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Escrever sobre uma série bastante hermética como Mr.Robot é sempre um prazeroso desafio, tamanhas são sua qualidade e reviravoltas, além dos diálogos magistrais e carregados. É natural, portanto, esperar um final de temporada que eleve a série a um novo patamar e subverta as expectativas. Ainda que a série faça tudo isso neste último capítulo da temporada, ela o faz de uma forma mais tímida, mais ordinária, amarrando superficialmente inúmeras pontas soltas, passando em inúmeros momentos a sensação de um final não apenas de temporada, mas de toda a série.

Neste episódio, não temos uma cena de abertura “desconectada” do dilema que os personagens vivem no tempo presente da série. O início é resultado direto da última cena do capítulo anterior, na qual Whiterose (BD Wong) concorda com Grant (Grant Chang),seu amante/assistente, que Elliot (Rami Malek) deve ser eliminado. O Dark Army invade o apartamento do hacker, que, aparentemente, já esperava por isso e se esconde no alojamento vizinho que era ocupado por Shayla (Frankie Shaw). Estando ciente de tal situação, o protagonista começa a se preocupar com a situação de Darlene (Carly Chaikin) e resolve tentar encontrá-la no ponto de encontro combinado.

Darlene encontra-se sob custódia do FBI, consequência dos seus atos no episódio passado. Ela é retirada da sala de interrogatório para ser levada pelo agente infiltrado Santiago (Omar Metwally) ao DarkArmy. A agente DiPierro (Grace Gummer) confronta Santiago, que a nocauteia e a leva junto, revelando assim sua lealdade ao DarkArmy. É bastante interessante a escolha adotada pelo roteiro. Em tempos de mulheres fortes na cultura pop e de uma maior reprovação quanto a violência contra mulheres, esta cena, assim como os papéis centrais que homens desempenham nas vidas das personagens, podem ser malvistas.

Ao constatar que Darlene não está no local combinado, Elliot começa a se culpar pela possível morte dela e percebe que precisa de ajuda. Ele então decide recorrer àquele que é a unica forma possível de ajuda disponível: Mr.Robot (Christian Slater). Para conseguir falar diretamente com sua outra parte, Elliot recorre ao que pode ser definido como um gatilho: a mesma roda gigante do primeiro episódio na qual ele descobre quais eram os planos do seu alter-ego. Em um de seus momentos mais lúcidos e sinceros, o protagonista admite ter sentido falta da sua outra metade e reconhece que ele nada mais é que uma parte sua. A utilização de conceitos teóricos da psicologia enriquece muito a série e faz com que os personagens ganhem personalidade e profundidade. Elliot volta a trabalhar com Mr. Robot para salvar Darlene, mas é apenas após o primeiro aceitar tanto a realidade que ocasionou o seu surgimento, quanto a natureza do que ele representa. Somente após essa autoaceitação é que ambos conseguem coexistir de maneira não-antagonística. Com isso, Sam Esmail demonstra enorme domínio na área da psicologia e nos deixa ansiosos para a diversificação das interações entre ambos.

Elliot e Mr Robot então resolvem procurar provas do paradeiro de Darlene no apartamento do agente Santiago e são surpreendidos por Irving (Bobby Cannavale), que os leva até a fazenda onde estão a irmã de Elliot e a agente DiPierro. De todas coisas boas nessa terceira temporada, e não foram poucas, podemos afirmar que a adição de Bobby Cannavele ao elenco foi a escolha mais inspirada. Irving é um personagem que facilmente se torna o centro das atenções em suas cenas, graças ao roteiro e também a presença que o ator possui em cena. Em determinada cena do episódio, vemos seu personagem Irving esquartejando o agente Santiago com um machado, partindo de um extremo estoicismo e indo até um completo descontrole emocional, enquanto ameaça de fazer o mesmo com DiPierro e sua família, caso a agente não trabalhe de dentro do FBI para o exército de Whiterose. De fato, o personagem demonstra possuir profundos laços com o DarkArmy e seu líder, tal como demonstrado em um dialogo com Grant, no qual Irving afirma já ter um dia desempenhado o mesmo papel que ele agora desempenha.

O episódio reserva também um importante espaço para desenvolver as situações envolvendo Angela (Portia Doubleday). No episódio anterior, vimos uma personagem paranoica sendo levada por um engravatado para um lugar desconhecido. Aqui, descobrimos que ela está sob a proteção de Phillip Price (Michael Cristofer). O chefão da E-Corp abre o jogo e revela que a presença da jovem nos planos do DarkArmy foi acidental e apenas para forçá-la a desistir do processo que impedia o avanço dos interesses de Whiterose. Em um dos melhores momentos do episódio, Price conta a Angela que é seu pai e que não tinha intenção alguma de revelar isso, caso a situação não o forçasse a fazê-lo. As relações interpessoais entre os personagens da série nunca foram convencionais, talvez pelo fato de o narrador também não ser uma figura convencional. No momento da revelação da paternidade, ambos os personagens apresentam uma frieza e desconexão abismais. Mesmo quando Angela desaba ou clama por retaliação contra Whiterose, Phillip não se dispõe a abraçá-la nem tampouco esboça qualquer intenção de atender seu clamor, ele meramente responde: “sugiro que você encontre um jeito de viver com o que fez”. São seres humanos tornados máquinas frias, não mais sofrendo como os dilemas éticos, estes há muito já transpostos por tais personagens, que nos diferenciam dos animais e dão um propósito a existência.

De forma fragmentada, a montagem alterna Angela e Phillip com Elliot barganhando sua vida e a de Darlene com o Dark Army. O protagonista luta pela sua vida e pela de sua irmã como nunca antes. Se, ao ter uma arma apontada para sua cabeça na primeira temporada, o personagem afirmava algo como: “Acho que uma bala na cabeça até que é jeito pacífico de morrer”; aqui o personagem agarra a mínima chance que tem de permanecer vivo, se valendo dos interesses de Whiterose e das suas habilidades como hacker, para concretizar os interesses do líder do DarkArmy. Interessante é a subversão de expectativas nessa cena. Após muito trabalhar para encontrar uma forma de desfazer o atentado de 5/9, Elliot descobre que ninguém se importa que o mesmo seja desfeito, uma vez que já cumprira seu propósito. Leon (Joey BadA$$) então executa todos os membros do DarkArmy presentes, fazendo Grant se suicidar, e cobrando de Elliot a ajuda que fez com que Darlene e ele permanecessem vivos.

Já é notória a fixação que Sam Esmail possui por trens e, em particular, pelo metrô. A importância deste elemento já foi desenvolvida ao longo das outras temporadas e também é reiteradamente o palco de importantes momentos, como a primeira interação com Mr.Robot, a aproximação com Darlene e o beijo de Elliot e Angela. Aqui, Esmail parece fechar o círculo iniciado no primeiro episódio. No vagão do metrô, Darlene revela à Elliot que seu pai não o empurrou da janela e sim ele que pulou. A revelação deste fato da infância do personagem, que sempre foi o catalizador de todos os traumas e motivações do personagem, permite que a catarse ocorra e que o protagonista se liberte das amarras, ainda que esboce a possibilidade da existência de um trauma anterior ao incidente da janela.

Após a catarse, Elliot está pronto para ficar em paz com Mr.Robot, que reflete a mesma calmaria ainda que mantenha-se fiel ao seu propósito de desestabilizar o poder “daquele 1% dos 1% que brincam de Deus sem permissão”. Essa coexistência pacífica entre eles é potencializada após Elliot descobrir que Mr.Robot é o responsável por criptografar os dados que possibilitam a recuperação dos dados da E-Corp.

Ainda que a temporada acabe em um tom otimista, é uma incógnita o que se seguirá após Elliot ter pressionado ‘Enter’ e iniciado a restauração dos dados que reverteriam o atentado 5/9. Porém, nem tudo são flores para o protagonista. Como a cena pós-créditos nos mostra, Fernando Vera (Elliot Villar) está de volta e podemos seguramente dizer que ele não trás consigo bons presságios. A oportunidade para Elliot finalmente ter sua vingança contra o traficante é algo que surge no horizonte, assim como a certeza de que não será fácil para o criador Sam Esmail superar a qualidade desse terceiro ano.

Mr. Robot – 3X10: shutdown -r (EUA – 2017)

Showrunner: Sam Esmail
Diretor: Sam Esmail
Roteiro: Sam Esmail
Elenco: Rami Malek, Christian Slater, Portia Doubleday, Carly Chaikin, Martin Wallström, Michael Cristofer, Grace Gummer, Ben Rappaport, BD Wong
Duração: 49 min

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