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Já próximo ao final de Corumbiara (2009), longa anterior do Vincent Carelli, o próprio diretor é filmado em uma conversa: “Não se trata mais de provar ou não, mas de contar a história”. Carelli trabalha desde a década de 80 no eixo do cinema indigenista, usando do vídeo como anteparo concreto e muito corporal da sua aproximação com as diversas tribos com que teve contato. É antropólogo e trabalhou também na formação de cineastas indígenas, contribuiu para o jornalismo e foi figura ativa em grandes encontros entre o branco e populações indígenas com pouco ou nenhum contato com a “civilização”.

No filme de 2009, fez uma investigação, partindo do massacre, em 1985, de um grupo de índios isolados do sul de Rondônia. Vê-se que foi uma investigação extensa, complexa, que um documentarista menos interessado na compreensão para além do entendimento (isto é., num relato capaz de ultrapassar o registro informativo, cognitivo, mas sim atravessado pela subjetividade – no caso, do cineasta, mas principalmente dos sobreviventes).

O que não falta em Corumbiara são provas, indícios cabais da violência monstruosa do Estado e dos agricultores da região com os índios, que não deixam dúvida do comodismo e do discurso invisibilizador que assola as minorias no Brasil. Carelli sabe do poder do registro para a sociedade, do “ver para crer”, escapando como pode do “fazer crer”. Além dos encontros com os indígenas, Carelli também faz suas investigações com a câmera escondida, no que o jornalismo investigativo mais excita. Suas imagens batalham ferozmente contra o esquecimento. Enfim, chegamos em Martírio, um dos documentários mais potentes, dolorosos e bem construídos da filmografia brasileira recente.

Martírio é em primeiro lugar uma resistência. Mas não como um mero grito de revolta, rápido, que não reverbera em superfície alguma; muito menos uma palestra arrastada e monotônica. Para os padrões cinematográficos, o filme pode ser taxado de longo: duas horas e quarenta. Entretanto, ver esse aspecto, inclusive colocando-o acima de inúmeros méritos do filme, como um obstáculo denota uma posição muito conformista. Justamente pela extensão maior, Carelli consegue enfiar o dedo na ferida e espremer o pus. Quer dizer, para uma sociedade que por décadas e décadas negou a imagem, a representação, a documentação, enfim, um espaço na(s) História(s) para os indígenas – como para outros –, Martírio ainda é pouco.

Nesse longa, o cineasta mais uma vez recorre às suas experiências desde a década de 80, agora para falar sobre os Guarani-Kaiowá e o grande problema com as demarcações de terras. Em comparação com seu longa anterior, Martírio vai ainda mais fundo na História do país. Usa de recursos visuais (como mapas animados) para voltar no tempo e mostrar todo o processo de extermínio que assolou a população Guarani-Kaiowá com a expansão agrária, especialmente com o plantio de erva-mate, com destaque para o período da monstruosa Guerra do Paraguai. Sem esquecer das ondas de suicídios, na jagunçagem, na violência desmedida dos fazendeiros contra os indígenas.

Vale notar que o filme não segue uma ordem mais objetiva, cronológica dos fatos, convencional. Tanto é que logo nos primeiros minutos, logo antes do título preencher a tela, vemos um discurso acalorado da então ministra Kátia Abreu. Vincent Carelli e os colaboradores Ernesto Carvalho e Tita merecem aplausos para além do ato político. Martírio é também uma excelente narrativa – mais uma razão para não crucificar a extensão do filme. Alternando entre gravações mais recentes, outras feitas há décadas, exposição de imagens, narrações em off e cenas de noticiários e da programação política, o filme chama a atenção do espectador pela riqueza dos seus raciocínios. O filme é repleto de afluentes, de momentos aparentemente secundários, mas tudo acaba se amarrando muito bem na ordem e na medida em que são expostos. Onde mais Carelli poderia ter sido sincero no que se propõe a fazer para tornar o filme mais “cinematográfico”? Comparar o longa com Serras da Desordem (2006), belíssimo filme de Andrea Tonacci, como é também toda sua filmografia, me parece injusto e impreciso. Tonacci tinha uma outra relação com a imagem, fazia um cinema de outros anseios; o artifício era aceitável para demonstrar as metáforas, o corpo do cineasta se extinguia na tela para reforçar uma subjetividade sublimada. Eticamente, porém, os filmes são equiparáveis.

A militância bem embasada, concreta, por si, já valeria a legitimação. Mas Martírio também arranja espaço para a dúvida. O que a narrativa consegue deixar bem claro é que o processo crítico não pode ser limitado a um relativismo básico e que não chega a lugar nenhum, ou seja, um mero “olhar os dois lados da questão”.

Martírio é um filme doloroso, incômodo, o contrário de uma narrativa kafkiana. “O espantoso, em Kafka, é que o espantoso não espanta ninguém”, diria Günther Anders. Nesse sentido, foge a todo custo do objetivismo, da mesma forma que do sensacionalismo. Em comparação com Corumbiara, inclusive, há menos cenas de câmera escondida – na verdade, nenhuma de formato igual ao do longa anterior. Existe aí um processo análogo à frontalidade da encenação. Carelli fecha o filme justamente em uma nota alta, em que finalmente um sujeito indígena, direto da sua realidade, vai capturar imagens do seu ponto de vista, sem a presença da equipe de filmagens. Encerramento este que bate de frente com um outro vídeo que aparece em certa altura de Martírio, e que foi utilizado por políticos brasileiros como prova do “terrorismo indígena”. Quando vemos uma multidão exaltar, com todas as letras, que a terra e o trabalho são mais importantes que a vida, Carelli não nos força a crer em nada. Há algo de podre no reino da Dinamarca.

Martírio (Brasil – 2016)

Direção: Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita
Roteiro: Vincent Carelli
Gênero: Documentário
Duração: 160 min

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