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É fato que normalmente a sétima arte carrega essa característica de trazer poesia pela sua forma de contar uma história. O subjetivo se esconde e o que é visto a olho nu é construído pouco a pouco.  No longa Mulher do Pai não é diferente. A diretora Cristiane Oliveira soube trazer algumas questões presentes na vida, sociedade e país de uma forma sutil e certeira.

O enredo gira em torno de uma adolescente chamada Nalu que está descobrindo o mundo , seu corpo e cheia de dúvidas como todo jovem nessa faixa etária. Paralelamente a isso existe um pai com uma deficiência visual, Ruben reservado, machista e construído por um meio local interiorano gaúcho. Que é dependente de sua mãe  para qualquer atividade no dia a dia. O mundo deles recebe uma colisão quando a avó materna falece.

Cada  pessoa possui um modo de lidar com a perda de alguém. O luto na psicologia nada mais é que o período que a mente digere a perda de algo ou ser significativo em sua vida. Ruben lidou se fechando ainda mais.  A escuridão que antes vinha apenas dos seus olhos agora invadia todo seu interior. Sua filha lida de uma forma mais expressiva com sua dor. Porém nenhum dos dois sabe como seguir daqui pra frente e principalmente o que fazer sobre eles. Isso pela relação deles já ser mais distante. Notarialmente percebe-se isso numa cena em que Ruben se coloca de um lado de uma parede e sua filha de outro. Uma porta aberta onde é possível ver um corredor. Simbolizando esse conflito de diálogo entre os dois e um caminho a ser percorrido para que isso seja possível.

Em dado momento uma uruguaia entra em suas vidas e traz novos ventos. Primeiramente porque ela traz um questionamento a jovem sobre ter uma vida diferente da de seguir os mesmos caminhos da família na tecelaria sem grandes estudos. Ela começa a abrir mais os olhos de Nalu. Ela vai funcionar também como uma figura materna já que a mão biológica da garota  era falecida.  Outro ponto do roteiro interessante é a forma que se fala sobre a arte de moldar argila e colocar nela seus sentimentos. O resultado é algo abstrato e uma bela alusão para dizer que sentimentos , as sensações que estes trazem são invisíveis e se fossem representadas não teriam um tipo exato de caracterização física.

A fotografia de Mulher do Pai é bela. Traz uma sensação de calma e também de sufoco ao representar como é viver numa pacífica cidade de  interior  que vive perante a cultura de gado. E a trilha sonora casa perfeitamente com esta ideia. Em alguns momentos se tendo apenas o som ambiente. Somente em dado momento é inserida de forma mais impactante e totalmente contrastante com a realidade apresentada  uma música pertencente ao funk. Aquele funk ecoando traz um dinamismo que o exterior não traz e também reflete um desejo da protagonista: ser livre, independente  e conhecer o mundo.

Outro destaque do longo de Cristiane é a atuação de Maria Galant, Marart Descartes e Veronica Perrota. Uma  jovem atriz com seu primeiro longa, um ator com diversos trabalhos em diferentes segmentos e uma urugaia que não falava português são circunstâncias chamativas. Galant conseguiu trazer aquela figura típica de adolescente e de uma forma delicada. Descartes teve um preparo anteriormente para seu papel e conseguiu trazer aos olhos do público um homem cego de fato. E nesse quesito vale a pena comentar sobre uma cena simples, porém singela. Quando Ruben pede pra sua filha descrever um filme que passava na televisão. Nele se pode ver aquela aproximação entre pai e filha e  a questão da  perda da visão. Por fim Perrota conseguiu trazer uma urugaya já inserida na cultura brasileira, mas com seu sotaque forte ainda presente.

Mulher do Pai é um filme que certamente vale a pena conferir do cinema brasileiro. No entanto poderia ter explorado mais as questões que se propôs colocar no filme. Mas é uma obra poética que merece uma chance.  É preciso ter paciência com o filme, pois este possui uma narrativa mais parada. Entretanto ao meio dela se encontra uma série de fatores que a movimentam intensamente de forma subjetiva.

Mulher do Pai (Idem, Brasil – 2017)

Direção: Cristiane Oliveira
Elenco: Maria Galant, Marat Descartes, Veronica Perrotta
Gênero: Drama

Duração: 94 min

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