» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter e fique por dentro de todas as notícias! «

Em sua essência, “G’Day Melbourne” é um episódio sobre fraudes, não apenas no sentido jurídico, mas também no seu sentido mais amplo. Embora de maneiras diferentes, Kevin e Nora tiveram de enfrentar decepções. E, depois, no final, extravasaram os seus desapontamentos individuais no outro, revelando, enfim, aquilo que já sabíamos há muito tempo: o seu relacionamento não está tão bem quanto aparenta. A incapacidade de se comunicarem e a falta de confiança que depositam em si mesmos, além do espectro da filha que abandonaram, está fazendo com que se isolem na sua própria solidão, fechando-se, portanto, aos problemas do parceiro.

Logo nos minutos iniciais, essa fractura amorosa já é estabelecida através de um momento típico de The Leftovers, no qual a aparente superficialidade de um diálogo ou gesto esconde um significado muito mais profundo. Prestes a embarcar em um avião para a Austrália, o casal é confrontado por uma atendente que lhes pergunta se estão juntos ou não. Claramente, isso é uma formalidade profissional. Porém, a demora para responder revela que esse questionamento foi entendido de uma maneira muito mais pessoal. Depois de cada um ir por um caminho diferente, Kevin quer saber por que Nora não esperou por ele na fila, e ela lhe revela o motivo, mas, rapidamente, o seduz para que nenhuma outra pergunta seja feita.

Assim, é óbvio que há segredos entre eles. Isso fica ainda mais evidente quando chegam em Melbourne. Se refletindo na própria estrutura do episódio, que separa os personagens em dois núcleos narrativos distintos, para, depois, juntá-los novamente, essa ausência de conexão emocional será acompanhada pela frustração que sentirão ao fim de suas respectivas jornadas. Essa frustração individual, por sua vez, simbolizará, em um plano maior, a desilusão amorosa compartilhada pelos dois e que é proveniente das mentiras e segredos com que alimentam a sua relação. Quando os créditos finais sobem, todas as situações se mostram fraudulentas. Nada é o que parecia ser.

Em primeiro lugar, Kevin projeta o seu desejo de fuga (o que são aquelas sessões de sufocamento senão uma maneira de escapar por alguns minutos?) na figura de Evie (Jasmin Savoy Brown), passando a vê-la constantemente no rosto de uma outra mulher. Por algumas horas, questiona-se sobre a autenticidade daquilo que está testemunhando. Seriam alucinações, aparições fantasmagóricas ou a filha de John (Kevin Carroll) está realmente viva? No caso da primeira opção, isso significaria que ele está louco, mas, depois do que vimos na temporada anterior, essa possibilidade talvez esteja fora de cogitação. No caso da terceira, isso incorreria numa situação sem reais consequências na sua própria vida. Para descobrir qual das três é a correta, ele precisa da ajuda da ex-mulher (o fato de não ter ligado para Nora é sintomático). Baseado naquilo que é mostrado, tudo indica que Kevin desejava profundamente que a segunda opção fosse a verdadeira.

Afinal, para solucionar o mesmo problema novamente, ele teria de ir mais uma vez ao mundo espiritual, e a sua tão desejada fuga seria, assim, plenamente justificada. Além disso, essa viagem até “o outro lado”, em uma outra camada interpretativa, implicaria naquilo que parece ser uma satisfação pessoal em ser considerado por seus “discípulos” (Matt, John e o filho deste) como o novo Messias. Se ele não se importa com o livro que está sendo escrito a seu respeito, por que faz questão de levá-lo a todos os lugares que vai? No entanto, seja qual for a verdade interior do personagem, o que importa no episódio desta semana é que todos os becos que percorre não têm saída (a conversa com uma mulher em um beco não é algo aleatório). No fim, era somente uma projeção. Novamente, nada é o que parecia ser.

No que concerne à história de Nora, ela começa a investigar sobre o grupo de pessoas que prometem transportar as pessoas deixadas para trás até o local em que os arrebatados foram levados. É difícil dizer se ela está interessada em expô-los ou se realmente acreditou na veracidade do produto que estão vendendo. Pela forma como ela reage após ser recusada (a pergunta que ela responde erroneamente é a mesma que ouvimos da boca de um personagem anônimo no episódio anterior), a maior probabilidade é de que a segunda opção seja a verdadeira. Ela não consegue esquecer a tragédia que lhe ocorreu, e o acaso (ou destino) parece também não querer que ela esqueça, pois o encontro com a mãe que lhe pede para cuidar do seu bebê não parece ser uma simples fortuidade.

Porém, mais uma vez, além da possibilidade de que essa transportação seja uma fraude técnica (jurídica), há também a fraudulência simbólica da investigação da personagem que não vai a lugar algum. Como descobrir se estão falando a verdade agora que Nora não terá mais contato com eles? Ela prometeu seguir no caso e revelar o engodo (se, de fato, é um, pois, no mundo de The Leftovers, tudo é possível), mas não dá para saber qual será o desfecho dessa história. O que dá para dizer é que, assim como Kevin, Nora termina a sua jornada em “G’Day Melbourne” frustada. Aquilo que parecia ser facilmente desmentido mostra-se muito mais intrincado. Repito: nada é o que parece ser.

Dessa maneira, através de duas linhas narrativas similares na sua estrutura e fechamento, e numa espécie de explosão sinfônica na qual temas ouvidos anteriormente se repetem no final, as duas frustrações individuais servem para simbolizar e relevar a fraude principal: o relacionamento dos dois. Em uma cena apoteótica, em que Justin Theroux e Carrie Coon mostram o quanto compreendem os martírios sofridos pelos seus respectivos personagens, há um bombardeio de reclamações, lamentos e rancores. Nenhum deles está satisfeito com a atuação do outro na relação. Como fica claro nos instantes finais, quando Kevin queima as páginas do livro e o detector de incêndio desaba sobre Nora, ele é fogo, e ela é água. Dois elementos distintos, unidos, talvez, apenas pela dor em comum.

Finalizando este episódio soberbo, eles terminam solitários (e, ao que tudo indica, enfrentarão novas situações também sozinhos), ao som da canção “Take On Me”, do grupo norueguês A-ha. É difícil dizer qual é a solução para os dois. Eles devem se comunicar mais? Conhecer os segredos íntimos do outro? É provável que Lindelof tenha dado uma dica na própria letra da música: “Me aceite, pois irei embora em um ou dois dias”. Não nos esqueçamos que o aniversário de sete anos da “Despedida” está muito próximo de acontecer, e, com ele, o provável fim do Mundo. Talvez, eles não tenham nada a fazer senão aceitar um ao outro, problemáticos e complexos como são.

The Leftovers – 03×04: G’Day Melbourne (Idem, 2017, EUA e Austrália)

Criado por: Damon Lindelof e Tom Perrotta
DireçãoDaniel Sackheim
Roteiro:
 Tamara P. Carter e Haley Harris, a partir de uma história concebida por Damon Lindelof

Elenco:  Justin Theroux, Carrie Coon, Kevin Carroll, Amy Brenneman, Scott Glenn, Jasmin Savoy Brown
Gênero: Drama
Duração: 60 min

Confira AQUI nosso guia de episódios

Comente!