa em um período pós-assalto – e seria incrível caso fosse póstuma -, e ela aproveita para fornecer sua própria perspectiva em relação ao que acontece, ao mesmo estilo de Mary Alice em Desperate Housewives, porém com um teor dramático e humanista maior. Enquanto Alice apenas observa os acontecimentos, Tokyo participou ativamente deles e se mostra onisciente, representando a amálgama de cada um dos personagens. O Professor diz repetidas vezes que laços afetivos não devem ser endossados entre os integrantes do roubo, e é justamente ela quem reafirma esse quebrar das leis com uma simples frase: “Rio era meu ponto fraco”. Rio talvez seja o mais ambicioso e mais ingênuo dentro do grupo. Interpretado pelo incrível e carismático Miguel Herrán, o jovem é um hacker procurado internacionalmente, mas que sempre consegue apagar os seus traços – menos quando eles conversam com a protagonista da narrativa. A química que os dois trazem em cena é soberba e já premedita alguns obstáculos a serem enfrentados pelos assaltantes.

Outro personagem que rouba a atenção por sua construção mais blasé e mais inexpressiva é Berlim (Pedro Alonso), um famoso ladrão conhecido por roubar mais de quatrocentos diamantes em Paris. Ao longo da trama, descobrimos que sua impenetrável personalidade conversa na verdade com alguns traços da psicopatia, impedindo-o de diferenciar o mal do bem e levando-o a cometer alguns atos de pura atrocidade, porém nunca manchando as mãos. Ele permanece em um crescente arco de superioridade e de crueldade que gradativamente dá lugar a um passado muito mais complicado, envolvendo inclusive uma doença degenerativa que jaz como um de seus maiores segredos – ponto de principal mudança para a organicidade do grupo.

Mas qual seria a graça caso esses personagens não tivessem obstáculos a serem enfrentados? Não é à toa que a contra-parte desse “plano perfeito” emerja na figura da inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño), uma forte mulher dotada de uma frieza calculista que obviamente não se mostra como círculo fechado e traz como fraquezas a sua mãe, que foi diagnosticada com Alzheimer, e seu ex-marido, com o qual trava um embate acerca da guarda da filha. Ela é a principal peça dentro da negociação com os criminosos, e fala diretamente com o Professor em sequências tão bem escritas que chegam a ser emocionantes apenas com o jogo básico de câmeras e uma montagem paralela que nos transporta para dentro e fora do banco.

Aproveito aqui para fazer menção à incrível estética que é trazida junto com a série: pense nas montagens de apresentação de Esquadrão Suicida e nas sequências de explicação e flashbacks da franquia Jogos Mortais. Tais elementos não foram adequadamente utilizados dentro de seus próprios escopos, mas dentro de La Casa de Papel, o time criativo por trás da identidade imagética conseguiu fazer um trabalho muito minucioso e de forma alguma saturado que se estende de forma coesa pelos treze episódios dessa primeira temporada. Além disso, a narrativa em si não vê uma necessidade inquebrável de permanecer nas constantes cenas de tiros do gênero, mas sim procura explorar outras vertentes, abrangendo seus arcos para a comédia, o drama e até mesmo alguns subgêneros como o coming-of-age e o tour-de-force.

Talvez os pontos de ápice sejam a estética e o roteiro. Afinal, não temos apenas a inserção dos protagonistas, mas sim de coadjuvantes de extrema importância para a continuidade dos eventos e para as brechas que se abrem sem a rápida percepção do grande arquiteto do roubo, como o gerente Arturo Román (Enrique Arce) e Mónica Gaztambide (Esther Acebo), que funcionam tanto como “pedras no sapato” como motineiros, em suas próprias perspectivas. E cada sequência é construída de forma complexa e paradoxal, por assim dizer: a fotografia opta por enquadramentos mais simétricos, que são aprofundados com o deslize suave das câmeras seguindo o ponto de fuga do cenário e, ao mesmo tempo, fornecendo uma sensação angustiante e perturbadora à medida que os eventos ocorrem.

Entretanto, pensar que a produção se vale inteiramente de elementos originais é cair em uma superestimação muito complicada. Prepare-se sim para ver as montagens frenéticas, as câmeras na mão, mas dosadas de forma equilibrada para que não ofusquem a profundidade da história – a qual é reafirmada constantemente com cada cliffhanger, aproveitando as aberturas para mudar o lado que está vencendo do jogo o tempo todo sem cair na mesmice ou na monotonia.

Em suma, La Casa de Papel é uma das grandes surpresas de 2017 – e se duvidar da década. Com tramas e subtramas limpas e ao mesmo tempo carregadas de duplo sentido, bem como seus incríveis personagens, é muito difícil não mergulhar quase que de completo nessa jornada adornada com tensão, drama e romance – e talvez aproveitar o momento para mostrar que as construções formulaicas do gênero de ação não são ainda a única forma de contar uma boa história.

La Casa de Papel (Idem, Espanha – 2017)

Criado por: Álex Piña
Direção: Jesús Colmenar, Alex Rodrigo, Alejandro Bazzano, Miguel Ánges Vivas, Javier Quintas
Roteiro: Esther Martínez Lobato, Álex Piña, Javier Gómez Santander, Pablo Roa, Fernando Sancristóval, David Barrocal, Esther Morales
Elenco: Úrsula Corberó, Itziar Ituño, Álvaro Morte, Paco Tous, Pedro Alonso, Alba Flores, Miguel Herrán, Jaime Lorente, Esther Acebo, Enrique Arce, Maria Pedraza
Emissora: Antena 3, Netflix
Episódios: 13
Gênero: Drama, Ação
Duração: 40 min.

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