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Meninas Malvadas é uma das comédias românticas mais conhecidas de todos os tempos – e apesar de ter chegado aos cinemas em 2004, entrou para a mesma lista de outros clássicos do gênero como 10 Coisas que eu Odeio em Você e As Patricinhas de Beverly Hills. A trama adaptada por Tina Fey para as telonas imediatamente tocou e emocionou o coração de um crescente público apaixonado pelas irreverências cinematográficas, e é relembrada até hoje pelas personagens marcantes, por frases icônicas e memoráveis, e inclusive por uma ideologia que seria seguida diversas outras vezes na contemporaneidade, originando obras como A Mentira e Quase 18. Logo, o anúncio de que o longa-metragem chegarias aos mágicos palcos da Broadway veio com uma mistura de ansiedade e insegurança – entretanto, conhecendo as competentes mãos do time criativo, essa aposta tinha tudo para dar certo.

Infelizmente o resultado não foi o que queríamos. Diferente de recentes musicais que ousaram explorar um pouco mais uma mitologia a priori fechada, como Legally Blonde – que encontrou espaço em meio às incríveis produções teatrais de outrora -, Mean Girls on Broadway insurge como uma tentativa falha de manter o legado de Cady Heron e Regina George, eventualmente se manifestando de forma monótona e não satisfatória em sua completude. As referências aos classicismos musicais estão ali, porém sentimos que há lacunas e que os letristas e compositores atiraram para todos os lados buscando uma brecha dentro de um beco sem saída – em outras palavras, o desenrolar da história é chato.

Ao invés de se basear em uma narrativa em primeira pessoa, o compositor Jeff Richmond e o letrista Nell Benjamin se unem para fornecer uma perspectiva em um estilo biográfico que logo se desvanece em meio às múltiplas subtramas da peça. Aqui, os melhores amigos da protagonista, Janis (Barrett Wilbert Weed) e Damian (Grey Henson), assumem a posição de narradores-personagens para contar a história por trás de como uma garota vinda da África conseguiu desestruturar uma construção microcósmica e mudar tudo o que conheciam. Ou seja, eles nos apresentam à cômica história de Cady Heron (interpretada pela carismática Erika Henningsen) e suas complicadas “aventuras” na North Shore High School – e até aí, mudar os ares com os quais estávamos acostumados poderia ser uma ótima escolha para prezar pela originalidade.

Entretanto, todo esse maravilhoso escopo se mostra essencialmente genérico: as músicas seguem um único padrão tonal cuja proposta de mudança é praticamente inexistente; os números de dança, coreografados pelo também diretor Casey Nicholaw, não ousam sair de uma linearidade enfadonha e não funcionam como algo fluido, e sim como movimentos duros e mecânicos que são quase vergonhosos considerando que estamos assistindo a uma história adolescente e, obviamente, bem mais dinâmica que os austeros e rebuscados dramas teatrais. Esses pequenos problemas artísticos se mantêm durante os mais de 130 minutos de produção e, com a chegada do terceiro ato, se tornam cansativos o suficiente para não corroborarmos com a narrativa.

Quando pensamos em Meninas Malvadas, o primeiro nome que brota em nossa mente é o da antagonista Queen-B Regina George. A cheerleader e “dona” do colégio, temida e respeitada por todos devido à sua capacidade de manipulação, é encarnada com sucesso nessa adaptação pela incrível presença de palco de Taylor Louderman, cuja semelhança a Rachel McAdams no longa original é aplaudível. Louderman e Henningsen em diversos momentos trazem uma química agradável às sequências, protagonizando tanto cenas de tensão quanto de redenção que, por algum motivo, se perpetuam até o final do segundo ato e caem nos clichês convencionais de tantas comédias românticas do meio artístico – ou seja, buscando uma reconciliação entre forças opostas e um “final feliz” para cada um dos personagens.

A chegada de Regina é impactante: a persona surge após dois telões invisíveis se abrirem, em cima de uma mesa de refeitório, ostentando sua beleza e seu charme enquanto está rodeada por suas duas minions, Gretchen (Ashley Park) e Karen (Kate Rockwell). Se Louderman consegue roubar grande parte da atenção ainda que seja ofuscada pelo excessivo capricho com a qual a história se desenrola, Park e Rockwell superam todas as expectativas e trazem solos igualmente hilários para os palcos com vozes marcantes e únicas que são facilmente reconhecidas em meio a um ensemble considerável. Gretchen tenta o tempo todo chegar aos pés de Regina e se sente culpada por deixá-la magoada, volta e meia virando-se para a plateia e rendendo-se à comicidade muito bem-vinda de What’s Wrong with Me?. Karen, trazendo toda a expressividade blasé e nada sutil que perpetua a imagem estereotipada de sua personagem, é propositalmente avoada e se entrega à irreverência de Sexy – além de trazer piadas que não tangenciam nem um pouco a canastrice.

A trilha sonora tenta seguir uma única identidade, porém falha miseravelmente ao buscar os extremos do drama, da comédia e da contemporaneidade. Unir essas vertentes em uma única amarra poderia ter dado certo caso um pouco mais de cautela fosse investida para a construção das músicas: o resultado é totalmente inesperado pelas razões erradas, tornando-se um misto do clássico trágico com breaks do synth-pop e do electro-house, dos crescendos de epifania ou de redenção com um rock presente desnecessariamente em quase todas as faixas. Não entendemos exatamente o que a equipe artística tentou fazer, mas com certeza não funcionou tão bem quanto esperavam.

Mean Girls on Broadway é uma peça decepcionante. Nostálgica, claro, ainda mais pela quantidade de referências que busca do material original – mas nostalgia não necessariamente está relacionada com qualidade. Em suma, essa construção teatral da Broadway, ainda que tenha sido indicada a um número interessante de Tony Awards, é genérica, monótona, que consegue ser salva pela incrível química de seu elenco e pelas performances nada menos que memoráveis.

Mean Girls on Broadway (Idem, Estados Unidos – 2018)

Criado por: Tina Fey, Casey Nicholaw
Compositor: Jeff Richmond
Letrista: Nell Benjamin
Autor: Tina Fey, baseado no romance de Rosalind Wiseman
Elenco: Erika Henningsen, Taylor Louderman, Ashley Park, Kate Rockwell, Barrett Wilbert Weed, Grey Henson, Kerry Butler, Kyle Selig, Cheech Manohar, Rick Younger
Gênero: Comédia, Musical
Duração: 130 min.

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