Lara Croft: Tomb Raider tornou-se um sucesso de bilheteria; mesmo com sua pífia representação cinematográfica de uma das maiores franquias de games de todos os tempos, o público foi a delírio quando finalmente conseguiu ver uma das heroínas mais bad-ass do mundo da ação e da aventura receber um tratamento em live-action – e melhor: encarnada pelo incrível carisma de Angelina Jolie. Arrecadando mais de 270 milhões em seu box office mundial, era quase certo que a Paramount investisse mais uma vez em uma não tão aguardada sequência, intitulada A Origem da Vida e que traria a protagonista em mais uma perigosa jornada para salvar o mundo, a qual, do mesmo modo que o longa anterior, emerge como mais uma investida fracassada para o mundo dos jogos.

A fracassada rendição epopeica de Croft se expande mais uma vez para o mundo inteiro, agora colocando a heroína em uma busca pela Caixa de Pandora. É interessante ver esse intercâmbio entre culturas, seguindo o mesmo padrão que a iteração predecessora, de misturar diversas mitologias em um único cosmos, ainda que se mantenha em uma superficialidade excessiva. Esse talvez seja o ápice de uma narrativa saturada com acontecimentos inverossímeis, falta de senso lógico e resoluções tão ocasionais que chegam a ser risíveis – a começar pelas pessimamente construídas cenas de ação que mais se assemelham a um composé desequilibrado de cortes bruscos e câmera na mão.

Durante o primeiro ato, a personagem viaja até um templo submarino em pleno oceano Pacífico para resgatar um artefato místico e muito perigoso – uma orbe luminosa que contém a localização de um dos objetos mais aterrorizantes da História. Para que não caia em mãos erradas, esse mapa nem um pouco convencional deve ser mantido a salvo – mas é claro que, por um infortúnio do destino, agentes do serviço secreto chinês que trabalham com um dos vilões mais blasés que já perscrutaram as telonas, Jonathan Reiss (interpretado pela esquecível presença de Ciarán Hinds). Entretanto, é cômico ver como esses caçadores de recompensas conseguem roubar a orbe das mãos de Croft, atirando uma flecha que nem mesmo a pega de raspão e que, de alguma a forma, a faz derrubar o objeto nas mãos do inimigo.

As coisas só pioram depois disso: o diretor Jan de Bont parece copiar os trejeitos clichês de Simon West, não sabendo como arquitetar uma boa sequência de luta ou até mesmo como construir uma atmosfera tensa e envolvente, salvo por alguns breves momentos no segundo ato e no terceiro. Entretanto, De Bont se respalda demais em elementos intransigentes à narrativa, incluindo a melodramática trilha sonora que basicamente é composta com os formulaicos instrumentos de corda e um escopo pedante à catarse. Mas não podemos culpá-lo por completo, visto que o roteiro assinado por Dean Georgaris não honra o material original e apenas pontua várias frases feitas para fazer o mínimo de esforço à narrativa – e isso inclui metáforas repetitivas, discursos ridículos e desfechos inenarráveis de tão ruins que são.

Ao menos Jolie consegue despontar como uma sutil melhora para essa desnecessária sequência. Abandonando um forçado sotaque britânico, ela preza por uma naturalidade bem-vinda que predomina por grande parte do filme, ainda que em alguns momentos ela traga expressões faciais canastronas, principalmente nas cenas de luta. Mas sem dúvida seu comprometimento com o filme é muito maior que o seu colega Gerard Butler, que dá vida ao ex-oficial da marinha escocesa e mercenário Terry Sheridan. Diferentemente da primeira história, aqui a narrativa se preocupa em introduzir e traçar uma leve linha de relacionamento entre os personagens, abandonando o foreshadowing inexistente e permitindo que o público fique inteirado acerca dos personagens coadjuvantes. Croft vai atrás de Terry, que também é seu ex-amante, para recrutá-lo nessa perigosa aventura.

Ainda que o primeiro ato se desenrole de modo acompanhável e até mesmo interessante, o roteiro não sabe em que direção seguir – e nem mesmo pensa em recuperar alguns aspectos da clássica jornada do herói para fornecer um pouco de base estrutural aos seus protagonistas. Em vez disso, torna-se um escopo presunçoso recheado com inúmeras sequências ao “melhor” estilo pancadaria para preencher lacunas e furos.

O deslize mais doloroso, porém, insurge com a pífia montagem. Basicamente, o filme tem quatro finais; seu tempo de exposição é tão desnecessariamente longo que torna-se cansativo além do normal – e, ao contrário de Lara Croft: Tomb Raider, não temos uma linha narrativa que segue determinada cronologia e funciona como peças de um quebra-cabeça, mas sim blocos justapostos que se assemelham a curtas-metragens independentes. Cada uma dessas tramas tem início, meio e conclusão, por mais superficiais que sejam – e eventualmente cansamos de revirar os olhos quando o fade out logo dá margem para mais uma construção envolta em tiros e mortes aleatórias.

Ainda que tenha feito um modesto sucesso na bilheteria – arrecadando pouco menos que o dobro de seu pequeno orçamento -, A Origem da Vida apenas reafirma o conceito senseless e quase ridículo de tão surreal de uma franquia que não deveria existir. Mais uma vez, nada se salva aqui – e talvez esse tenha sido o pontapé inicial para a onda de remakes de jogos que iria se estabelecer na década de 2010, infelizmente.

Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida (Lara Croft: Tomb Raider – The Cradle of Life, EUA – 2003)

Direção: Jan de Bont
Roteiro: Dean Georgaris
Elenco: Angelina Jolie, Gerard Butler, Ciarán Hinds, Chris Barrie, Noah Taylor, Djimon Hounsou, Til Schweiger, Simon Yam, Terence Yin
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 117 min

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