Faz trinta anos desde que Max Rockatansky apareceu nas telonas no bizarríssimo Mad Max: Além da Cúpula do Trovão. Trinta anos de hiato para George Miller absorver, aprender e estruturar o grande retorno que o personagem merecia, apesar dos diversos problemas que permearam todo esse período de pré-produção.

O novo Mad Max é na verdade um híbrido. Um meio termo entre reboot e continuação. Miller, criador do gênero pós-apocalíptico – principalmente o que tange o wasteland, pega algumas características do filme clássico de 1979 para inserir no novo de 2015. O passado do protagonista ainda é o mesmo, um ex policial que perdeu mulher e filho, inserido em um cenário hostil do pós-apocalipse gerado pelo fim dos combustíveis fósseis. O resto do filme é completamente novo.

Max, após ser sequestrado, encontra-se em uma situação inesperada na Cidadela de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne). Uma das mulheres do vilão, Imperatriz Furiosa, fugiu com um caminhão-tanque acompanhada de suas outras esposas. A partir disso, Joe lança uma campanha de guerra com todos os seus soldados para recuperar suas noivas. Em meio a uma perseguição enlouquecida, Max escapa e passa a ajudar Furiosa a escapar da loucura de Immortan Joe e sua trupe.

George Miller, em parceria no texto com Brendan McCarthy e Nick Latouris, tem uma abordagem completamente diferente aqui. Não há perda de tempo para explicar sobre quem é Max ou até mesmo do apocalipse. Aliás, este é um roteiro muito atípico para grandes produções. Os diálogos são escassos, o desenvolvimento de personagens é quase inexistente, não há o menor didatismo sobre a mitologia apresentada. Trata-se de um guia para orientar algumas reviravoltas – bem previsíveis por sinal, e as incríveis sequências de ação.

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Mas mesmo atípico, o roteiro é formulaico. Sua trama inteira gira em torno de um McGuffin e usa diversas vezes recursos arbitrários para motivar as atitudes heroicas de Max – deus ex machina. Entretanto, este filme é o exemplo mais claro de como fazer uma obra de arte com artifícios carregados de preconceito.

Entretanto, mesmo com um andamento excelente no ritmo da história, o roteiro peca por um dos motivos que listei acima: a falta de exploração desta nova mitologia. Aqui, é sugerido que ocorreu uma guerra nuclear no planeta. Logo, a radiação deu origem a diversos mutantes e outros seres deformados. Somos apresentados a vislumbres de uma organização militar, uma nova ordem social, soluções para a fome e sede, a uma cultura/religião nova que venera a imagem do volante em sua, digamos, santidade. Os rituais dos Garotos de Guerra e suas deficiências genéticas também. Entre muitas outras coisas interessantíssimas que constroem o universo diegético desta retomada de Mad Max. É uma verdadeira lástima que Miller nos ofereça algo tão rico para apenas deixá-lo de lado ou tratar apenas como alegorias visuais. O espectador clama em conhecer um pouco mais daquela cultura insana que bebe das fontes do Heavy Metal e da mitologia nórdica.

Porém, isto nunca acontece. O diretor simplesmente não encaixa um bendito diálogo entre Furiosa e Max ou em outros personagens para apresentar de alguma forma o que há por trás daquilo tudo, alguma origem. Existem duas alternativas para o porquê disso. Ou não houve interesse real de Miller em explorar esses elementos ou é apenas alguma brecha para serem desenvolvidos no próximo filme. De qualquer forma, este é o único ponto negativo do filme.

De resto, tudo é incrível. A história é satisfatória e os personagens, em sua superficialidade, são fascinantes. Isso se deve muito às atuações espetaculares de Nicholas Hoult com seu Nux e Charlize Theron interpretando Furiosa – de longe as figuras mais complexas do elenco. Até mesmo o quinteto de beldades mostra algo além de seus dotes.

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Aliás, ainda acho engraçada a proposta do universo de Mad Max orbitar à falta de combustíveis fósseis sendo que todos os possantes veículos ostentação que preenchem a tela devem consumir incontáveis litros de gasolina por quilômetro. Mas reconheço que isso não é demérito, só algo bem contraditório.

Este novo Max de Tom Hardy tem pouquíssimas semelhanças com o de Mel Gibson. Miller trouxe uma proposta inédita para o personagem. Max é alguém que praticamente perdeu sua humanidade. Ele fala pouco e as palavras custam a sair de sua boca. Tem uma dificuldade tremenda em formar frases. A solidão pesa. Fora isso, por meio de flashbacks bregas, o personagem é assombrado por algo sinistro envolvendo crianças. Novamente, o diretor usa isso apenas como recurso de motivação. Nada é explicado, apenas sugerido – uma pena.

Apesar de Hardy manter boa atuação, algumas vezes, durante suas falas, o ator puxa um sotaque carregadíssimo, além de uma     entonação que lembram muito o trabalho de voz que ele havia feito para seu antigo papel como Bane, o vilão de O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Nada que comprometa, claro, porém é preocupante ver alguém com talento caindo em vícios de atuação.

Na direção, George Miller finalmente tem a tecnologia e orçamento desejados para fazer o filme de seus sonhos. E ele consegue. Nada falha aqui. É uma aula de como fazer um orçamento de 100 milhões de dólares parecer 250.

A ideia de fazer um longa inteiro para uma constante perseguição é fenomenal merecendo destaque somente para isso – importante lembrar que outros filmes já se utilizaram disso como Encurralado, Corrida Contra o Destino e Need for Speed. Entretanto, ele surpreende, tem sua identidade própria e entrega mais do que poderíamos pedir. As sequências de ação são majestosas, belíssimas em sua complexidade de construção e exalam o espírito demente da insanidade radical de seus personagens sedentos por violência. O retorno do bom e velho exploitation mora neste Mad Max do século XXI. Fora isso, mesmo com duas horas de pura adrenalina, Miller consegue sustentar a montagem sem perder o fôlego. O resultado disso, o filme não cansa.

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Toda a concepção visual é marcante. Em vez de trabalhar com os tons dessaturados e opacos provenientes na fotografia de filme do gênero, Miller, em conjunto com o fotógrafo John Seale, usa tons saturadíssimos e contrastados. Seus vermelhos, cinzas, beges e azuis saltam da tela e enchem os olhos.

Mas não somente a fotografia de Seale e os enquadramentos majestosos de Miller que tornam o visual tão apelativo. O design de produção acerta em tudo a respeito de figurino, maquiagem – utilizando até graxa, e, principalmente, os carros. Cada um concebido para ser único e ter sua função de combate. É quase impossível encontrar algum veículo igual a outro o que agrega muito valor pra obra. Aliás, quase todos os efeitos são feitos com praticáveis. Ou seja, a computação gráfica é mínima. O resultado disso é fenomenal. Dá pra sentir o peso dos veículos em cada colisão ou capotamento.

Miller também continua sua marca de autor com a utilização de personagens na terceira idade, mas aqui também há o empoderamento das mulheres. O filme é completamente girl power do início ao fim tanto que Max é apenas um coadjuvante assumido. Furiosa é a protagonista aqui, muito melhor explorada, assim como o quinteto das noivas de Immortan Joe.

Diesel, Graxa e Sangue

O retorno de Mad Max para as telonas é pavimentado pela estrada do sucesso. Nunca antes a franquia fora tão explosiva, interessante e rica em detalhes como agora. Os poucos pecados que Miller comete envolvem justamente não explorar essa mitologia inédita ou seu suposto protagonista monossilábico e inserir algumas críticas bem rasas ao capitalismo perpetuando a relação esquizofrênica de diversos cineastas com Hollywood.

Tirando isso, o filme é incrível – o melhor do ano até agora. A ação é quase ininterrupta, épica, bem filmada e coreografada. Existem diversas referências aos filmes anteriores para o deleite dos fãs – incluindo o clássico Interceptor V8. Até mesmo a trilha sonora de Tom Holkenborg possui grande presença com sua música eletrônica, sintetizadores e percussão inspirada em ritmos tribais – como sempre, graças à longa parceria, o compositor bebe na fonte de Hans Zimmer.

George Miller provou de uma vez por todas que é um nome importantíssimo para o cinema mundial.  Isto aqui é entretenimento de ótima qualidade com valor artístico expressivo.

 Em clara referência a própria história da franquia, o personagem Nux, vocifera “I live! I die! I live again!”. Realmente, Mad Max viveu. Mad Max morreu. E agora, Mad Max vive novamente mais louco do que nunca!

Nota: ★★★★ ½

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