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Com o sucesso comercial da maioria das investidas da Fase 1 do Universo Cinematográfico da Marvel, chegou a hora de provar que o modelo de universo compartilhado poderia dar certo, encerrando um ciclo, dando abertura para a próxima Fase e, claro, fazendo história no cinema. Com a compra da Marvel Studios pela Disney, as possibilidades viraram infinitas e a falha com este aqui estava fora de cogitação.

Outra questão perturbava alguns: o filme seria bom? Conseguiria equilibrar o tempo de tela de 6 heróis e dar coesão às histórias dos filmes solo?

Depois do excepcional Homem de Ferro, dos regulares O Incrível Hulk e Homem de Ferro 2 e dos medianos Thor e Capitão América: O Primeiro Vingador, a dúvida era válida, visto que o estúdio só havia acertado de verdade com um dentre 5 filmes.

E Marvel’s The Avengers: Os Vingadores cumpriu tudo o que prometeu. Mas vamos por partes.

O inexperiente com blockbusters mas nerd de profissão e experiente em equilíbrio narrativo, Joss Whedon, foi chamado por Kevin Feige para capitanear a megaprodução e é visível como o diretor entende e respeita os personagens. No início do longa, Whedon é bastante feliz em saber criar expectativa para algo grande que virá, auxiliado pelo ótimo e potente trabalho sonoro do momento. Depois do ataque de Loki na base da SHIELD, Joss começa a conduzir diversas cenas de introdução dos membros da equipe com o maior cuidado possível para que sejam memoráveis.

Há a luta da Viúva Negra, que chega perto do nível da cena do corredor em Homem de Ferro 2, sem câmera nervosa, há a menina pedindo ajuda a um controlado Dr. Banner ao som de música indiana, há Steve Rogers numa academia vazia lembrando os acontecimentos de seu filme solo e reencontrando Nick Fury e, por fim, Tony Stark de armadura saindo da água e indo encontrar Pepper e Phil Coulson com piadas impagáveis. Tudo é dilatado com uma montagem extremamente eficiente que deixa o terreno preparado até a convergência dos envolvidos e sempre acompanhados da trilha ansiosa que anuncia a aventura que está por vir.

E de aventura, o diretor parece entender bem. O tom aventuresco e o modo “Spielberg” de se conduzir a descoberta do novo, do fascinante, através, por exemplo, dos olhos de Steve Rogers ao subir no Helicarrier é sempre presente. Falando em tom, Whedon acerta em cheio o foco. Por se tratar de um filme de heróis se juntando para impedir um Deus de dominar o mundo, ele não perde tempo apostando em dramas ou conflitos existenciais e parte direto para a diversão, para a interação grupal, para a ação em grande escala, para o cerne nerd dos crossovers. Com o humor, Whedon também atinge o equilíbrio desejado, não caindo na área do pastelão. São heróis interagindo entre si, se conhecendo. Um que veste a bandeira, outro que usa um martelo mítico, outro que se transforma em um monstro verde… logo, não há necessidade de seriedade excessiva.

Na ação, Whedon prova que tem muito estilo. Sabendo de suas limitações para conduzir cenas de batalha com peso e gravidade, o diretor aposta na coreografia e nas possibilidades visuais e de humor das capacidades de cada herói. Suas lutas são limpas e os planos, longos. Algo perceptível na luta entre Homem de Ferro X Thor e Viúva Negra X Gavião Arqueiro. O diretor não se interessa pelo dinamismo e por cortes excessivos e sim pela contemplação técnica, chegando até arriscar um plano sequência disfarçado no clímax.

E que clímax! A Batalha de Nova York é algo fora de série. Com uma escala impressionante, a sequência sabe valorizar os jogadores e seus poderes em campo e os faz protagonizar momentos inesquecíveis como a reunião do grupo em uma girada horizontal de câmera durante o ápice criativo da trilha de Alan Silvestri e o plano sequência mencionado acima. Fantástico. É realmente difícil conter as lágrimas nesses momentos.

No departamento artístico, infelizmente, o longo fica devendo. Não há uma atenção maior para a fotografia e design de produção. A atmosfera das cenas quase sempre é a mesma e os planos, em sua maioria, vazios, contendo somente o ator em um fundo banal – ora verde, ora com poucos elementos. Problema que seria corrigido substancialmente na sequência.

Quanto ao roteiro de Joss Whedon e Zak Penn, este colaborando no argumento, posso dizer tranquilamente que acerta em ser e se assumir simples. É esperto ao dar espaço para cada personagem e contar uma história de heróis que coexistem no mesmo universo tendo que se unir para deter uma ameaça externa que nenhum deles sozinho poderia conter. É a premissa básica dos quadrinhos. O DNA. Portanto, se a história não é o atrativo principal, o texto deveria acertar fortemente nos diálogos. E isso, Whedon também tira de letra.

Ver os Vingadores interagindo é um deleite. Acompanhar as discussões, tiradas, cutucadas e referências que parte de cada um de modo completamente natural é prazeroso e poucos saberiam lidar com essa parte da escrita de forma competente, respeitando a personalidade de cada um. Whedon faz parecer fácil.

Alguns podem argumentar que, mesmo aceitando a simplicidade, o roteiro derrapa no terceiro ato quando, após o ataque do Hulk, se apressa para chegar logo na “Batalha de Nova York” e, após ela, repete o erro ao resolver tudo em poucos instantes. Discordo. A intenção do texto é mostrar a clássica amizade que nasce numa equipe depois dos desentendimentos e, para isso se efetivar, é necessário o grande momento de cooperação, que se dá na Invasão dos Chitauri. É entregar o que foi prometido ao público desde o início da projeção. O momento de catarse nerd total que até os leigos saberão aproveitar. Um filme de super-heróis desse calibre necessita disso e o momento era ideal para não prolongar demais as cenas no Helicarrier e prejudicar o ritmo.

E os atores? Nenhum decepciona. Robert Downey Jr. traz de volta o Tony Stark sarcástico, cínico, prepotente e bem humorado dos dois primeiros filmes e seus diálogos são os melhores. Seu jeito de agir ganha ainda mais simpatia do público por Robert ter mais companhia dessa vez. Chris Evans continua provando que foi a escolha certa para o Bandeiroso, exibindo bem sua pose de líder no clímax. Chris Hemsworth não tem muito o que fazer e mostrar nesse campo, mas entrega. Scarlett Johansson, expandindo sua participação, mostra que não interpreta uma personagem unidimensional como o segundo Homem de Ferro nos fazia crer. Apresenta várias camadas e temos um vislumbre de seu passado, imediatamente, humanizando-a. Jeremy Renner sai um pouco prejudicado por passar a maior parte do filme do lado “oposto” e se não tem muito tempo para desenvolver seu Gavião Arqueiro, ao menos é bastante carismático.

Mark Ruffalo é a grande surpresa! Trazendo para as telas um Bruce Banner mais calmo e sereno, mas com evidente potencial de descontrole, Mark surge como a melhor versão já apresentada do personagem. Instantaneamente relacionável. A catarse provocada pela aparição de seu Hulk, em qualquer que seja a cena, é de se aplaudir de tão satisfatória.

Tom Hiddleston retorna como Loki, mais a vontade no papel e com toda atitude de vilão prepotente e traiçoeiro que o personagem necessita. Hiddleston recebe atenção especial do roteiro e direção em alguns momentos que contribuem para torná-lo mais rico. Como durante um interrogatório com a Viúva Negra ou quando é enquadrado a frente de vitrais com figuras divinas ao som de música clássica na Alemanha e logo após é confrontado por um suposto judeu.

Samuel L. Jackson, Clark Gregg, Cobie Smulders e Stellan Skarsgard completam o elenco, com interpretações respeitáveis. Então, depois disso tudo, qual o legado deixado por Vingadores?

O legado de que um universo compartilhado pode sim dar certo, assim como mostrar que o público se interessa por heróis antes desconhecidos e está disposto a embarcar em propostas que soam antiquadas, como diria Coulson, mas que se adequam ao momento com tudo que está acontecendo no mundo hoje.

Marvel’s The Avengers: Os Vingadores é um filme corajoso, honesto, coerente, bem humorado e fiel ao espírito das obras das quais se inspira. Joss Whedon fez história com o estúdio que vinha seguindo uma trajetória comercial certeira e, que atestou com o longa, que qualidade e bilheteria podem sim andar de mãos juntas quando se há tempo e dedicação para que tudo saia nos conformes e vá mais além. Avante, Vingadores! Avante, Joss Whedon!

Os Vingadores: The Avengers (Marvel’s The Avengers, EUA – 2012)

Direção: Joss Whedon
Roteiro: Joss Whedon
Elenco: Robert Downey Jr, Chris Evans, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Mark Ruffalo, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Clark Gregg, Cobie Smulders, Gwyneth Paltrow, Stellan Skarsgard
Gênero: Aventura, Ação, Ficção Científica
Duração: 143 min

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