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Spoilers leves

Até começar a ver ao novo seriado da Netflix, Mindhunter, não fazia ideia do que encontraria realmente. Assim como nosso protagonista se aventurando em território desconhecido, segui o mesmo caminho – mesmo que bem menos perigoso. Imaginava que seria apenas mais uma boa série criminal que manteria a safra medíocre de material original do serviço em 2017.

Mas havia a pulga atrás da orelha. Ela, sempre ela. Como admirador do trabalho de David Fincher, Mindhunter estava na minha lista de obras audiovisuais obrigatórias. E certamente o que chama a atenção de um diretor tão, mas tão exigente, certamente despertará interesse em milhares de espectadores.

No caso de Mindhunter, temos o advento de um formato realmente muitíssimo interessante para o entretenimento televisivo: um seriado de progressão narrativa contínua, mas com “casos da semana” inseridos de forma muito orgânica. Pode-se dizer que Dexter fez algo parecido com isso, mas a narrativa episódica tinha uma constante força nítida. Já aqui, temo algo mais próximo do cinematográfico.

Caminho do Inferno

Mindhunter começa com a coragem de todo seriado audacioso. Somos apresentados ao nosso protagonista, o agente especial Holden Ford, um profissional extremamente “verde” para lecionar uma das funções mais delicadas da força policial: a negociação de reféns com sequestradores. Reconhecendo seus fracassos profissionais e uma vida pessoal solitária, Holden acaba conhecendo e virando assistente do veterano Bill Tench, um agente que viaja por todo os EUA para ensinar forças policiais locais como compreende e categorizar a mente de faixas mentais específicas de criminosos.

Instigado a melhorar sua performance caótica como negociador, Holden passa notar uma falha no sistema. A categorização do FBI era muito ultrapassada e não encaixava figuras diabólicas divergentes. Até então, não havia o termo assassino em série, e era justamente desses psicopatas que Holden estava interessado em categorizar.

Contrariando ordens internas do FBI, ele se arrisca a entrevistar Ed Kemper, um dos psicopatas mais letais capturados até então – o seriado se passa em 1977. A partir de uma breve entrevista, Ford consegue compreender um pouco da mente criminosa psicótica e suas origens traumáticas. Depois de muito esforço, consegue fundar um setor inédito no FBI para entrevistar mais psicopatas a fim de formalizar perfis para prever crimes.

O fato é que Mindhunter é baseado em fatos reais. Realmente nos 1970, houveram pioneiros que ousaram entrevistar os humanos mais desprezíveis dos EUA para compreender a mente criminosa de um psicopata. Eram John Douglas e Robert Kessler. Inspirado no livro escrito por Douglas, o seriado visa trazer uma mistura perfeita de ficção e realidade em sua adaptação.

Pode-se dizer que o roteiro é eficiente nessa proposta, mas toda a parte “formal” da coisa é facilmente superada quando os trechos “reais” entram com tudo na narrativa. Isso é algo que comento recorrentemente quando o fato histórico tem uma força tão avassaladora que é difícil distinguir o que é mérito da criatividade da adaptação ou apenas a excelência dramática.

Por conta disso, é relativamente fácil apontar os maiores méritos e defeitos da adaptação do showrunner e roteirista Joe Penhall. Em uma metalinguagem possivelmente acidental, temos o constante debate da teoria e a prática. Apesar de ser um escritor bastante calejado, nota-se que Penhall ainda se sente preso a um formalismo clássico de roteiros convencionais: a introdução do arco dramático dos protagonistas.

No seriado, acompanhamos Holden, Bill e Wendy, uma acadêmica que estuda traumas psicológicos que ajuda a dupla de agentes a traçar um questionário padrão para ser aplicado em diferentes psicopatas.

Com extrema competência no guião do episódio piloto, David Fincher traça um retrato do cotidiano loser de Holden. Sua apresentação ao espectador, já envolve um dos maiores fracassos profissionais de sua novata carreira. E conforme descobrimos que o imaturo agente é um dos responsáveis a lecionar negociação de reféns para novos alunos da Academia do FBI, as coisas ficam ainda mais turvas para nós. Entretanto, pela competência do ator Jonathan Groff, o personagem conquista nossa empatia por reconhecer seu fracasso profissional.

No piloto, diversos arcos importantes são estabelecidos, assim como o retrato de nosso protagonista: um rapaz verde que desconhece seu potencial, ingênuo e dócil. É definido então a aurora de seu novo relacionamento amoroso com Debbie, uma universitária hippie completamente oposta ao protagonista, mas que indica caminhos para que Holden mude seu modo quadrado de ver as coisas.

Isso gera o efeito dominó que apresenta os outros coadjuvantes principais: Bill e Wendy. Bill tem o conflito mais pertinente da série: a alienação constante que sua escola móvel provoca em relação a sua família e ao filhinho adotado. O personagem é constante afetado por isso, bastante melancólico e sem a vivacidade de Holden, o contraste clássico da dupla de detetives (o velho e o novo, o descrente vs o crente na Justiça, etc).

Com Wendy, as coisas são mais interessantes, envolvendo uma revelação imprevisível na esfera de seus relacionamentos pessoais. Há uma singela busca da mulher por afeto e companhia, mas que é ao mesmo tempo impossibilitada pela natureza tóxica de seu trabalho.

Esse arco é comum a todos os personagens, apesar da jornada deles serem completamente distintas e constantemente interrompidas para apresentar os “casos da semana” nos quais novos criminosos surgem para movimentar a trama. O amargo sabor de se misturar o pior da nossa espécie, acaba intoxicando todos os que vivem no projeto, induzindo a desavenças, sabotagens e isolamento. É o ponto original melhor trabalhado do roteiro, mas há muito mais do que isso.

Na Companhia do Medo

Holden é um protagonista funcional. Em sua apresentação de início de crise existencial, ele acaba justamente se encontrando quando senta frente-a-frente e conversa com um notório psicopata: Edmund Kemper, o Co-Ed Killer, o necrófilo “decapitador” responsável pela morte de 10 pessoas, dentre elas seus avós e mãe.

Interpretado por um muitíssimo carismático Cameron Britton (digno de prêmios), somos introduzidos a um mundo completamente avesso que testa ao máximo o talento da escrita Joe Penhall. Com diálogos magnéticos e performances fantásticas, enxergamos o potencial único de Mindhunter: as entrevistas com os psicopatas.

Apesar da força inicial das conversas com Kemper, os outros três entrevistados: Monte Rissel, Jerry Brudos e Richard Speck, garantem variações de perfis e histórias tão perturbadoras quanto, mas sem 1/3 do carisma de Kemper. E isso tem um propósito narrativo exemplar. Penhall nos seduz com essas histórias grotescas do mesmo modo que Holden acaba seduzido e atraído pela escuridão.

E é justamente nisso que temos a grandiosa sacada de David Fincher para abrir e fechar seu trabalho com o personagem. Para isso, é preciso analisar a imagem. Na apresentação de Holden, ele negocia com um criminoso a uma distância considerável e segura. Fincher quer que reparemos nisso, pois o enquadramento afastado é persistente a ponto de nunca vermos o rosto do criminoso. Na penúltima cena do seriado, com Holden indo visitar Kemper no hospital após sua vida profissional e pessoal ter se tornado um caos ético por conta das mudanças em sua psique, temos então a culminação de tudo isso.

Se antes o ingênuo Holden evitava contato direto com a imundície do crime – lembrem-se de como ele lava ferozmente a camiseta manchada de sangue, o novo Holden é tão fascinado pela mesma que acaba “abraçada” por ela. A beleza da catarse é essa: ao compreender que estava se tornando tão psicótico quanto os objetos de seu estudo, o personagem sofre um colapso nervoso acreditando que iria morrer, torna-se o paranoico perfeito. É um final muitíssimo pessimista, é um final com a cara de David Fincher, é um final de temporada perfeito.

Mas obviamente há alguns deslizes quando o seriado desvia para os arcos originais. David Fincher dirige apenas quatro episódios (1, 2, 9 e 10). Depois é substituído por Asif Kapadia que mantém um nível de excelência bastante parecido nos episódios 3 e 4. Porém as coisas mudam no miolo durante os episódios restantes conduzidos por Andrew Douglas e Tobias Lindholm.

Originalidade Complementar

Quando enfim os primeiros casos de criminosos para serem capturados surgem, sentimos o texto começar a se debilitar. Há sim momentos excelentes com diálogos que aplicam os conhecimentos adquiridos através dos psicopatas presos, mas também tudo fica bastante previsível. Apesar de Holden falhar e ousar demais, a verdade é que o roteiro é tão eficiente em sua didática que o espectador também se torna bastante entendido do assunto a ponto de matar as charadas muito antes de suas conclusões.

As pistas que o texto oferece, apesar de não serem muito óbvias, são muito bem captadas por olhos mais atentos. Como Joe Penhall nunca subverte as nossas expectativas, a série acaba entrando em um caminho entediante. Fora isso, os personagens param de evoluir, ficam estagnados e alguns conflitos clichês irrelevantes surgem. Novos colaboradores para o departamento de Holden aparecem e não funcionam em tela, Wendy deixa de ser fascinante para virar irritante, a conclusão dos arcos pessoais de Bill nunca culminam em nada e ele deixa de ser ativo na história e o namoro interminável de Holden com Debbie passa a ser enfadonho, pois não oferece nada de novo – excetuando uma brilhante cena envolvendo sapatos femininos.

Há também um caso criminoso que se estende demais envolvendo o assassinato de Beverly Jean com outro punhado de personagens enfadonhos e maçantes, além da estagnação do desenvolvimento de Holden que só retorna no episódio 8 com a culminação negativa de um caso envolvendo suspeitas de pedofilia. Apesar de ser um arco brilhantemente costurado e que dialoga com os estágios que motivam atos psicóticos, todo o caminho construído é pouco inspirado e demasiadamente extenso, além da escolha de inserir o novo ajudante puritano como parceiro de Holden.

É como se Mindhunter ficasse à deriva em um imenso oceano com poucos lampejos graciosos. Com uma maré medíocre, o espectador sabe reconhecer quando algo fenomenal surge em tela como é o caso das entrevistas com outro psicopata real: Jerry Brudos. O contraste entre Brudos com Kemper é tremendo a ponto de até mesmo teme-lo. Outra excelente performance, dessa vez de Happy Anderson, surge e nos salva de uma jornada enfadonha.

Essa cadência bizarra de ritmo e viradas previsíveis certamente são o ponto principal que o showrunner precisa trabalhar na 2ª temporada, pois praticamente ofusca o grandioso trabalho de seu roteiro. Como disse, enquanto ele aborda a teoria da construção do estudo, é perfeito, mas quando joga a prática como parte original do roteiro do seriado, as coisas perdem potência e não funcionam como devem. É como dizem, jogo é jogo. E por enquanto Penhall precisa treinar mais esses segmentos.

Iluminando a Escuridão

Todos nós sabemos que continuar um trabalho iniciado por David Fincher é um tremendo desafio. E Mindhunter comprova que, de fato, é.

Fincher conduz a trama com uma energia contrastante à imagem concebida por sua visão. Certamente que o seriado é um belo festim para os olhos, com as luzes naturalistas, suaves, sombrias e pouco contrastadas do modo que Fincher passou a requisitar para seu cinematógrafo Jeff Cronenweth – aqui, outros cinematógrafos replicam o estilo visual ao longo de todo o seriado.

Caprichando meticulosamente na composição de seus enquadramentos, fica claro que Fincher usa uma abordagem um pouco mais rara em sua assinatura autoral. Sendo um diretor completo, capaz de encenar muitíssimo bem, dominar efeitos visuais, uso do som e da música, do poder da montagem, entre tantas outras características pertinentes. No caso de Mindhunters, por conta dessa composição voraz e pouca movimentação de câmera, dá para perceber que existe uma limitação orçamentária nessa temporada.

É algo natural em diversas primeiras temporadas, mas certamente é bizarro ter um dos maiores diretores da História do Cinema à sua disposição sem poder encenar de modo mais completo. Fincher somente foge do padrão excessivo da linguagem clássica estática quando ornamenta uma ótima sequência em montagem mostrando as idas e vindas da escola móvel criminal de Holden e Bill. (Aliás, que ótima sacada narrativa de colocar os protagonistas com acesso a diversos estados e penitenciárias dos EUA).

O diretor também sabe compensar em aplicar seu DNA na estética sonora da série, em particular das músicas licenciadas. Sim, prepare-se, pois Mindhunter tem uma das melhores seleções musicais do ano. Ao contrário dos outros diretores, Fincher também é o único a exacerbar uma verve cômica ferrenhamente ácida e eficiente. É impossível não rir muito com a eficiência do timing visual e de entrega durante as entrevistas com Kemper no episódio 2 ou ficar realmente entusiasmado quando o diretor encerra esse episódio (também o melhor da temporada) com a fundação da seção inédita do FBI ao som de Psycho Killer de Talking Heads

design de produção aqui também é digno de menção. A década de 1970 é recriada com afinco certeiro, além do destaque excepcional nas diferentes salas das prisões nas quais são conduzidas as entrevistas. Na esfera dos personagens, também é curioso notar que somente o apartamento de Debbie possui uma forte identidade visual, inspirada claramente pela cultura hippie. Os outros personagens, todos do núcleo do FBI, recebem aposentos estéreis, sem personalidade alguma, são estranhos em suas próprias residências. O sentimento de alienação perdura em todos os cantos, são prisioneiros do ofício.

Aviso que a ênfase da análise no Fincher não é por menos. A série segue a concepção do diretor até sua conclusão, tanto visual quanto sonoramente. Aliás, é muito gratificante vê-lo resgatando boas sacadas que teve em Se7en e Zodíaco, duas obras-primas de filmes policiais dos últimos trinta anos. Em particular, Mindhunter conversa bastante com Se7ven pelo fato de nunca vermos nem uma única vez a realização do ato de matar, somente o posteriori a isso.

O desdobrar dos passos investigativos claramente é mais burocrático assim como em Zodíaco. Aliás é importante mencionar como Fincher também se apropria de uma linguagem artística de videogame. Qualquer um que tenha jogado L.A. Noire, reconhecerá de cara o estilo das introduções misteriosas de quase todos os episódios acompanhando um misterioso cidadão e suas andanças em Park City, Kansas.

O fato é que esse cidadão não é apenas um homem ordinário. Trata-se do BTK Killer, Dennis Rader, um dos psicopatas que mais conseguiu driblar as forças da lei. Na altura do tempo diegético do seriado, Rader já tinha matado 4 pessoas. É bem possível que vejamos muita coisa perturbadora através dessas introduções que conversam tanto quando o game mencionado como nas interrupções do criminoso em O Silêncio dos Inocentes.

Sob a Luz

Eu aplauso de pé Mindhunter. Há anos que eu não assistia a uma série policial tão promissora, cheia de identidade, estética irreparável e magnética quanto esta. Qualquer fã do gênero ficará extremamente fascinado pela sedução diabólica das entrevistas com os psicopatas e também por alguns casos de investigação e captura de criminosos que Joe Penhall se esforça tanto em construir.

Mindhunter é um pacote completo. Ou melhor, incompleto. Ainda estamos na primeira temporada. E ainda há um punhado de insanos doentes psicóticos que iremos conhecer nas próximas. Ted Bundy, Charles Mason, John Wayne Gacy, Lynette Fromme, Arthur Bremer, Sara Jane Moore, Donald Harvey e muitos outros estão somente à espera de sua entrevista definidora.

É mais do que hora de tirar os monstros da escuridão e despir todas as camadas de sua insanidade para aprendermos a preparar as armadilhas perfeitas. Dessa vez, sob a luz.

Mindhunter (Idem, EUA – 2017)

Showrunner: Joe Penhall
Diretores: David Fincher, Asif Kapadia, Andrew Douglas, Tobias Lindholm
Roteiro: Joe Penhall, John Douglas, Mark Olshaker
Elenco: Jonathan Groff, Holt McCallany, Hannah Gross, Anna Torv, Cotter Smith, Cameron Britton, Happy Anderson, Sam Strike
Gênero: Policial, Crime, Drama
Duração: 60 min/episódio

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