Na sua primeira temporada, The Leftovers foi, essencialmente, uma série sobre a perda e o luto. Caminhando seguramente na linha tênue que separa o natural do sobrenatural, isto é, nunca enlaçando completamente um lado ou outro, a história, dividida em dez episódios, abordava questões acerca da manifestação terrestre do divino, mas, principalmente, focava nos dramas enfrentados pelos seus personagens e as consequências emocionais oriundas do súbito desaparecimento de uma porcentagem considerável da humanidade.

Já na segunda temporada, os criadores do programa, Damon Lindelof e Tom Perrotta (este último escreveu o livro que serviu como material de adaptação do primeiro ano), numa decisão corajosa e criativamente ousada, resolveram dar um giro de 180º na trama, virando a série de cabeça para baixo. Simbolizadas na mudança de local (os personagens saíram da imaginária Mapleton, no estado de Nova York, e foram para a também imaginária Miracle, uma cidade do Texas onde nenhum habitante desapareceu no fatídico 4 de Outubro), as alterações narrativas fizeram com que The Leftovers abandonasse parcialmente a melancolia e o ritmo contemplativo da primeira temporada e investisse, no lugar, numa atmosfera de suspense e mistério, além de abraçar definitivamente o caráter sobrenatural da história.

Agora, com a proximidade da estreia da sua derradeira temporada e a informação prévia de que os personagens trocariam novamente de lugar (Miracle por uma cidade da Austrália), os fãs estavam ansiosos por saber se haveria outras mudanças radicais na trama e narrativa. Porém, baseado no primeiro episódio do terceiro ano (que, a convite da HBO, o Bastidores pôde assistir antecipadamente), os sortudos que acompanham a série podem se acalmar: Kevin e os de mais personagens continuam suas jornadas na mesma toada alucinante que fez da segunda temporada do seriado o evento televisivo mais fascinante do ano passado.

Assim como no episódio inicial do segundo ano, “The Book Of Kevin” também começa com uma cena que se desenrola no local em que ocorre a atual ação da história, mas mostrando personagens estranhos ao espectador e que vivem numa outra época, mais especificamente, no século XIX. Durante alguns breves minutos, numa passagem engolfada pela trilha musical e construída quase que inteiramente sem sons diegéticos, acompanhamos uma família religiosa que vive numa espécie de vilarejo medieval e anseia pelo fim do Mundo tão alardeado pelo pároco da aldeia. No entanto, eles são obrigados a lidar com a frustração, uma vez que todas as previsões acabam se revelando equivocadas.

Tematicamente condizente com as questões discutidas na série, essa sequência inicial anuncia aquilo que, provavelmente, será a linha mestra dos próximos episódios: o sentimento de antecipação que um grupo de personagens compartilha sobre a iminência do Armagedom divino. E faz sentido que a proposta seja essa, afinal de contas, depois de uma cena em que nos é apresentada a situação imediata após o término da segunda temporada, a série dá um salto temporal de três anos, e descobrimos que estamos há treze dias apenas do aniversário de sete anos do Arrebatamento. Aos que já leram a Bíblia ou tiveram algum tipo de ensinamento cristão, é sabido que o número 7 é recorrente tanto no Velho quanto no Novo Testamento, além de, comumente, simbolizar transformações radicais na linearidade histórica.

No entanto, esse sentimento de antecipação somente se delineia neste primeiro episódio, tendo muito mais espaço para a apresentação da situação em que os personagens se encontram após os acontecimentos catastróficos da última season finale. E, contrariando todas as expectativas, Kevin, Nora, Laurie, Tom, Jill, Matt, Mary, John e Michael (ao passo que o destino de Erica não é indicado, os de Evangeline e Meg são levemente mencionados) estão surpreendentemente bem, aceitando facilmente o papel social que lhes cabe dentro da sociedade forçadamente modificada de Miracle. Os dois primeiros se tornaram responsáveis pelo policiamento local (Tom também auxilia o seu pai na tarefa), enquanto os outros encontraram maneiras distintas de continuarem vivendo ou professando os seus ideais e fé.

Mas, em questão de minutos, essa aparente perfeição começa a revelar as suas rachaduras: algumas situações e figuras do passado (que, obviamente, não revelarei quais são) começam a aparecer, trazendo novas informações e colocando determinadas certezas em xeque novamente. Certezas estas que eram constituídas por tramas aparentemente finalizadas, como a história vista na primeira temporada envolvendo uma possível loucura canina generalizada (no episódio atual, há uma curiosa cena com um cachorro e um sanduíche mordido), e encerramentos cristalinos de arcos dramáticos, como a discussão sobre a veracidade de certas situações que tinham Kevin como protagonista.

Aliás, é impressionante ver como este início de temporada, além de conseguir introduzir um número relativamente grande de reviravoltas num curto espaço de tempo, tem o mérito também de recolocar a dúvida onde antes existia apenas a certeza. Por exemplo: era difícil acreditar que, depois de testemunhas terem presenciado as mortes e ressurreições de Kevin, o espectador duvidaria novamente da autenticidade desses momentos. Porém, a parcial descrença do próprio protagonista, juntamente com outros instantes em que percebemos que um personagem engana as pessoas com a sua falsa clarividência ou situações extremas nas quais o ridículo beira a comicidade (a já mencionada história envolvendo os cachorros), colocam o sobrenatural presente no universo de The Leftovers novamente à prova.

Mas, ao que tudo indica, Lindelof está criando mais uma vez um edifício de descrença para simplesmente destruí-lo com provas irrefutáveis da ação divina no Mundo, assim como fez sutilmente na soberba série Lost e mais ativamente na temporada anterior da sua criação atual. O seriado, por vezes, parece refletir nessa oscilação entre o real e o metafísico muito da fragmentação interior vista nas gerações atuais, criando um universo ao mesmo tempo sagrado e profano no qual Deus, na Sua busca por salvadores terrestres, encontra apenas seres destruídos para incumbi-los de missões redentoras.

Tendo como ponto negativo apenas algumas repetições (o uso da câmera lenta nas cenas de manifestação já está virando um fetiche perigoso) e excessos (há um abuso no emprego de canções religiosas como uma ferramenta de ironia), o primeiro episódio da última temporada de The Leftovers retoma o fôlego e trilha o mesmo caminho bem sucedido dos episódios anteriores. Além disso, promete novos mistérios a serem solucionados (o instante final é um verdadeiro ponto de interrogação). E, assim como os personagens da série esperam pelo fim do Mundo, nós, da beira de nossos sofás, esperamos ansiosamente pelos próximos capítulos. Trocando em miúdos, a espera acabou. Enfim, a melhor série de televisão da atualidade retornou!

The Leftovers – 03×01: The Book Of Kevin (Idem, 2017, EUA)

Criado por: Damon Lindelof e Tom Perrotta
Direção: Mimi Leder
Roteiro:
Damon Lindelof e Patrick Somerville

Elenco: Justin Theroux, Carrie Coon, Liv Tyler, Amy Brenneman, Christopher Eccleston, Kevin Carroll
Gênero: Drama
Duração: 60 min

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