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A década de 1960 foi de grande mudança para a grande indústria conhecida como Walt Disney Studios. Em 1961, os responsáveis pela expansão desse império incorporaram o subsídio conhecido como Buena Vista International, cuja principal missão era assegurar o sucesso dos produtos audiovisuais em solo nacional e internacional com muito mais afinco que antes, além de abrir margens para um outro tipo de investimento que se tornaria um dos carros-chefes: os longas-metragens híbridos. É claro que, quase vinte anos antes, obras como Você Já Foi à Bahia? e Alô, Amigos! fizeram bom uso dessa técnica, porém estavam embebidos em uma estética documentária e politizada que não conversava diretamente com os ideais de Disney.

Com essa brusca transformação, o terreno estava mais que preparado para permitir o florescimento de pérolas da História do cinema – e uma delas foi o clássico atemporal Mary Poppins, baseado no primeiro romance homônimo da autora inglesa P.L. Travers. O mais engraçado talvez seja toda a backstory arquitetada para a produção desse filme, mas isso é algo para ser visto em outro momento. Entretanto, é incrível perceber como em meio a tantas adversidades e obstáculos que poderiam torná-lo inacessível até hoje, as coisas acabaram fluindo em um sucesso estrondoso e que ajudou a firmar a carreira de vários nomes conhecidos até hoje.

Primeiramente, precisamos entender que o escopo de Londres em meados da década de 1950 é místico e conservador ao mesmo tempo. Em cada beco, em cada rua geometricamente construída, temos a presença de famílias que dialogam com os valores tradicionalistas defendidos por uma monarquia secular – e essa ideologia é encarnada, em uma investida paradoxal e quase bizarra, por uma personagem adorável e que empresta seu nome ao título do longa. Poppins nos é apresentada logo no prólogo, em um instigante plano-sequência aéreo que nos leva a conhecer Londres e logo depois repousa em uma novem (sim, isso mesmo) e nos mostra às sorridentes feições de Julie Andrews. Andrews e Poppins parecem ser a mesma pessoa – e quem já leu os livros sabe muito bem do que estou falando. Não é à toa que tal semelhança seja até mesmo assustadora: bochechas rosadas, uma polidez aguda e “praticamente perfeita de todo jeito”.

Para aqueles que nasceram na virada do século XX para o XXI, é quase impossível não reassistir a esse clássico e encontrar várias referências com outro filme menos conhecido, intitulado Nanny McPhee – A Babá Encantada. Isso porque, se Emma Thompson veio para ajudar a uma conturbada família a reencontrar-se em meio à perdição, é por causa de Mary. De modo muito mais sutil, ela é a representação tangível de um guardião sobrenatural que permanece entre os mortais tempo o suficiente para ajudá-los – e uma vez que sua missão foi cumprida, ela pode retornar para um descanso etéreo e eterno. E é com base nisso que somos transportados para a corrida vida da família Banks.

Como é de se esperar, aqui também temos a presença quase obrigatória de um narrador-personagem que na verdade entra como um preciso mediador.  Bert é o seu nome, e ele é uma espécie faz-tudo; palhaço, músico, limpador de chaminés, desenhista e, principalmente, um dos amigos mais próximos e possível par romântico da personagem-título. A escolha de Dick Van Dyke como um típico londrino suburbano pode ter parecido estranho, visto que ele não consegue exatamente reproduzir um sotaque crível, mas sua performance irreverente entra em constante choque com a complexidade rebuscada de Andrews e cria mágica em cena. Ele nos guia nos primeiros minutos da narrativa pelas ruas ladrilhadas da Cherry Tree Lane, 17, até nos deixar trilhar sozinhos nesse caminho tragicômico e emocionante.

Mary Poppins surge com o objetivo de restaurar os laços familiares entre o Sr. George Banks (David Tomlinson) e seus filhos, Jane (Karen Dotrice) e Michael (Matthew Garber). O Sr. Banks, provindo de uma típica e austera família, parece não perceber que os tempos são outros e que suas crianças, por mais que devam sim amadurecer eventualmente, não estão prontos para ficarem presos a uma carreira que lhes foi pré-estabelecida ainda quando jovens. Em contrapartida, os irmãos só querem um pouco mais da companhia do pai e não percebem que ele, na verdade, está encarcerado a engrenagens de um sistema muito mais complexo. Essas situações são exploradas a fundo pelo roteiro de David Magee, mas com uma lúdica bem mais pueril e inocente como forma de aumentar os dialogismos com o público-alvo e manter-se fiel à ideia do romance original.

É quase impossível pensar em Disney e não trazer a palavra “maniqueísmo” à toa. Entretanto, o filme definitivamente caminha por outro viés e nos apresenta a personagens construídos com arcos contraditórios, marcados pelo drama e pela comédia de modo equilibrado – e talvez uma das melhores representações seja a coadjuvante Winnifred Banks (Glynis Johns), esposa de George. Ela é a representação da mulher do novo século, a mulher sufragista que luta pelos direitos de igualdade renegados há muito tempo. Todavia, ela se submete constantemente aos pedidos do marido e torna-se mais uma marionete. “Guarde essas coisas, você sabe que George não gosta de nada disso”, ela diz no primeiro ato, colocando as condecorações de sua luta para longe antes que Banks chegue em casa.

As críticas são configuradas em uma roupagem bem sutil e irônica, seja pelos diálogos ambíguos da protagonista, seja pelo modo como cada um dos personagens encontra sua resolução. Poppins deixa bem claro que, apesar de sua ajuda, cabe à força de vontade de cada um ali de mudar as coisas e retornar a um estado de convivência amorosa tão defendida pelos valores da época – e é aqui que venho mencionar a sua incrível arquitetura como musical.

Irvin Kostal, Richard Sherman e Robert Sherman tiveram o maior trabalho de todos: como deixar um longa-metragem em live-action tão mágico e envolvente quanto às animações dos estúdios em questão sem cair nas ruínas do ridículo e ultrapassando as burocracias impostas pela autora da obra? Isso claramente parece uma premissa para um drama tour-de-force, mas na verdade deu forças para o arranjo de músicas em sua perfeita maestria e que, em um capricho ao mesmo tempo clássico e contemporâneo, auxiliaram na fluidez da narrativa.

O trio se inicia compondo uma faixa intitulada The Life I Lead, cantada pelo Sr. Banks em uma orquestra muito bem marcada e que marca a diferenciação de seus instrumentos. Em outras palavras, os compassos têm uma clareza mais explícita que logo dá lugar a algo mais whimsical, mais harmônico, paralelo à chegada de Mary Poppins e uma de suas canções mais conhecidas, A Spoonful of Sugar. Aqui, ainda estamos sendo apresentados aos personagens, a suas subtramas e seus desejos, então é mais que natural que o arranjo da trilha sonora seja mais brusca. Entretanto, esse engessamento gradativamente dá lugar a uma amálgama sonora emocionante, atingindo o ápice com Chim Chim Cheree e encontrando um desfecho aplaudível com Let’s Go Fly a Kite e o reencontro de duas partes antes afastadas – os filhos e o pai.

Mary Poppins prova mais uma vez o que todos já esperávamos: como os estúdios Walt Disney são capazes de criar algo novo a cada nova investida cinematográfica. E, além de ter mostrado a versatilidade de Andrews, a qual ganhou justiça após ter sido negada ao papel principal em Minha Bela Dama, essa história nos mostra o princípio de que, não importa o problema que estamos enfrentando, tudo fica mais fácil e mais doce com uma colher de açúcar.

Mary Poppins (Mary Poppins, EUA/Reino Unido – 1964)

Direção: Robert Stevenson
Roteiro: Bill Walsh, Don DaGradi, baseado no romance de P.L. Travers
Elenco: Julie Andrews, Dick Van Dyke, David Tomlinson, Glynis Johns, Hermione Baddeley, Reta Shaw, Karen Dotrice, Matthew Garber, Elsa Lanchester, Arthur Treacher
Gênero: Comédia, Musical, Fantasia
Duração: 129 min.

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