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Depois do excelente episódio da semana passada, as suspeitas que estavam se delineando em “Don’t Be Ridiculous” e “Crazy Whitefella Thinking” – o segundo e terceiro episódios da temporada atual respectivamente – se confirmaram em “It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World”: Damon Lindelof não está sabendo como terminar a história de The Leftovers e, em razão disso, está preenchendo cada um dos capítulos com elementos de estranheza que têm a pretensão de passarem por puros arroubos de genialidade. É como se ele e os outros roteiristas estivessem em uma sala imaginando situações peculiares e selecionando-as de acordo com o seu grau de bizarrice.

No último episódio, isso ficou evidente, e a história atingiu níveis estratosféricos de estranheza. Teve de tudo, desde um terrorista nu correndo em câmera lenta com uma canção cantada em francês ao fundo até um grupo de devassos adoradores de um leão, passando por aquele que é o momento mais bizarro de toda a série: uma conversa entre o crente Matt Jaminson (Cristhopher Eccleston) e um sujeito que afirma ser Deus (Bill Camp). Depois disso, a pergunta que fica é a seguinte: além da curiosidade proveniente de tanta excentricidade, há muita relevância ou significado no que acabamos de assistir? Infelizmente, a resposta para essa pergunta é negativa.

Desde o segundo episódio da temporada atual, a série está andando em círculos. Em “Don’t Be Ridiculous”, entre uma ou outra novidade, confirmamos aquilo que já sabíamos ainda na primeira temporada: Nora (Carrie Coon) continua sofrendo em razão do desaparecimento dos seus filhos e marido. Em “Crazy Whitefella Thinking”, vimos, mais uma vez, as possíveis insanidades de Kevin Garvey Sr. (Scott Glenn). Por fim, em “It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World“, presenciamos algo que era evidente desde o começo: a fé de Matt é tão genuína quanto egocêntrica. No entanto, embora o episódio nos apresente esse fato como se fosse algo inédito, não há nada de muito surpreendente nisso. Afinal, excetuando-se a dos santos, a fé de todos os outros humanos quase sempre é parcialmente egoísta.

Mas os maiores problemas do episódio não são a repetição de velhos temas ou uma incompreensão do que é a essência da fé. Na verdade, o que está mais incomodando é o invólucro atrás do qual essas discussões estão acontecendo. Lindelof parece estar completamente descontrolado nestes últimos capítulos. Além de usar excessivamente a trilha sonora como um comentário irônico sobre as vidas dos personagens (uma espécie de recurso metalinguístico que cansei de criticar), como se o que estivéssemos acompanhando por três anos fosse uma grande piada, ele piora a situação com cenas exageradas e, na falta de um termo melhor, bobas.

Simbolizando uma nova Sodoma e Gomorra (Lindelof deve ter pensado que era um gênio por ter usado essa referência bíblica), toda a sequência que se desenrola entre Matt e as outras pessoas no navio é pavorosa, para não dizer vergonhosa. “Se você disser o nome Frasier, terá de se transformar nele” é o que diz uma das devassas. Nesse momento, imagino as pessoas assistindo ao episódio e, como não estão estendendo nada, achando que isso se deve à elevada inteligência daquilo que está acompanhando. Besteira. Essas cenas realmente são vazias. Estranhas, mas completamente inócuas.

Porém, o fundo do poço é atingido no diálogo de Matt com David Burton, vulgo Deus. The Leftovers sempre foi singular, mas aqui a extrapolação é astronômica. Não dá para saber ainda se o personagem é um lunático ou se é realmente Jeová, no entanto, no caso da primeira possibilidade, a cena se revela decepcionante, pois, além de verbalizar uma verdade sobre o pastor que já tínhamos visto em outros momentos muito mais sutis (de que há um auto centrismo na sua crença), no caso da segunda possibilidade, temos um grande problema conceitual no universo metafísico da série.

Lindelof sempre fez questão de frisar que há uma dúvida sobre o caráter sobrenatural da maioria dos eventos do seriado ou até mesmo do Mundo como conhecemos. As falas de Burton, ou Deus, apontam para uma vertente mais cética. Segundo ele, Jesus não era o seu filho, e o Nazareno tinha um irmão gêmeo idêntico que se passou pelo Messias ressuscitado. Além disso, o divino só se manifestou em Burton há poucos anos. Portanto, desse contexto, é possível concluir que os roteiristas entendem que alguns acontecimentos sobrenaturais são falaciosos. No entanto, ainda assim, se o personagem é mesmo Deus, o transcendente realmente existe, e a discussão deixa de ser sobre a veracidade do divino e passa a girar sobre o quão preciso são os relatos históricos sobre as ações milagrosas. Assim, não dá para saber quais são os assuntos que Lindelof está tentando discutir.

No fim, esse tipo de questionamento acaba servindo para provar a confusão na qual  o universo de The Leftovers está adentrando. Restam ainda três episódios, mas, de acordo com o andamento da temporada, talvez não haja tempo para corrigir o curso. Mais perguntas estão se formando, e o tempo para respondê-las está diminuindo a cada semana. Está na hora de tomar uma decisão, optar por um caminho e começar a desenhar o trajeto final dos personagens (parece que Lindelof está tentando trazer ceticismo para o mundo da série, mas, depois do que vimos na segunda temporada, isso é impossível de ser feito) . A série já passou do momento de experimentações temáticas e narrativas. O fracasso de “It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World” nos mostrou exatamente isso.

The Leftovers – 03×04: It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World (Idem, 2017, EUA e Austrália)

Criado por: Damon Lindelof e Tom Perrotta
Direção: Nicole Kassell
Roteiro:
Damon Lindelof e Lila Byock

Elenco:  Christopher Eccleston, Amy Brenneman, Kevin Carroll, Jovan Adepo, Bill Camp, Benito Martinez
Gênero: Drama
Duração: 60 min

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