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O célebre historiador inglês Paul Johnson descreve o Congo belga – em sua monumental trajetória do século XX, Tempos Modernos – como uma “vasta, valiosa e primitiva” região em pleno impulso econômico pouco antes da independência (1960), com um índice de leitos de hospital por habitantes maior que o da própria Bélgica e altas taxas de alfabetização – em momento imediatamente anterior à onda de populismo de políticos profissionais como Patrice Lumumba, o qual tão bem caracterizaria o caos africano pós-colonial.

Nada disso interessa a David Yates e seu A Lenda de Tarzan, uma superprodução de 180 milhões de dólares com jeito de franquia, mas pretensão de discurso ideológico tendo por objeto os conflitos ocasionados pelo colonialismo, mais de meio século antes. Yates é um experiente diretor de fantasias da saga Harry Potter e sofre para dar nova roupagem ao velho enredo de aventuras do casal Tarzan e Jane, do escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs, especialmente tentando encaixar uma linha paralela composta pelos flashbacks que explicam as origens da lenda e do caso de amor entre uma criança criada pelos gorilas e uma garota “empoderada” do final do século XIX. É inclusive esse “acréscimo” de explicações que torna a metragem do filme ligeiramente exagerada, com quase duas horas que poderiam ser diminuídas sem prejuízo do espetáculo ou mesmo da compreensão da trama, desnecessariamente confusa em seu início.

Para levar adiante o interesse de representantes traiçoeiros da Bélgica na África, Leon Rom (Christoph Waltz) consegue atrair dissimuladamente John Clayton (o Tarzan, Alexander Skarsgård), sua esposa Jane (Margot Robbie) e o mercenário veterano George Washington Wlliams (Samuel L.Jackson) para uma expedição ao Congo que se revela uma armadilha motivada pelo desejo de vingança do Chefe Mbonga (Djimon Hounsou), decorrência esta de um incidente ocorrido há anos, quando Tarzan ainda vivia no continente.

O maior problema de um filme como “A Lenda de Tarzan” reside numa contradição fundamental: sua aversão mórbida à “civilização” (ocidental, burguesa, cristã) está em permanente contradição com o fato de ser o cinema, possivelmente, a mais “civilizada” das linguagens artísticas, dificilmente replicável em sociedades primitivas. Sem civilização, não temos cinema (ou especialmente “indústria de cinema”, da qual o próprio filme é um representante óbvio e grandiloquente). A hipocrisia da abordagem fica escancarada ainda quando, por exemplo, a produção opta por vestir o Tarzan com pouca roupa, mas manter a Jane sempre bem coberta (escolha esta que nada tem de “selvagem”, na falta de melhor definição).

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Sutileza não costuma ser o forte de um filme que não suporta ser simplesmente um passatempo milionário, mas quer também ser “político”: a trama praticamente é aberta com o close de um simulacro de crucifixo, que mais tarde terá importância prática (e reveladora). Enquanto repete mais uma vez o papel de vilão sarcástico que o projetou em “Bastardos Inglórios”, Christoph Waltz simboliza o típico canalha imperialista, ladrão de riquezas e falso religioso. Símbolos da liturgia católica, aliás, são hoje um dos segredos de Polichinelo de uma Hollywood varrida por agnosticismo: nos filmes, são invariavelmente falsos, truques para ludibriar e trapacear. Há espaço em blockbusters como este para todo tipo de crença (em governos, na imprensa, na utopia revolucionária, na empatia natural entre tribos selvagens), exceto a cristã, que surge sempre como uma simulação vazia de significado.

Waltz não é o único ator que se repete no filme, nem tampouco o que reproduz uma espécie de caricatura moldada anteriormente por Quentin Tarantino. O personagem de Samuel L. Jackson (um veterano da Guerra Civil norte-americana em improvável crise de consciência) é também uma repetição confortável do que ele fez anteriormente (em “Os Oito Odiados”, por exemplo), aparentemente inútil para o desenrolar da trama propriamente dita, mas justificada pelo discurso que o filme pretende apresentar.

Num mundo do entretenimento sufocado pela tirania do discurso politicamente correto, onde mobilizações em redes sociais podem comprometer um investimento de centenas de milhões de dólares após um tolo descuido de criação, seria perigoso tornar este novo Tarzan num mero conflito racial entre brancos e negros, por exemplo. Para deixar claro que não é esta a motivação política do filme (mas outra, ligeiramente diferente), o personagem de Jackson representa consciência atormentada diversa (não a do branco, mas a do explorador atemporal civilizado diante da selvagem natureza que explora).

O roteiro de “A Lenda de Tarzan” teria diversas opções para dramatizar o colonialismo, podendo falar da escravidão, do tráfico de marfim, da tirania contra os nativos ou do roubo de pedras preciosas. Na dúvida, ele opta por falar de tudo, o que não deixa ao espectador a menor oportunidade de respirar (e pensar por conta própria). Waltz é branco, é europeu, é vilão. Ele é, especialmente, “civilizado”, e a cena em que arruma os talheres usados sobre o prato sublinha este elemento até exauri-lo. Católicos por sua vez aparecem como falsos e, eventualmente, pedófilos (conforme insinua um diálogo entre o personagem de Waltz e Jane, interpretada discretamente por Robbie).

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Contra a civilização (que é, no filme, irremediavelmente má), há o “bom selvagem humano” (em anódina presença de Alexander Skarsgård), o mero “selvagem humano” (nem bom, nem mau, representado pela tribo desonrada e que faz um acordo com os brancos invasores) e o simplesmente “selvagem” (os animais, um espetáculo particular de animação e material para as encantadoras cenas da selva). Não existe o “mau selvagem” no universo proposto pelo filme, ou ao menos tal questão não é problematizada.

É curioso, contudo, como o que predomina na ação é o amor romântico em sua versão bastante civilizada (e burguesa) entre Tarzan e Jane, em momentos quando o discurso ideológico relativamente barato (porque simplificador) dá espaço aos personagens em sua dimensão mais humana e menos “social”.

Visualmente, o filme oscila no hoje habitual conflito formal das grandes produções de Hollywood: cenas com vasta composição digital por vezes “brigam” com cenas com atores e cenários reais. Os piores momentos desse conflito são, contudo, reduzidos, como no PV de “videogame” em que a animação simula movimentos virtualmente impossíveis para uma câmera de cinema, realçando seu artificialismo. Os planos gerais funcionam muito melhor, ademais, que os closes onde o efeito revela-se facilmente – na mão de Tarzan que lembra a do personagem Hulk em outra franquia e quebra o realismo que, por outro lado, seria mais facilmente mantido confiando-se em recursos cinematográficos óbvios.

Da mesma forma, o recurso do 3D é, aqui, pouco eficiente, ficando em muitos momentos esquecido a ponto de passar despercebido. Os realizadores acabam confiando pouco em suas ferramentas cinematográficas mais elementares – fotografia e edição (as quais, quando bem usadas pela direção, resultam em momentos de preciosa composição, como na cena de abertura ou nos detalhes de “iluminação natural” nas externas) para colocar muitas fichas em C.G.I. e 3D quando estes seriam até mesmo dispensáveis. Nunca é demais chamar atenção para o extraordinário trabalho dos editores de som na indústria, desenvolvendo e exercitando sua mágica arte de criar ambientação e estimular sensações em elaborada mixagem.

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Um filme como “A Lenda de Tarzan” inevitavelmente comunica-se, na história do cinema e no imaginário do espectador, com clássicos recentes como “O Rei Leão” (1994), “King Kong” (2005) e “Avatar” (2009), realimentando o folclore do “bom selvagem”, usurpado pelo “homem civilizado”, ganancioso e violento. Nesse sentido, o filme é mais tolo que um delírio voluntariamente leviano como o “Canibais” (2013) de Eli Roth, que zomba desse autoengano – vejam só, que ironia – também típico do mundo civilizado: buscar na natureza uma inocência perdida.

Enquanto “A Lenda de Tarzan” e seus congêneres optam pela fantasia para supostamente discutir política e história, títulos aparentemente vulgares como o Green Inferno de Roth dão um choque de realidade no espectador, tornando o que seria uma sessão de cinema banal num exercício incômodo de autorreflexão (o que o filme de Tarzan impede através da música sempre presente e do histrionismo de sua “mensagem”).

Se você quer uma sessão de cinema pautada pelo deslumbramento tecnológico e oferecida com o máximo de profissionalismo que a produção de ponta dos estúdios pode atingir, “A Lenda de Tarzan” pode ser uma boa pedida. Mas cuidado: cineastas muito satisfeitos com seus próprios recursos (proporcionados pela civilização ocidental) costumam ser péssimos conselheiros quando o assunto é política e história.

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