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Buenos Aires. 2011. Martín (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala) moram em prédios vizinhos, são solitários, cheios de fobias do mundo e com hábitos bem parecidos. Alguns diriam que deu “match”. O problema é que eles não se conhecem.

O filme argentino Medianeras faz um retrato do início da era das relações virtuais, quando a dificuldade de se conectar com as pessoas já nos assombrava. Os dois protagonistas têm problemas em se relacionar com o mundo e com os outros personagens. Martín faz tudo pela internet: compras, trabalho e sexo. Mariana gosta de se isolar em seu próprio universo, decorando vitrines e cuidando de seus manequins, carregando-os de um lado para o outro, chegando até a simular uma relação sexual com um deles.

Os dois vêm de términos de namoro complicados e suas casas são bem bagunçadas, acumulam objetos, lembranças. Eles vivem em um caos de apego e desordem. Não sabem o que deixar para trás. Eles fazem várias atividades, mas parecem não se conectar com nenhuma. Personagens secundários entram e saem, e parecem apenas somar decepções na vida de Martín e Mariana.

São protagonistas disfuncionais, que fogem do ego ideal dos protagonistas clássicos hollywoodianos. Nos identificamos com eles, não porque eles representam o que queremos ser, mas o que realmente somos. Cheios de falhas, medos e incertezas. Essas “imperfeições” vão para a fotografia, que às vezes recorre à câmera na mão, buscando um modo documental, uma aproximação dos personagens com o mundo real.

São duas pessoas tentando se encontrar, achar seu lugar, que parecem viver o drama da pergunta de Foucault: “Quem somos nós?”. Há um conflito para se reconhecerem como indivíduos em meio a tantos no caos urbano. Para introduzir o problema, o filme trabalha uma bela metáfora com Mariana procurando Wally em uma revista antiga de Onde está Wally?. Só em um dos desenhos ela não consegue achar o personagem. Ela mesma sabe que não acha por estar em negação. “Onde está Wally?” se traduz no filme como “Onde eu estou?” e “O que estou, de fato, procurando?”.

Um narrador onisciente, silencioso, liga as duas tramas paralelas dos protagonistas. Ele brinca com os hábitos parecidos, alternando planos entre os dois fazendo as mesmas atividades, e chega a animar um desenho de coração quando os dois se cruzam ao acaso na multidão.

O filme ainda apresenta outro nível de narração, em voz over, feita pelos próprios personagens comentando as próprias vidas. Uma enunciação de seus pensamentos. Poderia facilmente ser reiterativo, mas aqui ganha um tom poético e é a nossa chance de conhecermos melhor Martín e Mariana. Como são muito fechados em si mesmos, essas confissões na narração só poderiam ser assim, eles não se revelariam de outra forma ou para outros personagens.

Mas aqui eles revelam o que querem que as pessoas saibam sobre eles. O narrador onisciente, superior aos personagens, faz questão de mostrá-los ainda mais. Quando Mariana, por exemplo, vai a um encontro, mas desiste de entrar no restaurante e vai embora sem se despedir. Ou quando Martín vai a um encontro e fica desconfortável o tempo inteiro. Eles não comentam esses encontros fracassados, mas nós sabemos que eles estão decepcionados, com medo e até um pouco entediados.

Pela descrição que fiz até agora, parece um filme triste, sombrio. Na verdade, é uma temática um pouco pesada, mas embrulhada em uma forma descontraída, divertida e que aponta para a felicidade no final do túnel. O filme cita Manhattan (Woody Allen, 1979), com o diálogo “You’ve got to have faith in people” e ainda coloca as músicas True love will find you in the end, de Daniel Johnston, e Ain’t no mountain high enough, de Marvin Gaye e Tammi Terrell, na trilha musical. Os personagens querem acreditar, eles querem ter esperança.

Medianeras é também uma declaração de amor à Buenos Aires e às diferenças, aos “diferentes”. O filme começa com um picotamento da cidade, fazendo um paralelo entre a organização dos prédios e seus habitantes: a cidade cresce sem critério, sem planejamento, assim como nossas vidas e relações humanas se desenvolvem; as irregularidades dos prédios refletem nossa diversidade cultural, ética, ideológica.

Assim, se às vezes achamos que estamos em um limbo, se não estamos conseguindo nos encaixar no mundo, o filme nos mostra que isso é normal e que é possível nos encontrar, encontrar pessoas com as quais nos identificamos. Devemos apenas estarmos dispostos a isso. Como fazem os dois protagonistas, precisamos construir uma janela e respirar.

Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual (Medianeras – Argentina, 2011)

Direção: Gustavo Taretto
Roteiro: Gustavo Taretto.
Elenco: Pilar López de Ayala, Javier Drolas, Inés Efron, Adrián Navarro, Rafael Ferro, Carla Peterson e Jorge Lanata
Gênero: Comédia, Drama
Duração: 92 minutos.

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