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Obs: há exposição de características importantes sobre os personagens

Uma vida para um personagem. Foi assim que Hugh Jackman se comportou com Wolverine ao longo de nove filmes lançados durante dezessete anos. Uma dedicação ímpar que lhe rendeu uma carreira repleta de papéis importantes em filmes como Os Suspeitos, O Grande Truque, Austrália, Os Miseráveis. Mas tudo começa, de fato, tanto para Jackman quanto para Wolverine, com o pioneiro X-Men: O Filme em 2000. A adaptação que mudou o jogo e deu margem para toda a indústria bilionária que existe hoje.

Em termos de qualidade, a franquia X-Men praticamente se apagava a cada novo filme. Até mesmo longas poderosos como X2 e Primeira Classe passam batido nas listas de melhores do gênero das quais quase sempre discordo integralmente. Faltava em X-Men, um filme que alçasse a franquia para um patamar nunca visto antes, um patamar conquistado não somente por importância história, mas principalmente por qualidade. Não digo que Primeira Classe ou Dias de um Futuro Esquecido sejam medíocres – claramente são longas excepcionais, porém nunca antes houve uma grande unanimidade entre crítica e público para obras da franquia mutante.

Enquanto X-Men dividia opiniões entre altos e baixos muito baixos, outras obras passaram a revolucionar cada vez mais o gênero seja firmando thrillers realistas como O Cavaleiro das Trevas, dramas existenciais como Homem-Aranha 2 e até criando universos compartilhados com o ótimo estreante Homem de Ferro.

Isso agora é história. Com Logan, os X-Men conseguiram mudar o jogo e, com certeza, estará muito bem cotado nos corações nerds até mesmo de quem não é fã do Carcaju. Muito disso vem por sua proposta crua e realista repleta de nuances complexas que todo bom drama deve ter. Assim como Hugh Jackman afirmou em sua coletiva, de fato, Logan não é um filme de super-herói. É algo que aspira ser maior que isto. E consegue.

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Inverno da Alma

Em 2029, o mundo já não é mais o mesmo. Os X-Men foram extintos e novos mutantes praticamente já não nascem em uma terra intolerante que só pensa em utilizá-los como poderio militar. Logan, decrépito, alcoólatra e amedrontado, vive como chofer de limusine alugada a qual tem maior valor do que a própria vida do ex-herói. Entre suas corridas noturnas dirigindo para pessoas com vidas melhores que a dele, Logan tem que se preocupar em arranjar remédios e comida para Charles Xavier, completamente debilitado e muito afetado por esclerose e mal de Alzheimer.

Temendo pelo descontrole dos poderes de Xavier, Logan droga o telepata para evitar ataques que resultem na morte de dezenas pessoas. Porém, para quebrar sua rotina maldita, uma jovem mexicana clama para que Wolverine ajude a esconder sua filha, Laura, que também é uma mutante com os mesmos poderes do Carcaju. Sem escolha, Logan acolhe a garota e parte para uma viagem com ela e Xavier em busca de um refúgio. Porém, Donald Pierce, um misterioso vilão, está muito interessado em sequestrar a pequena mutante e fará de tudo para cumprir sua missão.

Ao contrário de Wolverine Imortal, é James Mangold quem elabora o argumento do filme. A inspiração em Velho Logan é bem óbvia para a atmosfera, porém a narrativa é muito mais concentrada em dramas e vícios pessoais. Mangold aborda, com muita competência, temas complexos como paternidade, violência, terceira idade e fracasso pessoal.

Acima da qualidade de sua história, Logan é um filme que se sustenta inteiramente pelo poder construído através das relações entre personagens ou em momentos silenciosos. Aliás, esse é um dos blockbusters mais quietos do ano, apresentando seletos diálogos competentes e muito fortes entre Xavier e Wolverine.

Além das ótimas relações, cada personagem desse filme consegue possuir um drama interno muito forte que revela que os seus maiores inimigos são eles mesmos. Comecemos por Logan, o personagem mais rico de todo o filme.

De certo modo, Mangold consegue frisar elementos do passado do herói, levando em conta suas aventuras passadas e muito de seus fracassos. É impossível não lembrar de Jean Grey e de todo o trauma que ronda a tragédia amorosa a la Shakespeare. Isso torna o personagem muito mais complexo, pois é o inverno de sua vida, o momento de reflexão sobre seu legado.

O roteiro nunca dá alguma explicação razoável de como todo o grupo X-Men e os mutantes foram limados e perseguidos. Esse mistério ajuda a modelar ainda mais esse sentimento de culpa que Logan carrega extravasando através de muita bebida. É nítido que o herói já não sente mais a menor vontade de viver e se mata aos poucos para fugir de seus problemas. Seu fator de cura está completamente debilitado e nem mesmo suas garras de adamantium conseguem ser projetadas de modo adequado. O motivo indicado por esse aspecto tóxico na saúde do herói é bastante cruel e também consegue reviver os traumas de seu passado.

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Wolverine talvez seja um dos heróis mais sofridos das HQs e Logan consegue refletir isso com perfeição. Este velho e calejado Logan não foge somente das grandes responsabilidades e do heroísmo. Foge de si mesmo e da violência que marcou sua vida desde a infância. Mangold faz o roteiro conversar muito com Os Imperdoáveis, clássico de Clint Eastwood. Todo o discurso sobre um passado manchado pela violência e o cume das consequências do protagonista conversa brilhantemente com o arco de Bill Munny, o pistoleiro outrora implacável do filme de Eastwood.

Não por coincidência, o discurso de violência e passado recai diretamente em sua relação com Laura. As semelhanças são mais do que óbvias: a menina é um Wolverine recém-liberto do experimento da Arma-X. Logo, funciona como uma personificação completa das assombrações de seu passado. A garota reflete o espírito selvagem violento que agora Logan vê como prejudicial. Sua aversão a ela não passa de uma projeção do ódio e decepção que sente consigo mesmo. E com o surgimento dela, é preciso que Logan volte a ser o homem honrado que era antes. Algo difícil de retornar depois de tantos anos de ócio, depressão e fuga.

Detalhe: isso tudo é depreendido pela clareza cinematográfica que Logan é. O grosso e as sutilezas dessas relações se encontram somente no visual. Mostre, não conte. Isso é levado bastante a sério por James Mangold e só pela capacidade de transmitir toda essa riqueza sem o menor diálogo melodramático, Logan já está no panteão do gênero.

Porém, agora quebrando a lógica do texto, aproveito para comentar um dos míseros defeitos que o roteiro de Logan possui. Estranhamente, para situar os espectadores sobre o passado e circunstância de Laura, Mangold e seus roteiristas inserem um vídeo “amador” repleto de exposição barata nada condizente com a atmosfera inteligente e introspectiva apresentada até então. Felizmente, apesar dessa passagem ser muito rasteira, o filme retoma sua qualidade investindo em mais camadas através das relações do trio protagonista.

O inverno da alma, do luto e do remorso não são centrados apenas em Logan. Xavier sofre e amarga em seus últimos anos de vida. Novamente, a memória preservada do personagem é evocada e entra em completo contraste com o que vemos. Xavier, assim como Logan, tem atitudes que visam certo escapismo de sua realidade – algo sempre muito dúbio por conta de sua demência.

Mangold consegue oferecer um estudo valioso sobre a terceira idade com este retrato de Xavier. Sobre abandono, dificuldade de locomoção, de ser indesejado, da inacessibilidade dos remédios, viver na tristeza completamente sem perspectiva. O poderio visual é importante, porém os diálogos delineiam essas características com mais acuidade. São momentos poderosíssimos capazes de te deprimir ferrenhamente. Em um dos mais impactantes, Xavier explode e grita que todos só esperam que ele morra de uma vez.

O homem que mais preza por suas fundações, agora lida com a morte completa do seu sonho X-Men. Novamente, a interação com Laura provoca um renascimento para o sonho há longo tempo adormecido do telepata. Um dos acertos do roteiro é justamente o contraste entre o entusiasmo de Xavier contra o desprezo de Logan para com a garota.

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A 23ª Arma

Com Laura, o desenvolvimento também é bem-feito. Mangold mantém a personagem calada até o terceiro ato do filme quando enfim há um desenvolvimento apropriado com Logan que assume, enfim, sua relação paternal com a garota. Porém o desempenho de Dafne Keen é tão surpreendente que é possível decifrar e compreender a personagem apenas pelos olhares de ódio e ternura que a atriz distribui. Uma presença de cena tão fantástica que coloca todo o amado elenco-mirim de Stranger Things no chinelo.

Além disso, assim como todos os outros heróis do filme, ela possui um enorme conflito interno em conseguir encontrar seu lugar no mundo, um propósito – uma recorrente nos filmes X-Men. É algo belo que também é satisfatoriamente apresentado entre as ações e conversas com Wolverine – uma pena que isso ocorra tão brevemente no pior ato do filme. A personagem é tão marcante que certamente seria um desperdício a Fox não continuar apostando em Dafne Keen e sua X-23.

Até mesmo com Caliban, o único mutante que vive no esconderijo com Xavier e Logan, tem seus bons momentos, além de um conflito interno genuíno sobre o uso de seus poderes. Porém, uma maldição do gênero ainda persiste em Logan. Mangold e os roteiristas falham em conseguir cativar um bom núcleo antagonista.

O carniceiro Donald Pierce apenas se sustenta pela excelente atuação de Boyd Holbrook, pois o personagem é deveras superficial. O mesmo acontece com Dr. Rice – pelo menos, os roteiristas quebram o clichê durante um monólogo para vomitar exposição barata. E, para piorar, o vilão que propõe o desafio máximo para Wolverine – o qual não irei revelar, é uma daquelas derrapadas mambembe que os filmes X-Men quase sempre proporcionam.

Embora traga maior dinamismo de ação e melhores coreografias de lutas, o inimigo é uma ideia bastante estapafúrdia. Porém, ainda assim, rende dois elementos simbológicos especiais. O primeiro se trata da personificação completa da luta que Wolverine tem com ele mesmo. A segunda, aborda a destruição mútua de figuras importantes em suas vidas.

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Heróis na Estrada

A estrutura do roteiro de Logan é devidamente simples: trata-se de um bom road movie como Pquena Miss Sunshine, Thelma & Louise entre outros. Como havia dito, realmente as características únicas sobre os personagens e as nuances dos conflitos bem elaborados praticamente eclipsam a qualidade da história. Basicamente, as circunstâncias dos poderes debilitados e da perseguição modelam a progressão da narrativa.

Algo recorrente que também é apenas mostrado, nunca contado, é a vida amaldiçoada de Wolverine. Não importa o que ele faça, onde ele vá, sempre alguém irá persegui-lo e destruir a paz que nunca esteve presente em sua história. Novamente, é um momento forte. Outras passagens da história abordam aspectos de “gente como a gente”. Pausas para aproveitar uma refeição, comprar roupas, assistir a um filme – no caso, a importância de Os Brutos Também Amam é primordial para compreender a mensagem do longa: a violência e suas consequências. Outra jogada inteligente é usar de modo muito pertinente à trama, as HQs originais do grupo – no caso, a comic que aparece em tela, foi escrita especialmente para Logan.

Os problemas da narrativa surgem mesmo com o fraquíssimo terceiro ato e de um clímax não muito inspirado. Os roteiristas elaboram uma curva estranha que remete muito a Mad Max: Na Cúpula do Trovão. Os personagens introduzidos também são fracos, pouco marcantes. Mesmo assim, algumas boas ideias surgem aqui e ali prestando homenagens muito delicadas para a franquia original.

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Uma Última Vez

Escrever sobre Logan e não comentar da atuação magnifíca de Hugh Jackman seria uma afronta. Jackman consegue entregar a melhor performance de sua carreira aqui. Mescla diversos momentos que mostram o que há de pior e de melhor no personagem. Essa mistura de amor e ódio tornam Logan um dos personagens mais apaixonantes do gênero até então.

Finalmente é possível ver, em detalhes, o lado humano do Carcaju. De seus cuidados com Xavier, da divisão da dor dos sonhos frustrados. Fora isso, Jackman tem um empenho muito sólido em manter o estado de saúde debilitado e das expressões faciais que indicam a depressão e exaustão revelando o completo desprezo com a própria vida.

Jackman mantém crises de tremedeira nas mãos sempre feridas, anda um tanto curvado, está lento e pesado. A atenção aos detalhes é minuciosa para favorecer a proposta de um Wolverine completamente vulnerável. Quando o personagem se machuca feio em alguma luta, Jackman se comporta como alguém realmente ferido. Seja mancando ou apertando com as mãos os lugares mais mutilados de seu corpo.

Porém, é absurdo dizer que apenas Hugh Jackman dá um show em Logan. Também marcando sua última participação como Professor Xavier, Patrick Stewart está absolutamente impecável. A sua abordagem para um Xavier em plena decadência entrará nas listas das melhores atuações em filmes do gênero. Stewart transmite uma pureza de sentimos que raramente vimos dentre tantos lançamentos. Bastante atrofiado e limitado a cadeira de rodas, Stewart modela o terror e medo que este Xavier sente de si mesmo, além de carregar um semblante de alguém que não está em paz. O lado mais leve de sua atuação surge justamente quando os personagens caem na estrada.

Ali, Stewart passa a apostar em pequenos momentos brilhantes como a satisfação de dominar seus poderes por um momento breve ou pelo carinho que sente por Laura.

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O Ouro de Mangold

Sem sombra de dúvida, James Mangold se superou em Logan. Conhecido por criar ótimas atmosferas visuais como em Os Indomáveis, Identidade e Wolverine Imortal, o diretor revisita sua paixão pelo western aqui.

Logan é um filme que mistura gêneros a partir de suas proezas visuais e de encenação. A mistura, claramente é do faroeste com o road movie. Essa impressão do faroeste é imediata. Mangold trabalha com diversos enquadramentos clássicos do gênero como planos americanos ou emoldurando, parcialmente, figuras na profundidade de campo destacando uma mão mecânica repousando na cintura.

De certo modo, não há muito o que falar sobre a qualidade da direção de Mangold. Logan é um filme desenhado com cuidado em sua encenação. Não fosse o trabalho muito eficiente da decupagem, a maioria dos conflitos internos que dependem somente do visual para funcionar seriam completamente vazios. Felizmente, tudo é claro como água. Esse elemento de Mangold conseguir extrair o melhor de seu elenco, principalmente de Dafne Keen, merece ser destacado.

Em termos de simbologia visual, Logan é um filme apenas satisfatório e não brilhante como poderia ter sido. Mangold consegue passar a atmosfera dura, seca e sem esperanças do terreno árido e desorganizado onde Logan vive escondido. O diretor é muito preocupado em calcar essa obra em um cenário bastante cru e realista de cores acinzentadas e beges tão bem fotografadas pelo cinematografo John Mathieson. Logo, toda aquela inventividade visual dos filmes X-Men é basicamente ignorada. Pela proposta do filme, é algo bastante adequado, além de Mangold apostar bastante em planos contemplativos que exploram a intimidade do herói pela primeira vez.

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A 3ª Idade e o tratamento de idosos em geral é uma das maiores forças de Logan.

Um detalhe muito interessante é o local onde o protagonista encontra Laura pela primeira vez: Liberty Motel. O sinal luminoso da Estátua da Liberdade faz uma referência bela ao primeiro filme do grupo, além de servir como foreshadowing para a importância que Laura terá para esta narrativa: virar um símbolo de libertação e liberdade. Não somente para ela, mas para Logan também.

Porém, acima de tudo isto, por incrível que pareça, há grande expectativa para a abordagem da violência neste filme. Pois então, é impossível ficar decepcionado, pois Mangold finalmente entrega o Wolverine que todos queríamos ver: implacável. Há tanto mortes bastante gráficas quanto outras mutilações disfarçadas pela montagem. A violência e o gore são absolutamente necessários para adequar o drama e a vulnerabilidade que Logan propõe, edifica o drama do filme. Algumas são realmente chocantes, principalmente as que envolvem Laura durante algumas perseguições.

Adequando atmosfera, tom, atuações, visual, música e encenação, Mangold comete algum equívoco? Sim, principalmente no apressado final do filme. A estranheza da diferença de tom é explícita, além de Mangold recorrer em excesso a diversas elipses para apressar ainda mais a conclusão da história. Apesar de ser um defeito consideravelmente grave, o diretor fundamenta tão bem a sua obra que consegue uma das proezas mais dignas que um cineasta pode almejar: provocar reações emocionadas muito genuínas do espectador.

Sim, é óbvio, Logan é um filme emocionante que já se inicia em clima de despedida. A emoção não vem apenas por marcar um final definitivo para este Wolverine de Jackman, mas sim pelo fato de uma compreensão tão marcante sobre os personagens extremamente humanizados.

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Eu, Logan

Hugh Jackman, James Mangold e a Fox arriscaram com Logan. Diria que muito mais do que o proposto em Deadpool. Não temos um filme explosivo com diversas peças de ação, seu tom é depressivo, além de apostar no drama inspirado entre seus personagens. Em um gênero quase inteiro hegemonizado por filmes esquecíveis que sempre se tornam as “melhores” obras do gênero quando lançadas, ir na contramão disso seria suicídio em mãos menos capazes.

Felizmente, Logan é algo muito acima de tudo isto. É um filme que marca e oferece um fim muito digno para dois atores que eternizaram seus personagens no cinema. A obra consegue transcender sua mensagem. Assim como o objeto de seu discurso, é impossível ignorar a presença marcante que Logan se torna ao término da sessão.

Logan (Logan, EUA – 2017)
Direção: James Mangold

Roteiro: James Mangold, Scott Frank, Michael Green
Elenco Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez, Richard Grant, Eriq La Salle, Elise Neal
Gênero: Drama, Ação, Road Movie
Duração: 137 minutos.

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