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É complicado ler Mindhunter depois de ter conferido a excelente adaptação trazida por David Fincher que estreou há pouco na Netflix. O motivo é bastante simples: a expectativa é muito alta.

Com foco inicial ferrenho nas entrevistas de Holden Ford, personagem inspirado em John Douglas, um dos responsáveis fundar a Unidade de Ciências Comportamentais do FBI, acreditei que a autobiografia homônima seria uma experiência perturbadora nos arquivos das mórbidas entrevistas que o agente conduziu com diversos psicopatas capturados anos antes dele iniciar sua pesquisa de perfis que revolucionou a criminologia dos anos 1970.

Mas, ledo engano, Mindhunter vai por outras vias nem tão interessantes. Por exemplo, o maior desafio da autobiografia é justamente seu primeiro terço. São mais de cem páginas em uma aventura de ego sobre histórias nada interessantes da vida pessoal de John Douglas, sua rotina, educação e vida amorosa. Ou sobre como ele aprendeu a jogar baseball entre outros esportes. É um negócio tão absurdo e contrastante que demorei a acreditar que estava lendo um livro sobre as mentes mais perigosas da América.

John Douglas e o Cotidiano

O problema é que os leitores desavisados vão estranhar essa enorme ladainha extremamente maçante. Tenha em mente, sempre, que Mindhunter é uma autobiografia de Douglas escrita em conjunto com Mark Olshock. Logo, para chegar no ouro do tema, é preciso aguentar muita ladainha nada pertinente ao leitor. Esse é o maior defeito do livro: Douglas trata o material como um “querido diário” e omite detalhes pertinentes sobre como consegue traçar o perfil dos suspeitos que, segundo ele, são sempre muito apurados.

A parte das entrevistas, na verdade, não compõem nem mesmo 10% da obra e, quando surgem, são extremamente resumidas apenas mencionando um breve histórico sobre o entrevistado e da conversa também. Não há nem mesmo uma menção aprofundada sobre entrevistas históricas com Ted Bundy e Charles Manson. Por mais irônico que pareça, o maior foco é restrito em Ed Kemper, a entrevista mais explorada no seriado – logo, quem já viu essa história não ficará muito animado em ler um capítulo inteiro trazendo as mesmas informações já tão bem trabalhadas.

Claramente minha análise está assumindo uma posição de quem foi motivado a ir atrás da fonte depois de ver o material adaptado. É claro que sei que o livro foi lançado anos antes nos EUA, mas sua publicação no Brasil é bastante oportunista para conquistar leitores que já tiveram contato com a série.

Porém, quem sobreviver a chatice inicial de mais de cem páginas, com certeza encontrará capítulos melhores até o fim do livro. Apesar da notória desorganização do material que mistura casos ativos com a vida pessoal de Douglas, é por eles que conhecemos detalhes importantes da investigação de diversos psicopatas que aparecerão nas próximas temporadas do seriado.

Eis o homem, a lenda.

John Douglas e os Psicopatas

Casos como o de David Carpenter, Carmine Calabro, Bittaker e Norris, Robert Hansen, Larry Gene Bell e Wayne Williams são bastante detalhados, apesar de uma frieza excessiva de Douglas ao abordar a quantidade inacreditável de vítimas que esses assassinos ceifaram ao longo do período de atividade.

Douglas também parece relutar em contar mais detalhes sobre os diversos tipos de psicopatas com padrões diferentes como os que atuam em duplas, os homossexuais, psicopatas negros, mulheres, psicopatas casais ou de familiares. São assuntos pertinentes que envolvem perfis distintos, mas Douglas apresenta a pirâmide básica para identificar alguém cheio de potencial para se tornar um assassino em série: enurese tardia, incêndios diversos e tortura de animais.

Como Douglas rapidamente abandona as entrevistas das quais ofereceram a base para seu estudo, temos a apresentação dos diversos casos ativos de criminosos que ele e sua Unidade conseguiram colocar atrás das grades. Porém, como disse, Douglas não se importa em explicar minimamente como conseguiu traçar o perfil dos criminosos temendo que outros psicopatas lessem o livro e descobrissem o método.

Apesar de ser um medo crível, nada ajuda na obra que se torna enfadonha só ganhando força quando alguns casos realmente extraordinários como o da esposa que desejava matar um colega de Douglas surgem, ou o terrível caso de Gene Bell. Mesmo assim, com histórias fortes, a leitura encontra outros entraves: a escrita não é prazerosa e muito menos magnética.

Ao contrário de seu concorrente direto, o livro Serial Killers – Anatomia do Mal, de Harold Schechter, Mindhunter é enfadonhamente escrito sem gatilhos narrativos de suspense ou estruturas narrativas clássicas para deixar a leitura mais envolvente. Douglas faz uma mera descrição dos fatos, apesar dos esforços hercúleos do seu parceiro co-escritor em deixar a experiência mais envolvente.

Particularmente, acho surreal o talento que Douglas tem em deixar um dos assuntos mais interessantes do mundo virar uma verdadeira chatice. Ainda que o texto nunca supere o problema de Douglas mais desviar a atenção dos fatos para si e seu ego gigante, o leitor já está acostumado nessa altura a aturar as interrupções e logo é recompensado por detalhes valiosos da investigação como a de Wayne Williams e a razão da mudança do lugar de desova dos corpos das crianças que matava.

Uma das principais entrevistas da carreira de Douglas que ele nunca menciona direito: Ted Bundy.

Potencial nunca atingido

Apesar da segunda metade do livro ser muito mais interessante, sentimos que o potencial de Mindhunter nunca é verdadeiramente atingido. Isso também acontece por conta da estrutura muito viciada que Douglas aplica no relato dos casos que nunca são verdadeiramente estudos, mas relatos de como ele estava certo.

Segue o padrão: vida de Douglas, assassinato com identidade revelada do psicopata na maioria das vezes, descrição do estado dos corpos das vítimas, perfil traçado por Douglas, investigação continua, Douglas viaja e alguém pede para ele retornar para ajudar no interrogatório do suspeito que bate com o perfil, interrogatório muito resumido, prisão, vida de Douglas, fim.

Isso se repete na maioria da segunda metade do livro e sentimos um rancor forte da personalidade do autor por nunca ter recebido reconhecimento suficiente sobre a sua ajuda no caso em particular. Logo, há também um sentimento de “lavar roupa suja” no meio dos capítulos que nada são pertinentes para nós.

Apesar de sua constante repulsa a psicólogos, talvez seja realmente o que o autor precisa: visitar um deles.

Mindhunter é um livro que custa muito a engrenar e muito provavelmente você já irá ter abandonado a leitura antes de chegar nas partes realmente interessantes. Douglas adora puxar a fofoca para o seu lado com uma das autobiografias mais chatas e malas que eu já tive o desprazer de ler.

Rapidamente o livro se torna em uma egotrip insuportável comentando como Douglas é forte, bonito e trabalhador. O engraçado é que, aparentemente, o agente especial é imune a falhas. O “perfeito” detetive nunca erra em sua jornada. Seus perfis são exatos e precisos, apesar de nunca revelar como raios ele chega a essa bendita dedução.

É particularmente curioso e irônico o livro terminar com o lamento de Douglas de que “os dragões vencem”, em alusão aos psicopatas soltos por aí. Se ao menos tivesse ensinado o básico e tornado o campo de seu estudo mais interessante, pode ter certeza que seria mais fácil identificar e monitorar indivíduos com essa disposição doentia.

Por fim, depois de aguentar as apresentações de sua “magia” em acertar os perfis dos assassinos sem mais nem menos e encerrar a leitura, é bem fácil de admitir que dificilmente o leitor sentirá que aprendeu algo ao longo das mais de 300 páginas do livro. Realmente, é uma conquista admirável pegar um tema tão relevante e torna-lo em algo tão… egocêntrico.

Mindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano (Mindhunter: Inside the FBI Elite Serial Crime Unit, EUA – 1995)

Autor: John Douglas, Mark Olshaker
Editora: Intrínseca
Edição: 1ª edição de 2017 – não atualizada com informações complementares
Gênero: Autobiografia, Crime
Pgs: 380

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