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Após a cena final embasbacante do episódio da semana passada, em que vemos Nora Durst (Carrie Coon) envelhecida, usando um nome diferente (Sarah) e vivendo no que parece ser um cenário pós apocalíptico, no segundo capítulo, intitulado Don’t Be Ridiculous, em um desenvolvimento lógico, acompanhamos novamente os seus percalços, desta vez no momento atual, num daqueles típicos episódios de The Leftovers nos quais quase toda a atenção é dedicada a um único personagem. Mas não pense que o mistério apresentado no final de The Book Of Kevin será solucionado neste segundo episódio. Provavelmente, isso ficará somente para as horas finais.

Em Don’t Be Ridiculous, depois de uma cena inicial que mostra o homem do pilar falecendo em razão de um ataque cardíaco e antes de uma sequência de eventos que termina com a crença geral de que ele foi levado por Deus, quando, de fato, o seu corpo foi escondido pela esposa lunática (é interessante notar como a dubiedade desse mistério é rapidamente solucionada), somos apresentados à nova abertura da série, que, embora mantenha as mesmas imagens, teve a canção “Let The Mistery Be”, da cantora country Iris DeMent e que fora introduzida na segunda temporada (portanto, condizente com o fato de que a história se situava no Texas), substituída por “Nothing Gonna Stop Me Now, tema de abertura da sitcom Perfect Strangers e que está relacionada com algo que é mostrado neste episódio em particular (é provável que a canção mude de acordo com a história do capítulo).

Na linha narrativa de The Leftovers, o ator Mark Linn-Baker (interpretando a si mesmo) foi o único do elenco principal do mencionado programa humorístico que foi deixado para trás. Isso fez com que ele fraudasse o próprio arrebatamento. Uma vez descoberta a fraude, ele retornou ao anonimato, até que, depois de um longo tempo, se tornou o porta-voz de uma organização que promete levar as pessoas que perderam os entes queridos no dia da “Partida” ao local em que os desaparecidos foram enviados. Após ligarem para Nora prometendo um reencontro com o marido e os dois filhos, ela decide viajar para conversar diretamente com Baker.

Começando com uma metáfora visual que enxerga os andares do hotel como as camadas psicológicas de Nora e contendo uma fala deliciosamente irônica e dúbia (após jogar o celular da personagem interpretada por Carrie Coon no vaso sanitário, Baker diz “As coisas realmente importantes estão na nuvem”), a cena em que os dois dialogam e na qual descobrimos que a organização consegue recriar a particularidade energética das localizações exatas em que os arrebatados desapareceram é um daqueles momentos raros em que a intensidade das performances (Coon é uma atriz brilhante), juntamente com a lógica de empregar grandes close ups das expressões dos atores, hipnotiza o espectador e o engolfa no mistério de uma maneira irrepreensível. E pelo que é indicado neste episódio, a veracidade da experiência prometida pela organização será estendida e, provavelmente, iremos descobrir mais a respeito do assunto apenas nos capítulos futuros. Portanto, mais um mistério envolvente captará a nossa atenção pelas horas vindouras.

Isso, aliado ao fato de que a personagem começa refletir sobre a decisão de ter deixado Lily para trás e a irônica ideia de a ter colocado em guerra com aparelhos eletrônicos (a máquina travando no momento exato em ela tenta dizer que não viajará com uma criança de colo é algo que só poderia mesmo ter saído da cabeça de Damon Lindelof), são suficientes para garantir a eficiência e relevância do episódio dentro do todo. É sempre uma experiência rica ver como os realizadores conseguem explorar novos características dos personagens e constantemente colocar em xeque a verdade dos acontecimentos sobrenaturais (todos os aparelhos eletrônicos falhando é somente uma coincidência ou há algo mais profundo agindo por detrás das cortinas)?

No entanto, Don’t Be Ridiculous não está livre de falhas. Algo que vem incomodando desde o episódio anterior e que aqui se repete na mesma frequência é o uso excessivo de canções “peculiares” para reforçar a ironia do seriado. A insanidade do universo de The Leftovers já está muito bem estabelecida. Não há necessidade de martelar na cabeça do espectador a todo momento. Essa é uma crítica que fiz na análise anterior e faço novamente. E, se continuar a acontecer nos próximos episódios, continuarei a fazer. Está claro que isso deu muito certo na segunda temporada e se transformou num recurso usado indiscriminadamente.

Uma outra falha é a repetição de alguns dramas internos de Nora. Em The Book Of Kevin, foi dada muita atenção ao gesso que está no braço da personagem. Logicamente, havia ali algo além de um simples machucado. Quando é revelado o que aconteceu, em vez de ser algo inesperado ou chocante, descobre-se que foi uma simples tatuagem que ela fez com os nomes dos seus dois filhos e que, depois de ter se arrependido, quis esconder sob um outro desenho (o logo de uma banda). Ora, isso é totalmente compreensível. Mas o pecado maior é mais uma vez tentar reforçar algo que já está devidamente claro. É sabido o tanto que ela sofreu em decorrência da tragédia que lhe ocorreu. Para que ressaltar mais uma vez? Não é à toa que o momento em que ela conversa com Erika (Regina King) não possui a força que os realizadores claramente imaginam ter.

Além disso, se por um lado, esse instante é importante para nos mostrar a personagem interpretada pela ótima Regina King e qual foi o seu destino após os eventos vistos na segunda temporada, ele termina com uma cena vergonhosa na qual ela e Nora pulam numa cama elástica em câmera lenta e embalada por uma canção de hip hop (da banda que ela tatuou no braço). Novamente, aqui se tem um momento que deve ter sido imaginado como genial, mas que, na prática, se revela meramente estranho e vazio. Tudo bem, elas estão extravasando, porém, o que há de muito relevante nisso? A resposta é simples: nada.

Mas, como erros dessa natureza não são comuns em The Leftovers, logo a série retoma o caminho correto, e o episódio é finalizado com uma cena comicamente trágica que se passa na Austrália e na qual um grupo de mulheres religiosas, na ânsia de encontrarem o verdadeiro Kevin (será que as histórias de ressurreição do personagem estão se espalhando pelo Mundo?) acabam assassinando um inocente. Segundos depois, é revelado que essas mulheres estão com o pai do protagonista, que, como mostra o preview da semana seguinte, terá um episódio focado nas suas andanças pelo Outback.

Portanto, no próximo episódio, descobriremos o que o Kevin Garvey Sr. (Scott Glenn) tem a dizer sobre o fim que está se aproximando. Se o que estamos vendo é real ou não, ele é o personagem que, através das suas profecias ou visões insanas, talvez seja o mais capacitado a discernir. Afinal de contas, no mundo de The Leftovers, o normal é tomado por loucura e a loucura é tomada por normal. No meio desse caos, é difícil saber quem está está dizendo a verdade. O louco ou a pessoa “psicologicamente sã”.

The Leftovers – 03×02: Don’t Be Ridiculous (Idem, 2017, EUA)

Criado por: Damon Lindelof e Tom Perrotta
Direção: Keith Gordon
Roteiro:
Damon Lindelof e Tom Perrotta

Elenco: Justin Theroux, Carrie Coon, Christopher Eccleston, Kevin Carroll, Regina King, Chris Zylka, Scott Glenn
Gênero: Drama
Duração: 60 min.

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