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Na leva de cineastas independentes que despontaram do final dos anos 1980 até o início dos anos 1990 no cinema americano e precederam a explosão que viria com Quentin Tarantino, Steven Soderbergh é aquele que encontrou maior êxito dentro da indústria. Alternando filmes de orçamento menor com outros milionários, ele deixou para trás Jim Jarmusch e Gus Van Sant – com os quais compartilha ainda a origem na América profunda, que é precisamente o cenário deste Logan Lucky – Roubo em Família, que chega agora aos cinemas brasileiros.

A filmografia de Soderbergh é prolífica e tem braços abertos para diferentes gêneros e estilos: experimentais e idiossincráticos como Full Frontal e Bubble; dramas históricos como a biografia de Che Guevara; refilmagens como Solaris e a trilogia Ocean; etc. Embora tenha formação como cineasta independente, parece ser trabalhando com grandes astros que o diretor experimenta maior realização artística (o que o aproxima, inclusive, dos mestres da era de ouro de Hollywood à qual parece prestar discreto e irônico tributo).

Seu melhor filme – dentre tantos muito bons – é a continuação Doze Homens e Outro Segredo (um filme de “roubo”, como este Logan Lucky). Nele estão todos os elementos que construíram o sucesso de sua filmografia e aos quais ele volta e meia retorna: um elenco com protagonistas no auge da fama e um time bem selecionado de coadjuvantes; o roteiro minucioso e rocambolesco; a metalinguagem e a autorreferência; a visão pós-moderna da linguagem cinematográfica, com a qual ele brinca e propõe jogos internos sofisticados, não se limitando a “cobrir a ação” como boa parte dos cineastas tentando salvar seus empregos na máquina de moer talentos da indústria.

Se sobram em Doze Homens tais jogos formais, referências, tributos (no caso, ao cinema praticado nos anos 1970 na Europa, onde se passa a maior parte da trama e que se revela no uso de movimentos de zoom, congelamentos da imagem, brincadeiras com a textura e natureza do suporte fílmico, componentes típicos da narrativa audiovisual da época), em Logan Soderbergh está contido e se contenta em fazer piada com o que seria um “Ocean Seven Eleven” – sem o refinamento e a picardia que caracterizam a trilogia de roubo.

Na trama, Soderbergh não se incomoda de trabalhar e assumir lugares-comuns: Channing Tatum é Jimmy Logan, um ex-atleta universitário com dificuldades para manter o emprego e administrar a relação com a ex-esposa (Katie Holmes, em papel minúsculo e que não lhe dá chance alguma), com quem tem uma filha pequena. Junto com seu irmão Clyde (Adam Driver, aprisionado mais uma vez em um macacão), um soldado que perdeu a mão no Iraque, planeja um roubo durante uma corrida de Nascar (outro ícone da América profunda de Soderbergh). Não faltam a partir daí situações e personagens que você já viu antes em versão mais inventiva inclusive em outros filmes do mesmo diretor (os irmãos burros do arrombador de cofres interpretado por Daniel Craig são uma versão dezenas de vezes menos interessante que a dupla impagável e magistralmente interpretada por Casey Affleck e Scott Caan na trilogia Ocean) e astros meio perdidos no elenco de apoio (casos de Seth MacFarlane e Hilary Swank).

“Filmes de roubo” são uma constante na indústria e costumam seguir uma estrutura lógica comum: arma-se o bote, coloca-se o plano em prática e depois é preciso desarmá-lo. O público parece esperar por reviravoltas mirabolantes (e elas estão presentes aqui, embora mais timidamente) e desejar compreender tudo que acontece na revelação final. Como se sabe, entretanto, que uma parte significativa da situações dramáticas já foi contada, a noção de estilo é o que realmente importa – e, neste quesito em que Soderbergh já comprovou maestria, Logan Lucky oferece muito pouco, preferindo oferecer uma crônica social superficial tendo como ambiente os estados da Carolina do Norte e da Virgínia Ocidental e toda a cultura popular, branca e conservadora que os caracteriza.

Não temos aqui o jogo de referências e autorreferências da saga Ocean, nem o capricho formal, mas apenas uma narrativa tímida, oscilante entre a sátira e o drama familiar. Soderbergh não é delirantemente ácido com o americano mediano do interior como os Irmãos Coen, nem consegue capturar a atmosfera supostamente beligerante de uma região onde as pessoas comunicam-se com palavras, mas também com armas – o que caracteriza melhor o cinema de Tarantino. Os meio-tons de Logan talvez se expliquem pela necessidade (ou escolha) em alcançar a maior parcela possível do público, mas são, de fato, os responsáveis por converter a experiência inteira numa sessão de cinema simpática, porém algo anódina.

A busca incessante por oferecer “conteúdo” novo o tempo todo exibe ao espectador uma miríade aparentemente infinita de atrações como este filme. Na verdade, contudo, é sob o signo da repetição que uma parte significativa desse conteúdo se apresenta, o que leva ao inevitável questionamento: assistir a um filme inédito como Logan Lucky – Roubo em Família é uma experiência mais recompensadora do que recorrer a uma reprise qualquer, onde possivelmente nos depararemos com temas, situações e estilos apresentados com o frescor da novidade? Doze Homens e Outro Segredo é um filme de roubo, como este. Tem um time de estrelas, como Logan Lucky, e a “obrigação” da bilheteria. Mas é tão mais inteligente, arriscado e divertido que clama por reprises constantes.

Logan Lucky – Roubo em Família não é ruim, mas é filme a que se assiste uma só vez. E já será mais que suficiente.

Logan Lucky: Roubo em Família (Logan Lucky, EUA – 2017)

Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Rebecca Blunt
Elenco: Daniel Craig, Channing Tatum, Adam Driver, Katie Holmes, Katherine Waterston, Sebastian Stan, Hilary Swank
Gênero: Comédia, Crime, Drama
Duração 118 minutos

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