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Um dos contos mais famosos do folclore norte-americano é do Cavaleiro Sem Cabeça escrito por Washington Irving, em 1820.  A história mostrava o fantasma, que dá nome ao titulo, atacando o pequeno vilarejo de Sleepy Hollow para encontrar uma cabeça para substituir a sua, que foi tirada por uma bala de canhão durante a Guerra da Independência. Bom, nada mais justo do que chamarem Tim Burton para comandar uma nova versão desse conto, após o lendário Superman Lives não ter ido a frente. E saiu em 1999, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça que pode ser dito sem medo que é um dos melhores filmes da carreira do diretor.

O longa se passa em Nova York, no final do XIX. O protagonista é o jovem investigador Ichabod Crane (Jonnhy Depp), que utiliza métodos científicos para solucionar os seus casos. É lhe dada à missão de descobrir quem é o assassino que ronda o vilarejo de Sleepy Hollow, que tem como características de seus crimes decapitar suas vitimas. Ao chegar ao vilarejo, Crane se encanta com a bela Katrina Van Tassel (Christina Ricci), filha do homem mais poderoso da cidade, Baltus (Michael Gambon). Baltus avisa a Crane que todos sabem que, é o assassino: o Cavaleiro sem Cabeça, o fantasma de um cruel soldado hesseno (Christopher Walken). No começo, o jovem duvida da sanidade dos membros do vilarejo por não acreditar em fantasmas. Mas quando se confrontar diretamente com o Cavaleiro, Ichabod terá que fazer o que for possível para deter o espírito assassino.

Bom, antes que os ataques comecem é claro que há várias mudanças quanto ao conto de Irving. Pra quem conhece o conto, sabe que essa história não é o suficiente para sustentar sozinha um longa. O que o roteiro de Andrew Kevin Walker propõe nessa adaptação é criar algo a mais para a história, não apenas o Cavaleiro perseguindo Ichabod. Walker cria uma trama muito coesa, que consegue fazer que o longa se sustente. Pra isso, ele cria personagens bem característicos, que por mais que sigam padrões de contos de mistério (o investigador, a mocinha, o ajudante, os suspeitos, etc..) se mostram ricos, longe de serem vistos como unidimensionais. Não é um roteiro brilhante, mas se mostra muito funcional.

Mas como estamos falando de Tim Burton e o visual? É visualmente o filme mais incrível de sua carreira. O excepcional design de produção de Rick Hendricks – velho colaborador de Burton – chama muito a atenção não apenas pela reconstituição do vilarejo, mas principalmente por fazer com que ele soe seguro e sempre tem algum detalhe no cenário que deixe ele suspeito, principalmente quando aparece a cor vermelha. Claro que vemos referências com o expressionismo alemão, a principal é a incrível Árvore dos Mortos que realmente consegue ser assustadora. O mesmo pode ser dito do visual das criaturas – em especial do hesseno e seus dentes afiados – e dos personagens, que diz muito sobre eles. Outros detalhes do trabalho majestoso de Hendricks pode ser visto em uma rápida cena que parece em uma lareira os fantasmas das vitimas do Cavaleiro, mostrando como é um trabalho rico.  

Não se pode falar do visual, sem dizer da fotografia do brilhante Emmanuel Lubezki que cria toda a atmosfera do longa. Usando uma paleta de cores monocromática, pouco contraste, lentes grandes angulares e muita sombra o trabalho de Lubezki se mostra muito importante para a criação do suspense. Até os flashs de raios artificiais que aparecem toda a vez que o Cavaleiro ataca funciona não apena como característica pra avisar da presença do monstro, mas servem para enfatizar a ameaça do lugar. Outro fator que chama a atenção é como Burton e Lubezki trabalham com o vermelho, que mostra cor mais forte do longa. Como foi dito, a paleta é monocromática, mas há uma inteligência em um uso de algumas cores para dar mais vida ao longa. O já mencionado vermelho sempre está ligado a violência (o sangue, o tapete nos sonhos que o protagonista vê a mãe morta e a roupa dos ingleses na morte do Hesseno) enquanto a violeta representa a paz e o amor (as flores e o figurino de Katrina). É só mais um trabalho incrível para a carreira de Lubezki.

Para essa criação da atmosfera, é necessário uma trilha que consiga emergir o espectador para o sentimento de medo constante que há na cidade. Méritos para outro colaborador frequente de Burton, o compositor Danny Elfman. Mesmo tendo suas características de outros trabalhos que fez em colaboração com o diretor (o uso dos instrumentos de sopro e coral), a trilha de Elfman segue o mesmo tom de suspense durante todo o longa, mas não soa chata ou repetitiva. Um ótimo trabalho.

O elenco do filme se mostra muito bem. Como a proposta dada por Burton é emular um filme do estúdio Hammer, o elenco se mostra as vezes meio over, mas funciona por soar natural ao clima do longa. Johnny Depp se mostra muito divertido como Ichabod Crane. Além de criar um protagonista que consegue levar o filme nas costas, além de ter características que Depp usa muito bem para que ele não vire apena um herói padrão, mas também como o alívio cômico. Como o fato dele se assustar com tudo ao seu redor e dar gritos e desmaiar quase toda vez que vê o Cavaleiro. Isso pode ser visto até no seu trabalho com a voz que usa a dicção que lembra muito a de um britânico, mas sem o sotaque além de ser fina. Christina Ricci tenta ao máximo fazer com que Katrina se torne uma personagem ambígua com olhares que denunciam seus sentimentos para Ichabod, apesar da personagem ser só mais uma mocinha indefesa. Mark Pichering também tem pouco a acrescentar como o ajudante de Ichabod, mas tem uma boa presença e uma boa química com Depp.

Já os anciões da cidade, roubam a cena mesmo com pouco tempo. Ian McDiarmid, Jeffrey Jones, Michael Gough e Richard Griffits criam tipos muito suspeitos, mas que não sabemos o porquê. Mostrando que eles acertam em suas composições e com apenas trocas de olhares mostram uma boa química. Michael Gambon se mostra muito bem deixando Baltus como o personagem mais rico do longa, deixando o espectador na duvida sobre suas intenções. Isso Gambon cria com pouco, usando o olhar, infecções com a voz, caras estranhas, sem nunca parecer caricato. E por fim temos a ótima Miranda Richardson que faz a melhor personagem do longa, mas não posso falar muito sobre. Só que ela dá um show. (Sei que a Lei do Cinéfilo é que depois de cinco anos pode falar spoilers, mas vou evitar)

Por fim temos a direção de Tim Burton, que se mostra uma das mais fortes da sua carreira. Além do cuidado visual na composição das imagens, Burton cria bem a atmosfera e conduz muito bem o mistério para que o espectador descubra junto com Ichabod a próxima pista. Além de conseguir recriar bons momentos dos filmes da Hammer (os ataques do Cavaleiro segue as mesmas tendências: atiram tudo e ele não cai) e cria bons momentos de humor negro, principalmente usando a violência cartunesca com o sangue jorrando e quando o Cavaleiro decapita suas vitimas, parece que as cabeças voam. É uma condução muito eficiente e madura por parte de Burton.

Infelizmente, nem tudo é flores na direção de Burton. O grande problema do longa está no clímax que é péssimo. Se trata de uma perseguição forçada e boba, que vemos que o diretor não sabe dirigir sequencias de ação. É só prestar atenção e ver que em um momento, Depp defende um ataque do Cavaleiro usando a sua bolsa. Pois é, isso atrapalha o que estava sendo muito bom.

Enfim, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é um dos melhores filmes da carreira de Tim Burton. É visualmente o mais bem feito, é tecnicamente muito bem feito e tem ótimas atuações. Pena que esse Burton dos anos 90 não foi para os anos 2000, mas espero que ele volte.

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (Sleepy Hollow , EUA – 1999)
Direção:
Tim Burton

Roteiro: Andrew Kevin Walker, baseado no conto de Washignton Irving
Elenco: Johnny Depp, Christina Ricci, Miranda Richardson, Michael Gambon, Casper Van Dien, Christopher Lee, Jeffrey Jones, Christopher Walken e  Michael Gough
Gênero: Suspense
Duração: 105 minutos

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