Não há dúvida de que os X-Men tem a mitologia mais confusa e contraditória de todo o audivisual quando nos referimos à adaptações de quadrinhos. Cada filme reinventa seu universo, oferece novas conexões e simplesmente ignora alguns filmes, quase como se estes habitassem seu próprio universo particular. Se é danoso do ponto de vista estrutural, oferece a oportunidade de fazermos a leitura da trajetória dos X-Men no cinema (e agora na televisão) sob a lente de uma antologia: cada filme, cada seriado e cada produto audiovisual é uma história isolada que oferece suas próprias liberdades e abordagens. 

Só assim para que algo como Legion pudesse existir. Sob os cuidados do excelente showrunner Noah Hawley, que comprovou seu talento nas duas geniais temporadas de sua antologia Fargo, a série é algo diferente de tudo o que já vimos no famigerado gênero de super-heróis, portando de sua própria narrativa peculiar, uma identidade visual marcante como poucas e um senso de humor único. Tão louca e distinta que, se por acaso, o Professor Xavier de James McAvoy caminhasse de mãos dadas com o Tocha Humana de Chris Evans ao fundo, eu acharia perfeitamente normal.

No primeiro capítulo da primeira temporada, somos apresentados à David Heller (Dan Stevens), um sujeito internado em um hospital psiquiátrico sob o diagnóstico de esquizofrenia paranóica. David clama que todas as visões que têm e as vozes que invadem sua cabeça são reais, algo que é reforçado pela chegada de Sydney Barriett (Rachel Keller), uma mulher que só não é mais misteriosa do que seu repentino desaparecimento. A partir daí, é um desafio mapear a narrativa de Noah Hawley, que então joga David em um interrogatório com agentes do governo e nos bombardeia com flashbacks da primeira manifestação de suas habilidades e imagens oníricas de seu passado.

É seguro atestar que definitivamente não temos nada na televisão americana atual como Legion. Desde sua narrativa intrincada, que vai e volta no tempo através de transições inacreditáveis e só vai entregando as peças do quebra-cabeças ao espectador de acordo com sua própria vontade, tornando uma experiência onde não sabemos exatamente o que estamos vendo ou seguindo (muitas vezes, pode tornar-se confusa), mas a jornada é incrível. A direção de Hawley aposta em enquadramentos bizarros, um uso certeiro da lente grande angular, efeitos visuais verossímeis e muitas pirações com luzes, cores e figurinos, sendo uma experiência sensorial que nos coloca profundamente na cabeça de David Heller; é bem tênue a linha entre telepatia e pura loucura, e estamos constantemente nos perguntando o que é real e o que é fantasia. Imagine Nicolas Winding Refn dirigindo um filme de super poderes, com toda sua pirotecnica e espetáculo de cores, e temos uma ideia do que é Legion.

Obviamente, o espectador fã de quadrinhos sabe que David Heller é filho do professor Charles Xavier na mitologia, e a única menção que temos a esse universo aqui vem quando um dos agentes do governo afirma que “este é o mutante mais poderoso que já encontramos”, o que também confirma que todas as alucinações e vozes captadas pelo protagonista são frutos de sua enlouquecedora habilidade. Heller ainda não tem ciência disso, nem de como funciona sua telepatia e telecinese, mas Chapter 1 já nos dá uma ideia da dimensão de seus poderes e do que exatamente Sydney Barrett faz parte. Quando chegamos ao clímax surpreendentemente explosivo do episódio, tudo se fecha com clareza e estabelece um terreno promissor para os futuros 7 episódios da temporada.

É fascinante como Hawley traz o mesmo senso de humor surrealista e peculiar de sua Fargo, como ao trazer um “capanga” do Interrogador de Hamish Linklater que não abre a boca e só fica observando com uma cara carrancuda e cartunesca, assim como a violência súbita (e cômica) ao vermos esqueletos torrados durante uma sequência particularmente brilhante. Dan Stevens, em particular, surge absolutamente perfeito na pele de Heller, captando toda a bizarrice do seriado e transmitindo com eficiência a confusão mental do protagonista e o discurso acelerado e atrapalhado para explicar as coisas. Stevens é o grande charme, mas há espaço para que Aubrey Plaza brilhe como a melhor amiga surtada de Heller ou que Rachel Keller tenha uma presença mística e atraente.

Definitivamente Legion é o tipo de série que fará mais sentido quando tivermos todos os 8 episódios reunidos. É uma narrativa sinuosa e propositalmente confusa, que corajosamente nos coloca sob os olhos de um protagonista incomum e entrega um dos feitos mais originais e frescos que alguém já extraiu de uma adaptação de quadrinhos. Vida longa ao louco, confuso e fascinante universo dos X-Men.

Legion – 01×01: Chapter 1 (Idem, 2017, EUA e Canadá)

Criado por: Noah Hawley
Direção: Noah Hawley
Roteiro: Noah Hawley

Elenco: Dan Stevens, Aubrey Plaza, Rachel Keller, Jean Smart, Hamish Linklater, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Bill Irwin, Katie Aselton
Gênero: Drama, Ação
Duração: 107 min.

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