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A jornada da saga sueca Millennium nos cinemas não é das mais simples. Adaptada pela primeira vez em sua terra natal em formato de telefilme, Noomi Rapace viveu Lisbeth Salander em Os Homens que Não Amavam as Mulheres, A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar, cobrindo os livros da trilogia do falecido autor Stieg Larsson, que criou uma destemida hacker antissocial e se projetou na forma do jornalista Mikael Blomkvist.

Os filmes de Niels Arden Oplev e Daniel Alfredson fizeram grande sucesso de público, ainda que não exatamente grandes produções. Isso se reverteu quando Hollywood atraiu o cineasta David Fincher para comandar sua própria versão da trilogia, recrutando Rooney Mara e Daniel Craig para os papéis de Salander e Blomkvist, no vastamente superior Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Sendo uma produção caríssima e voltada para adultos, a recepção financeira modesta atrasou a produção dos próximos dois filmes, que ainda tiveram um pedido de aumento de salário para o atual James Bond e conflitos na agenda quando Fincher pretendia rodar os dois filmes simultaneamente na Suécia. Millennium estava morta.

Eis que a saga continua nas páginas de papel, com a editora original contratando David Lagercrantz para continuar o trabalho de Larsson com A Garota na Teia de Aranha, uma nova aventura com o selo Millennium. Aproveitando a deixa, a Sony usou o livro como forma de rebootar a franquia e reviver Salander nos cinemas, com Fede Alvarez (O Homem nas Trevas) comandando o novo filme, que infelizmente não traz o mesmo impacto de sua interação anterior.

A trama envolve Lisbeth Salander (Claire Foy) sendo contratada para hackear e recuperar da NSA um importante programa de computador para um engenheiro de Frans Balder (Stephen Merchant). Capaz de controlar ogivas nucleares de qualquer parte do mundo, o programa cai nas mãos erradas quando Lisbeth é atacada por uma misteriosa organização, que toma o software para si e os transporta para um misterioso contratante. Correndo contra o tempo, Lisbeth se alia a seu antigo companheiro Mikael Blomkvist (Sverirr Gudnason) para encontrar os criminosos, ao mesmo tempo em que um agente da NSA (Lakeith Stanfield) inicia uma caçada à sua procura. 

Legado Ingrato

Entrando em A Garota na Teia de Aranha, o maior desafio de Fede Alvarez é separar-se do trabalho supremo de Fincher, um desafio ingrato para qualquer cineasta, e o uruguaio é dono de uma voz talentosa inegável. Infelizmente, desde os tons de cor da fotografia até os créditos de abertura que tentam desastrosamente copiar a do filme de 2011, é impossível tirar a impressão de que estamos vendo uma cópia barata da versão anterior, mas sem toda a sofisticação ou apelo do original.

Claro que tudo isso vem do roteiro, que já sofre por adaptar um livro inferior aos de Larsson. Pelas Mãos de Jay Basu, Steven Knight e o próprio Alvarez, o roteiro troca o mistério de investigação jornalística de Os Homens que Não Amavam as Mulheres para algo mais próximo das franquias de James Bond ou Missão: Impossível, onde Lisbeth é praticamente o Justiceiro e a antagonista quer explodir o mundo com armas nucleares. É uma escalada considerável de serial killers para conspiradores globais, e pessoalmente não parece o cenário ideal para a hacker sueca.

É uma história desinteressante e que parece mais uma variação dos thrillers cibernéticos que eram populares na transição da década de 90 para os anos 2000, quase como A Senha: Swordfish. Não que Os Homens que Não Amavam as Mulheres fosse uma trama revolucionária, mas era mais elegante e surpreendente do que o trabalho da trinca aqui – e devo incluir Langercratz, que não é nenhum Stieg Larsson, apesar de seus melhores esforços.

O Cineasta que Brincou com Fogo

Com uma história fraca, ao menos Alvarez consegue segurar as pontas com uma direção segura. Trocando o horror pela ação, o diretor traz um pouco do estilo de Fincher ao apostar em uma câmera elegante e tons contrastantes da fotografia, bastando usar a cena que nos introduz a Lisbeth pela primeira vez para notar a competência de Alvarez: a tilt sutil que passa de um homem lavando a louça de forma inocente para sua esposa com o rosto sangrando, ou o plano que traz Lisbeth com as asas de uma estátua de anjo brotando em suas costas.

Esse mesmo apreço aparece nas cenas de ação.  Seja na imagem de Lisbeth andando de motocicleta por cima de um lago congelado ou a elaborada cena em que um atirador de sniper ajuda outros personagens dentro de uma mansão a derrotar inimigos, o espectador está sempre bem posicionado dentro do que acontece, e a fotografia de Pedro Luque é admirável na forma como molda luzes e tons de cores distintos. Por mais que, repetindo, seja estranho ver Lisbeth em uma trama tão repleta de explosões, golpes de luta e hacking no estilo de Watch Dogs, é inegável a eficiência de tais sequências.

Do Castelo Inglês ao Castelo de Ar

Vivida pela renomada Claire Foy, de The Crown, sua Lisbeth é visualmente bem resolvida e fiel às representações que vieram no passado (ainda que pessoalmente eu tenha detestado a tatuagem de dragão), e a atriz nitidamente faz um bom trabalho com o sotaque e o material lhe fornecido. O problema está na empatia. Lisbeth é muito mais justiceira e sem o mistério que Rapace e Mara trouxeram em suas performances, que foram capazes de criar uma personagem especial. A Lisbeth de Foy parece só mais uma protagonista de ação genérica, justamente por ser mais acessível e deixar a guarda emocional mais baixa. 

Quem realmente se dá mal é Mikael Blomkvist, que foi completamente destruído no novo filme. Já errado na caracterização de um ator consideravelmente mais jovem do que Craig e Michael Nyqvist, Sverrir Gudnason não traz a menor empatia ou carisma com seu Mikael, reduzido a um coadjuvante descartável e que parece ter perdido sua inteligência, já que deixa passar a única pista relevante em sua investigação graças a um erro ortográfico – apontado pela Erika Berger de Vicky Krieps, outro desperdício no elenco. 

Se há uma surpresa positiva no elenco é Lakeith Stanfield, ator que cada vez mais vem se firmando como um talento sólido de Hollywood, tendo despontado na genial série Atlanta. Na pele do agente Edwin Needham, Stanfield conduz sua subtrama de caçada com muito humor e sarcasmo, quase como se estivéssemos vendo uma versão mais ácida dos “assets” que são enviados atrás de Matt Damon na franquia Bourne. Sylvia Hoeks também continua mostrando-se uma atriz hábil para vilãs cartunistas, após surpreender como a Luv de Blade Runner 2049. Vivendo Camilla Salander, a atriz faz um bom trabalho em criar uma vilã digna de 007 – superando a escrita debilitada da personagem.

Reboots que Não Amavam os Originais

No fim, A Garota na Teia de Aranha sofre mais por ter que carregar o legado das obras superiores em seu passado, sendo impossível não relembrar do trabalho mais refinado. Fede Alvarez segue demonstrando um talento admirável, mas o tom deste Millennium é incongruente com a proposta da trilogia de Stieg Larsson, que também contava com uma narrativa muito melhor.

Que falta fazem Rooney Mara, Daniel Craig, David Fincher e, principalmente, Stieg Larsson.

Millennium: A Garota na Teia de Aranha (The Girl in the Spider’s Web, EUA – 2018)

Direção: Fede Alvarez
Roteiro: Jay Basu, Steven Knight e Fede Alvarez, baseado na obra de David Lagercrantz
Elenco: Claire Foy, Sverrir Gudnason, Lakeith Stanfield, Stephen Merchant, Vicky Krieps, Sylvia Hoeks, Cameron Britton, Christopher Convery
Gênero: Ação
Duração: 117 min

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