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Dentre as inúmeras franquias que sustentam o cinema blockbuster contemporâneo, poucas são tão consistentes e fascinantes como Missão: Impossível. Baseando-se em uma série de TV de Bruce Geller, a cinessérie estrelada por Tom Cruise começou em 1996, e de lá para cá, vem impressionando com as reinvenções e atualizações em sua fórmula, além da impressionante continuidade em sua narrativa – Ethan Hunt nunca foi rebootado, como seu primo britânico James Bond. Após uma feliz dobradinha com Protocolo Fantasma, de Brad Bird, e Nação Secreta, de Christopher McQuarrie, Missão: Impossível – Efeito Fallout chega para cravar a sexta aventura do agente secreto mais insano da sétima arte. O resultado, como tem sido nos últimos anos, é o de que Cruise e sua equipe novamente chegaram ao topo de seu jogo.

Assumindo um caráter quase de sequência direta, a trama lida com as consequências da prisão do terrorista Solomon Lane (Sean Harris), antigo líder do grupo conhecido como o Sindicato. A IMF informa Ethan Hunt que diversos ex-agentes da corporação de Lane, batizados de os Apóstolos, estão à solta e continuam executando o plano de seu antigo mestre, que envolve o roubo de três núcleos de plutônio que facilitariam a construção de ogivas nucleares. A fim de impedir um cataclismo, Hunt reúne sua velha equipe com Benji (Simon Pegg), Luther (Ving Rhanes) e a misteriosa Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), mas agora contando com a participação de um agente da CIA, August Walker (Henry Cavill), que é enviado para vigiá-los.

O Agente Secreto que Sabia Demais

Basicamente, é a mesma premissa dos demais: Ethan Hunt precisa encontrar macguffins que podem garantir a destruição mundial, mais uma vez sendo ogivas nucleares. É até divertido como o roteiro de McQuarrie abraça o aspecto essencialmente televisivo durante as primeiras cenas, onde Hunt recebe a velha mensagem de voz que nos inunda com toda a exposição necessária sobre o Sindicato e os diferentes aspectos da nova missão – justamente por estarmos no primeiro ato e termos ciência das características episódicas da franquia (que se estendem até os minutos finais, dignos de um episódio de Scooby Doo), essa orgia de informações não só soa orgânica, mas também elegante.

O que o roteiro oferece de novidade está em seu cerne, que adota elementos de um thriller de espionagem como jamais havia feito antes. McQuarrie já havia trazido elementos fortes de um cinema mais John Le Carré em Nação Secreta, mas aqui Ethan Hunt está mais próximo de George Smiley no quesito de paranoia, visto que os Apóstolos do Sindicato podem literalmente ser qualquer um, chegando a um ponto onde o roteiro está sempre pronto para puxar o tapete sob o espectador. Além disso, aplaudo McQuarrie por ter trazido de volta Solomon Lane para este filme, possibilitando uma expansão mais proveitosa do lore ainda raso de Missão: Impossível. A entrada do personagem de Cavill é bem-vinda nesse quesito, especialmente por ser um agente mais “tradicional” e ainda novato quanto aos métodos da IMF: “as pessoas realmente acreditam nessa bobagem?”, questiona o brutamontes ao tomar ciência do uso das máscaras ultrarrealistas que se tornaram assinatura da franquia. Há um certo esgotamento quando a trama mergulha fundo demais nas “duplas traições e infiltrações”, especialmente quando estamos diante da descartável femme fatale de Vanessa Kirby, mas a trama não deixa a bola cair.

Também é ótimo ver que o roteiro dedica um bom tempo para expandir seus personagens coadjuvantes, que sempre brilharam em suas respectivas funções ao longo dos últimos filmes. Alec Baldwin é capaz de trazer muito carisma e até humor com o secretário responsável por chefiar a IMF, enquanto Simon Pegg continua divertindo com suas observações espirituosas, ao passo em que Rebecca Ferguson continua mostrando-se como uma das peças mais valiosas da franquia com sua Ilsa Faust; e sua relação com Ethan ganha contornos interessantes. Mas é mesmo Ving Rhames que rouba alguns minutos com um monólogo surpreendentemente emotivo em relação à culpa: quando Ethan salva sua vida no primeiro ato, ele praticamente permite o roubo das três peças de plutônio, desencadeando todos os eventos da trama.

McMaestria

Mas é claro. Por mais charmosa e instigante que seja neste capítulo em questão, quando falamos de Missão: Impossível, queremos saber que tipo de acrobacia maluca e perigosa Tom Cruise foi capaz de fazer agora. E que não haja dúvidas: essa equipe está sempre se superando. Havia um certo receio com McQuarrie voltando à franquia (afinal, o charme sempre foi trazer um novo diretor a cada filme), mas só posso agradecer por seu retorno. Seu olhar para a ação é justamente como se deve ser: planos abertos, cortes limpos e uma dependência praticamente exclusiva de efeitos práticos e locações reais. Há uma sequência de perseguição de motos que impressiona justamente pelos enquadramentos abertos e vastos onde vemos Tom Cruise pilotando em meio ao trânsito parisiense: nada de muito empolgante à lá Mad Max: Estrada da Fúria acontece aqui, mas é a forma como McQuarrie opta por registrar essas cenas – e o fabuloso design sonoro – que a torna tão especial; e também por vermos Cruise ali.

E como vemos Cruise. Agora o ator pode acrescentar a seu notável repertório que já fez um salto de HALO (High Altitude, Low Opening), correu pelos telhados de Londres e saiu com um tornozelo quebrado e até mesmo pilotou helicópteros por cima de geleiras. A execução de todas essas cenas é o tipo de coisa que faz valer o investimento no ingresso de cinema de uma boa sala, com a equipe de dublês e câmeras deste filme sendo dignas de prêmios exorbitantes: para a sequência do salto HALO, um dos cameraman acoplou uma câmera IMAX em seu corpo, de forma a registrar o espetacular salto de Tom Cruise do avião, naquela que é uma das mais inacreditáveis tomadas que o cinema de 2018 vai nos propositar. É realmente impressionante, assim como ver o absurdo de dois helicópteros se enfrentando em uma corrida aérea que seria capaz de deixar Christopher Nolan de queixo caído, dado o bom uso do IMAX – acoplado no interior e exterior das naves, o que proporciona uma imersão assustadora. 

Um aspecto que diferencia o trabalho de McQuarrie nessas sequências também é o humor, curiosamente. Sem jamais soar forçado, temos algumas interjeições cômicas onde os realizadores parecem estar olhando de fora para o que acontece na cena; reconhecendo a própria insanidade de suas ações. Isso fica bem evidente durante as perseguições em Londres, especialmente no momento em que Ethan – sendo guiado via GPS por Benji – precisa usar um escritório lotado como atalho para chegar a outro lugar. A correria pára por alguns segundos ali, onde vemos as reações dos funcionários e até mesmo a impaciência de Benji, no momento em que Ethan toma fôlego e cria coragem para pular de uma janela. É um pequeno momento que oferece literalmente um respiro, uma boa risada e ainda ajuda a humanizar o protagonista após tantas ações impossíveis.

E não posso deixar de mencionar a excelente trilha sonora de Lorne Balfe. Toma inspiração de Hans Zimmer na medida certa para pontuar a pancadaria, mas adota elementos dignos de um bom noir para criar uma atmosfera incerta e paranoica ao roteiro de McQuarrie.

O Rei do Show

A cada novo filme de Missão: Impossível lançado, sinto estar diante do melhor exemplar até então. Não é diferente com Efeito Fallout, que impressiona não apenas por suas cenas de ação absolutamente espetaculares, mas também por sua narrativa imprevisível e envolvente, que abraça com força o aspecto espionagem de seu DNA; e também suas origens televisivas com uma história deliciosamente episódica. Que Tom Cruise encontre novas formas de nos surpreender nos próximos capítulos.

Missão: Impossível – Efeito Fallout (Mission: Impossible – Fallout, EUA – 2018)

Direção: Christopher McQuarrie
Roteiro: Christopher McQuarrie, baseado na série de TV de Bruce Geller
Elenco: Tom Cruise, Rebecca Ferguson, Simon Pegg, Henry Cavill, Angela Basset, Ving Rhames, Sean Harris, Michelle Monaghan, Alec Baldwin, Wes Bentley, Vanessa Kirby
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 147 min

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