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Federico Fellini – de 8 1/2, A Doce Vida, Noites de Cabíria e A Estrada da Vida é um dos melhores diretores/roteiristas de todos os tempos. Woody Allen, com total ciência do fato, elabora sua obra mais inspirada no trabalho do diretor até então, apesar de já ter dado acenos e menções evidentes anteriormente.

Pegando elementos diretos de proposta, experimento com a forma e roteiro de 8 1/2, Allen, à época, fora julgado por parte da crítica como “alguém que não é nem metade do que Fellini foi”. De fato, Allen não é Fellini. O erro da crítica está em ter diminuído a obra por não a ter dissecado fora do âmbito comparativo.

Allen, já com 16 anos de cinema, em seu décimo filme, inverte alguma das convenções que havia estabelecido ou navegado anteriormente e, dando continuidade ao processo iniciado em Interiores e Manhattan, pensa em um drama com elementos cômicos ao invés de uma comédia com elementos dramáticos ou românticos.

A sinopse é resumida a: “Ao assistir a uma retrospectiva de seu trabalho, um cineasta lembra de sua vida e seus amores: as inspirações para seus filmes”. Perceberam a semelhança com 8 1/2 logo por aí? Pois é. Entretanto, mais que um amálgama de experimentos de cineastas passados, “Memórias” é um experimento de Woody Allen.

Na abertura, o personagem de Allen se encontra agitado em um vagão de trem, com participação de Sharon Stone no vagão ao lado, e o público é deixado no escuro em relação ao contexto e sua abordagem. De início, é possível identificar alguns dos componentes que serão incorporados à sua narrativa, incluindo o flerte com o surrealismo.

Ao passo que sua composição continua, em sua maioria, teatral, esse flerte permite possibilidades inéditas ao diretor na hora de brincar com seus experimentos. Afinal, uma das interpretações possíveis da obra é que grande parte do que acontece se trata de um sonho. Interpretação reforçada pelo próprio Allen.

E que melhor fator para se discutir as memórias de uma vida e as reflexões da natureza humana se não através de sonhos, essa reunião de imagens, ideias, pensamentos ou fantasias que, geralmente confusas e sem nexo, se apresentam à mente no decorrer do sono? Allen – repetindo sua parceria com o diretor de fotografia Gordon Willis – aproveita cada concepção imagética para criar um simulação de eventos única, seja dependendo inteiramente do humor característico do diretor, de uma cena dramática ou de momentos guiados pela trilha sonora com jazz incorporado

Allen e Mills respeitam os contrastes de luzes e enquadram seus atores por planos médios e fechados para realçar a conexão almejada com os temas, com a atriz Charlotte Rampling sendo uma peça fundamental no esquema de elaboração de planos. É parte fundamental da memória, nada de planos que não a centralizem.

Woody Allen acertou de novo. Ao pegar inspirações e temas pessoais e transformar em mais um de seus experimentos cinematográficos, o diretor se consagraria como um dos grandes mestres em manejar sua própria ousadia, assim como David Lynch na mesma época. Debater sonhos e memórias é um território de fácil desvio ao erro. Allen dribla esses riscos e cria uma obra autoral interpretativa capaz de fincar-se na memória dos espectador mais desavisado. Principalmente do que adora pegar-se desprevenido. E não é esse um dos objetivos mais puros e complexos que um artista pode almejar a alcançar na sua produção? Digno, muito digno.

Memórias (Stardust Memories, EUA – 1980)

Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Charlotte Rampling, Jessica Harper, Marie-Christine Barrault, Tony Roberts, Daniel Stern, Amy Wright, Helen Hanft, John Rothman, Anne De Salvo
Duração: 89 min.

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