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Marte Ataca! tinha tudo para ser uma divertida aventura espacial dirigida por um dos nomes mais promissores da indústria do cinema no final da década de 1990, Tim Burton. Com sua clássica premissa dos encontros físicos entre os humanos e as inúmeras raças extraterrestres que estão espalhadas pelo universo, tal ambiente não poderia ser mais favorável para que o diretor usasse a abusasse de todas as suas habilidades com a câmera, bem como aproveitar sua afinidade a estéticas mirabolantes e distorcidas para reafirmar sua originalidade cênica. Entretanto, não é isso o que acontece – é justamente o contrário: apesar de um começo interessante, o longa-metragem eventualmente se torna um interminável ciclo vicioso e monótono que se desenrola sem qualquer nexo ou profundidade aparentes.

Há uma clara diferença entre filmes trash e despretensiosos e aqueles que nem isso conseguem se tornar. Como visto em sua obra anterior, Ed Wood, até mesmo aquelas mentes que se enxergavam como catalisadores de mudanças criativas acabaram por cair nas graças populares e suas obras insurgiram como marcos de uma vertente marcada sim pelo ridículo e pelo caricato, incluindo atuações bizarras e efeitos especiais de baixíssimo orçamento, mas que funcionavam dentro de suas limitações. Marte Ataca! nem mesmo chega perto de ser isso – o que se torna uma dolorosa infelicidade, considerando que o cineasta trilhava um caminho aplaudível em relação à sua filmografia.

A história, como supracitado, gira em torno da invasão da Terra pelos marcianos. O primeiro ato é desenvolvido com uma fluidez e uma comicidade muito agradáveis e que já fornecem certa base para aquilo que pode ser esperado pelo público: somos apresentados a diversos núcleos narrativos que, a priori, não possuem nenhuma relação. Jack Nicholson encarna James Dale, Presidente dos Estados Unidos que, de uma forma quase egocêntrica, aproveita a descoberta de vida fora da Terra para mostrar sua acessibilidade e seu charme – ele inclusive fala que irá colocar seu melhor terno azul-escuro para fazer uma transmissão oficial, auxiliado pelo Professor Donald Kessler (Pierce Brosnan). Os dois mantêm uma relação da amizade propositalmente canastrona, principalmente pelos trejeitos floreados que se mantém pela maior parte do filme e servem como aceitação consciente dos estereótipos desse gênero.

Em contraposição a essa “grandiloquência”, temos a presença também da família do Presidente, encarnada por Natalie Portman e Glenn Close; uma dupla de apresentadores de TV que entram apenas como fachada embelezadora e não têm muita noção de como conduzir uma entrevista ou uma matéria jornalística (Michael J. Fox e Sarah Jessica Parker); uma família interiorana cujo filho mais velho (Jack Black) foi convocado pelo exército para auxiliá-los na recepção dos alienígenas; e diversas aparições secundárias como Martin Short, Danny DeVitto e Tom Jones em cenas que, a priori, entrariam como uma tentativa de quebra de expectativa para as supostas sequências de ação e de drama.

Como podemos prever, o encontro entre duas raças tão diferentes ocorre bem pelos primeiros segundos, até que uma invasão em massa ocorre como forma de exterminar a comunidade inferior. Também é muito previsível a ideia de que os marcianos tem uma tecnologia mais avançada e, por isso, não conversariam com os conceitos primitivos da barbárie, mas essa concepção é quebrada por um massacre que não diferencia aqueles que se rendem e aqueles que se rebelam. E aproveitando que estamos falando sobre os clichês de gênero, as fórmulas se expandem até mesmo para a breve trégua do exército extraterrestre, momento no qual o Imperador inimigo realiza certos experimentos com o corpo humano.

Desde o início da trama, percebe-se que esse não é um longa para ser levado a sério – e tal negação ao preciosismo e à presença sempre é algo a se considerar antes de apreciar um filme. O problema é que a narrativa não sabe em nenhum momento em qual direção seguir. Ainda que Nicholson, Parker e Brosnan tenham seus momentos de glória, os núcleos menores são completamente descartados para a inserção de sequências reaproveitadas de explosões e caos total como forma de reafirmar a potência da investida marciana – e isso ocorre o tempo todo, em uma montagem sem estética definida ou base estrutural. Nem mesmo as cenas protagonizadas pelas criaturinhas verdes são interessantes: o roteiro assinado por Jonathan Gems não sabe aproveitas as brechas oferecidas pelo escopo narrativo, preferindo pontuar alguns momentos em detrimento de beats mais completos e fechados em si mesmos.

Além de tudo isso, a obra é saturada de personagens desinteressantes e lineares e que não fazem a mínima diferença para a trama – e encarar isso é um infortúnio, visto que o elenco está recheado de nomes muito conhecidos, mas apagados pelo fato de Burton se render totalmente ao bizarro. Diferentemente de suas iterações predecessoras, o feio não é carregado com um poética desconstrução metafórica, mas sim apenas como um elemento maniqueísta quando comparado a outras figuras semelhantes. E como se não bastasse, Gems utiliza-se de resoluções ocasionais para conseguir chegar a uma possibilidade de finalização, e nem mesmo o real desfecho faz o menor sentido.

Marte Ataca! deveria ter se tornado uma homenagem às comédias pastelões e ao gênero trash que iniciou sua disseminação em meados da década de 1950. Mas de que modo ele poderia alcançar o seu patamar se o uso dos elementos clássicos desse gênero, incluindo as punchlines, não existem? O que realmente parece é que Burton mergulhou tão profundamente na estética de Ed Wood que não conseguiu sair de lá – e aproveitou seu cárcere criativo para fazer algo simplesmente intragável.

Marte Ataca! (Mars Attacks – EUA, 1996)

Direção: Tim Burton
Roteiro: Jonathan Gems
Elenco: Jack Nicholson, Glenn Close, Annette Bening, Pierce Brosnan, Danny DeVito, Martin Short, Sarah Jessica Parker, Michael J. Fox, Natalie Portman, Tom Jones
Gênero: Ficção Científica, Comédia
Duração: 106 min.

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