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Histórias de espionagem sempre foram de gosto popular por combinar, na maioria das vezes, o melhor do mistério e do suspense com a ação. Não é à toa que tal gênero tornou-se extremamente popular nas décadas de 1950 e 1960 e até hoje influencia na produção de obras literárias e audiovisuais, impactando na indústria contemporânea do entretenimento muito mais do que lhe damos crédito. Entretanto, é complicado realizar uma boa trama envolvendo espiões internacionais sem cair em delicados clichês que já cansamos de ver o tempo todo nas telonas – e aqui posso mencionar a rivalidade insurgida na Guerra Fria entre soviéticos e norte-americanos e as constantes teorias da conspiração. Caso não se saiba tratar tais narrativas generalizadas através de perspectivas originais ou novas investidas, o produto final se torna algo formulaico e exaurido.

Talvez partindo desse princípio, Brian De Palma tentou fazer o seu melhor ao mergulhar no clássico universo de Missão: Impossível, traduzindo a anacrônica série de mais de trinta anos antes para o curto período pós queda do Muro de Berlim, que marcava o “fim” dos conflitos entre Ocidente e Oriente. Uma jogada arriscada, devo dizer, mas que felizmente não se respalda nos convencionalismos há muito vistos em Agente 86, por exemplo. Aqui, a premissa brinca com a ideia revigorante do famigerado bode expiatório, abrindo margens para inserir camadas de traição governamental, alianças criminosas e as boas e velhas sequências de pura ação – que, por mais fantasiosas que chegam, são bem divertidas. O problema principal é o modo como o diretor nos conduz pela história, pecando diversas vezes no ritmo, na montagem e em resoluções críveis o suficiente para nos deixar satisfeitos.

E quem melhor para encarnar o espião protagonista que o galã da década de 1990, Tom Cruise? Seguindo sua carreira em ascensão após estrelar filmes como Top Gun – Ases Indomáveis, Dias de Trovão e A Firma, o astro já se estabelecia como um dos grandes nomes do cinema e com certeza foi uma das razões que conseguiram atrair boa parte do público. Cruise dá vida ao herói Ethan Hunt, um agente estadunidense que faz parte do IMF (Impossible Missions Force ou Força de Missões Impossíveis) e, durante um arriscado trabalho liderado por Jim Phelps (Jon Voight), presencia a morte de cada membro de sua equipe da forma mais trágica e explícita possível. Essa primeira sequência, coreografada a ponto de tirar o fôlego de qualquer um que a assista, é um belíssimo indicativo do que o público pode aguardar – porém, transforma-se em uma oportunidade jogada fora.

Após os desastrosos eventos, Ethan passa a ser considerado um agente infiltrado pela própria CIA, obrigado a se esconder e a recorrer aos métodos mais desesperadores para encontrar o real responsável pelas mortes e limpar o seu nome. Um pano de fundo um tanto quanto modesto, mas que resgata de forma mimética toda a glória do seriado arquitetado por Bruce Geller, repaginando-o para o momento em questão. Ou seja, além de uma narrativa que tem como primeira instância permitir nosso envolvimento, espere também inúmeros artefatos de espionagem de última geração – ao menos para a época – e muito mais pancadaria que o usual. De verdade.

O deslize principal é, como supracitado, a condução de todo esse maravilhoso escopo: os atos não seguem um mesmo padrão rítmico, optando ora por arcos mais dramáticos, ora por um suspense extremista, tangenciando um thriller que nunca definitivamente marca presença. A falta do escape cômico o torna mais pesado pelos motivos errados e, se não fosse pelas construções cênicas de ação – incluindo a icônica sequência em que Cruise desce pelo duto de ventilação -, tudo se arrastaria ainda mais do que o necessário. Não é surpresa que os momentos de maior apoio dialógico quebrem de modo brusco a atmosfera e se assemelhem a fragmentos diferentes do todo.

De qualquer forma, o brilho de Missão: Impossível fala mais alto que suas falhas. Ainda que os equívocos sejam visíveis, seja nos close-ups que dê alguma forma tentam emular os filmes noir de décadas atrás, seja na conjuntura da trilha sonora que adota um tom fabulesco e aventuresco demais para uma narrativa de espionagem. Mesmo que os trejeitos de Danny Elfman falem mais alto em, a música-tema é simplesmente soberba e utilizada até os dias de hoje em diversas paródias, além de ser homenageada com algumas desconstruções muito bem-vindas. O arranjo dos instrumentos clássicos com o toque pop é cativante, permanecendo na memória do público por muito tempo após terminarem a obra.

E é claro que não podemos deixar de mencionar a atuação de Cruise como o protagonista, o qual não conseguiria o estrelato se também não fosse pelo auxílio de seus colegas de cena. Ainda que Emmanuelle Béart tenha trazido a carga romântico-dramática para diversos momentos como Claire, esposa de Jim, é a dupla formada por Jean Reno e Ving Rhames que rouba o foco; encarnando respectivamente os renegados Krieger e Luther, amenizando um pouco o tenso ambiente com pontuais falas cômicas e insurgindo como supostos fiéis escudeiros para que o plano de Ethan funcione.

O início dessa franquia de sucesso pode não ter sido a melhor possível, deixando a desejar pela triste perda de todo seu potencial; entretanto, combinando o carisma de seu elenco com cenas de ação muito bem coreografadas, o longa-metragem fez o seu papel obrigatório de entreter o público, deixá-lo satisfeito e até mesmo fornecer uma perspectiva mais burlesca para o maltratado gênero da espionagem.

Missão: Impossível (Mission: Impossible, EUA – 1996)

Direção: Brian De Palma
Roteiro: David Koepp, Robert Towne, baseado nos personagens de Bruce Geller
Elenco: Tom Cruise, Emmanuelle Béart, Jon Voight, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott Thomas, Vanessa Redgrave
Gênero: Thriller, Ação, Aventura
Duração: 110 min

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