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A criação da heroína feminina mais icônica da história do entretenimento já renderia uma ótima história por si só. Na época de febre das revistas em quadrinhos na década de 1930, a hegemonia masculina com heróis que transitavam entre historinhas pulp até outras mais audaciosas e violentas era absoluta.

Com a consolidação rápida do formato, outros heróis icônicos surgiram como o Superman e o Batman. Mas não levou muito tempo para que Diana Prince tivesse sua primeira aparição em 1941. Através de um artigo científico no qual defendia veementemente o potencial educativo da nona arte, William Moulton Marston foi convidado para participar das editoras que dariam origem a DC como consultor educacional.

Sentindo que as histórias da editora precisavam de algo a mais, Gaines pediu para que Marston surgisse com uma ideia brilhante o mais rápido possível. Ideia essa que ele retirou de seu próprio ambiente familiar. A ideia inicial era fazer um herói movido apenas por amor e forte índole de justiça, na qual a paz deveria ser seu objetivo principal, mas nunca a guerra.

Lindo, né? Assim pensou Marston ao bater um papo com uma de suas duas esposas, Elizabeth Marston que apenas respondeu, imagino: “Legal, fera, mas dessa vez faça um herói que seja uma mulher”. Dito e feito, as palavras de srta. Marston tomaram forma como a ilustre Mulher-Maravilha que já preservava bastante da verve da energética esposa do criador.

Preservando muito do cotidiano do psicólogo e seus ideais como o feminismo e o apoio pelo sufrágio (direito ao voto feminino), Diana Prince figurou em All Star Comics até ganhar sua própria e bem aceita revista em 1942. O autor colocou até mesmo referências de sua própria carreira em sua personagem como o polígrafo – detector de mentiras que ele havia inventado antes da Mulher-Maravilha. O instrumento foi simbolizado através do Laço da Verdade que confere uma das principais buscas de Diana em suas jornadas.

75 anos depois

Diana Prince sofreu alterações diversas e significativas indo de secretária da Liga da Justiça até virar um dos pilares da santíssima Trindade da DC durante sua trajetória até se tornar o ícone feminino da DC. Mas, apesar de tudo, de toda sua participação e importância na história da editora, só viemos ter um filme dedicado à heroína agora em 2017.

E em momento mais oportuno possível. Com o universo cinematográfico da DC tomando tanta surra por parte da crítica (da qual discordo na maioria dos casos), a Warner precisava de um respiro, uma ponta de esperança. Como se fosse predestinado, quem salvou a reputação da DC nos cinemas foi ninguém menos que benevolente heroína.

A abordagem desse Mulher-Maravilha é consideravelmente distinta das propostas de construção de universo como os outros filmes tinham foco. Aqui, a história de Zack Snyder, Allan Heinberg e Jason Fuchs é focada inteiramente em Diana Prince e somente ela. Tanto que a escolha de storytelling é fundamentada em um enorme flashback – um grande respiro entre BvS e Liga da Justiça.

Então, claramente temos uma bela freada no ritmo que a Snyder e a DC estavam impondo nos filmes. Em comparação aos outros, M-M é uma narrativa muito mais segura que opta por não escolher muitos riscos, mas que possui grande força por conta da proposta de encaixar um super-herói nos últimos dias da Primeira Guerra Mundial.

No começo, havia apenas Diana

Como dito, o texto de Mulher-Maravilha se vale do bâ-á-bá mais clássico da narrativa de origem com quase todos os apetrechos que uma história de jornada do herói necessita. Heinberg levou isso bastante à sério por oferecer ao público pequenos panoramas sobre quem Diana é em vez de mostrar o que ela é.

Tão logo acompanhamos sua infância, somos estabelecidos aos conflitos internos de Themyscira e no principal desse núcleo significativo: predestinação vs. preservação. A personagem é imbuída com muita personalidade que facilmente gera empatia com qualquer espectador – por mais apático que ele seja. Em sua infância, o senso de dever e vontade de guerrear é quase que inerente a sua própria existência, mas a rainha Hipólita, sua mãe, impede a pequena de treinar junto com as outras amazonas.

Esse é apenas um dos muitos clichês pautados em Mulher-Maravilha, mas, felizmente, não chegam a incomodar, pois ajudam a contar uma boa história com diferentes nuances nesses pequenos conflitos. Logo, assim que Hipólita aceita o treinamento de Diana com sua tia, as coisas ficam mais interessantes, pois há a retirada da protagonista de sua zona de conforto.

O primeiro ato inteiro se preocupa em estabelecer, com alguma justificativa, o ostracismo que as Amazonas impõem sobre sua própria sociedade. Temas como escravidão, guerra e morte, surgem, mas nunca são devidamente explorados. Sentimos que há muita história por trás do rancor de Hipólita com o mundo dos homens, mas pela escolha dos roteiristas acabamos perdendo maior densidade desse conflito o que tornaria a ruptura da relação entre Diana e ela consideravelmente mais poderosa.

A normalidade é quebrada pela vinda de Steve Trevor – Chris Pine sustenta o personagem com extremo carisma, até a Ilha Paraíso ao fugir do exército alemão. Esse é o tão aguardado despertar do filme com Diana entrando em confronto real pela primeira vez na vida, além do choque tremendo com a morte de amazonas e de Antiope. Veja bem, as principais alegorias desses primeiros atos são as muitas perdas de virgindade que Diana enfrentará ao longo do filme.

Seu heroísmo e força de vontade se chocam diante da sua impotência em combater um mal invisível e imprevisível: a violência que destrói tudo pelo caminho. Ou seja, a presença de Ares sempre cerca sua jornada tentando corrompê-la desde o início. Diana vem como um poço de moralidade, pois ela quebra as ordens estabelecidas tanto em Themyscira quanto fora da Ilha, algo que é definido sempre por suas ações. Nisso, realmente dou os parabéns para o time de roteiristas que conseguiram colocar traços importantes em Diana sem recorrer tanto a exposição dos diálogos – mesmo que haja um grande excesso disso no filme.

Diana vai à cidade grande

O final do primeiro ato certamente não surpreende ninguém, mas os roteiristas tomam decisões interessantes sobre como abordar os personagens secundários. Como muito da protagonista é explorado através do seu contato com o mundo exterior e suas reações a ele, facilmente poderíamos ter uma história de um personagem só.

Ao contrário de muitos filmes Marvel, as obras da DC conseguem sustentar os coadjuvantes de tal forma que é possível sentir certa complexidade ou presença mais significativa em cena. Logo, quando algo acontece afetando esses personagens, o mesmo acontece conosco. Apesar do rol de amazonas ser abandonado pelo filme – um belo equívoco, aliás – tão logo chegamos à Londres que a narrativa sofre outra transformação mostrando personagens mais interessantes como Etta Candy.

Mesmo com uma performance divertida de Lucy Davis e diálogos que propiciam desejos próprios para Etta como o direito ao voto e poder de compra. Porém, assim como todos os coadjuvantes, ela está ali para servir de contraponto à Diana para os roteiristas continuarem trabalhando na personalidade da heroína.

Conflitos de ideias e trocas culturais dominam os primeiros diálogos dela com Steve em cenas até mais longa do que o necessário. Esse é um ponto que me desagradou, de certa forma. Em praticamente todas as vezes que há a exposição desse choque, há a inserção de alguma piadinha. Por mais que as piadas sejam boas e inspiradas, senti que algumas vezes elas tiravam espaço de cenas que poderiam ter explorado um pouco mais a relação de Steve com Diana. Desse modo, o desenvolvendo.

Querendo ou não, Steve Trevor é um bom personagem que é sustentado apenas pelo grande carisma e timing de Chris Pine, pois o roteiro não se preocupa em lhe oferecer camadas reais. Mas retomando à reflexão acerca da narrativa, o segundo ato de Mulher-Maravilha se vale do clichê do personagem que se maravilha com todas as novidades ao seu redor.

Novamente, não vejo problema, pois essa passagem à la Crocodilo Dundee/Enrolados é vital para o espectador perceber que a Ilha Paraíso se comportava mais como uma castração das vontades de Diana do que uma bolha de proteção – outro bom apontamento que fica, felizmente, fora da esfera da exposição dos diálogos.

Para não ser injusto, é justamente nesse miolo que ocorre o paralelismo que aproximam Diana e Steve. Enquanto na Ilha Paraíso, Diana sofria diversas proibições de sua mãe, mas burlava todas elas. O mesmo acontece com Steve ao se reportar para os generais em Londres sobre as últimas descobertas que podiam levar à Tiplíce Aliança a vencer a guerra em uma inesperada reviravolta.

Esse bom conflito tem muito mais propósito do que apenas mostrar para o espectador semelhanças entre os heróis da jornada. Ali é um ponto de virada importante para que Diana veja que Steve não é um “homem mediano”, comum, como vinha o chamando até então, pois o sargento decide desobedecer as ordens de seus superiores e seguir a missão por conta própria.

Nisso, finalmente temos o fim do deslumbramento de Diana com o novo mundo. Ela passa a descobrir a zona cinza e os horrores proporcionados pela Guerra, por Ares. As transformações que a protagonista sofre aqui ainda não são suficientes para tirar a imaturidade e ingenuidade da semideusa, mas as coisas começam a mudar no terceiro ato – divido a narrativa de Mulher-Maravilha em cinco atos.

Diana vai à Guerra

O terceiro ato, sem sombra de dúvidas, é perfeito. É o ponto mais alto do filme e só merece elogios. É aqui que a DC se distingue da Marvel significativamente e resgata as ousadias de outrora. A narrativa permanece na linha clássica óbvia, mas o crescimento da protagonista como personagem é soberbo.

Primeiro que finalmente há a confirmação plena de Diana como uma força de amor divina de consolação ao homem. Com a chegada dos Losers, personagens simples, mas muito carismáticos, a heroína percebe o quão diferente é o ponto de vista de cada um, dos desejos daqueles homens e seus maiores medos. Samir, Charlie e Chefe funcionam dessa forma representando o sonho e paixão, o medo e a bravura e as consequências de um conflito bélico e da religiosidade, respectivamente.

São ideias simples, mas bem transpostas nos personagens que cumprem sua função primária: ajudar a desenvolver uma nova visão de mundo em Diana. Sua ingenuidade é confrontada novamente pelo horror e a impotência. Apesar de restrito, é interessante notar como os personagens a desencorajam a tentar salvar o mundo, pois é impossível salvar a todos como Diana quer.

É justamente por esse discurso constante da inaptidão, medo e falta de compaixão que a cena na qual Diana Prince se transforma em Mulher-Maravilha é absurda de tão poderosa. Desde já, a entrada da heroína na Terra de Ninguém é uma das melhores coisas que o cinema americano nos proporcionou neste ano. É um momento catártico em três pontas: a nossa como espectadores, a dela como heroína e a dos soldados que, guiados por ela, batalham novamente pela liberdade e fim da tirania. É sensacional.

Porém, findado o belíssimo terceiro ato com o beijo na calada da noite, o roteiro de Mulher-Maravilha começa a degringolar para territórios muito mais burocráticos e errôneos, apesar de alguns bons acertos que sustentam o desenvolvimento pleno da personagem.

Os problemas de uma batalha

Enquanto cometia apenas erros de falta de capricho como muita exposição para deixar claro ao espectador a posição de cada personagem na história e outros conflitos clichês perdoáveis, Mulher-Maravilha realmente é excelente. Mas a coisa desanda bem rápido depois da libertação da cidadezinha.

Apesar de possuir uma das viradas mais potentes da narrativa ao frustrar Diana com a destruição do vilarejo recém-salvo, a narrativa usa e abusa de conveniências absurdas na passagem extremamente redundante da festa de Ludendorff. O plano por si já é bastante furado e absurdo com chances impossíveis de sucesso, a exposição da motivação de Ludendorff que almeja se distinguir dos demais homens através do poder da vitória recai em mais um clichê, além da conclusão dessa sequência ser estupidamente apressada. Acaba comprovando como se trata de um apêndice muitíssimo equivocado, já que era possível seguir a história sem a necessidade de um ato inteiro para isso.

No ato final, as coisas melhoram um pouco, mas nunca chegam perto da eficiência da primeira metade do filme. Novamente, há o uso de mais conveniências e Diana ainda tarda em entender do que se trata verdadeiramente de uma guerra. Ela não leva em conta a vontade de cada homem – após a destruição de Ares, há essa contradição, pois os soldados alemães agem como se tivessem sido libertos de um feitiço poderoso.

Já sobre a revelação de Ares, é no mínimo preciso dizer que se trata de algo bastante interessante e surpreendente. Até mesmo sua motivação é genuína e forte, além das suas ações de manipulação se assimilarem com as do Diabo preservando essa essência bíblica cristã que os novos filmes da DC possuem até agora. A tática da sedução em vez de partir para a porrada diretamente suscita mais personalidade ao vilão que só sofre por conta de muita verborragia durante o conflito, conveniências em esperar Diana fazer outras coisas e do curto tempo de tela.

Essa conveniência que mencionei é ligada ao sacrifício de Steve Trevor que consegue engrandecer o personagem se o contrastarmos com Ludendorff e suas pretensões de ser mais do que um homem comum – infelizmente, a péssima ideia do gás do “superpoder” que o general ingere é uma dessas piscadas burras do roteirista para a plateia na tentativa pífia de nos induzir ao erro.

Após um explosivo clímax com a batalha dos deuses, é decepcionante notar como Mulher-Maravilha se apressa muito para acabar. Suas pontas não se fecham, não retornamos para a Ilha Paraíso, não sabemos as consequências dos atos de Diana sobre o mundo e, principalmente, não há o menor embasamento para àquela Mulher-Maravilha bastante ressentida que encontramos em Batman vs Superman – tudo bem que é especulado que o segundo filme solo da personagem se passe antes de O Homem de Aço.

Mas antes de encerrar esses comentários sobre o roteiro, gostaria de falar um pouco da dupla de antagonistas humanos. Ludendorff e Dra. Veneno tem sim suas parcelas de culpa tanto em prejudicar quanto para beneficiar o filme. Ambos são consideravelmente caricatos e relembram um pouco todo o exagero dos vilões da Era de Ouro dos quadrinhos, mas em termos de organicidade no plano do filme, bom, não são lá excepcionalmente memoráveis.

Ludendorff só funciona (em aspirações maiores) se colocarmos em contraste com Steve como já exploramos em outro ponto, mas Dra. Maru já possui realces mais interessantes. É muito implícito que sua motivação para a busca do gás mostarda potencializado é ligada diretamente a um desejo romântico com Ludendorff – o diálogo com Steve durante o baile menciona bastante essa “lealdade” da vilã com o general.

Mas Maru não é apenas a vilã psicopata que age por um amor insano. As coisas tomam outra figura quando a comparamos com Diana e vemos como a protagonista já é anos à frente de seu tempo mesmo após o isolamento de Themyscira. Dra. Veneno é o contraponto perfeito à Diana por ser uma mulher covarde, traiçoeira, assassina e submissa que se dispôs a atender os desejos de seu homem a tal ponto que acabou com o rosto mutilado – um símbolo de vergonha que ela esconde com as próteses. Em vez de se tornar um símbolo feminino na ciência e ter peso histórico na História, Maru se contenta em usar seus dons para atender os desejos ególatras de um homem.

Portanto, Dra. Veneno é um retrato de submissão enquanto Diana é a face da libertação, autoafirmação e do amor (é brega, eu sei, mas é o discurso principal do filme). Aliás, essa interpretação é bem fundamentada pela imagem quando Diana consegue se libertar da fúria cega e se nega a esmagar Maru com um tanque de guerra – como fica claro, ela é melhor do que a química em todos os sentidos.

A Capitã

Para dirigir Mulher-Maravilha seria muitíssimo coerente que o nome fosse de uma mulher. Felizmente, o óbvio foi o caminho escolhido pela Warner e, apesar de não ter sido a primeira opção escolhida, Patty Jenkins traz um de seus melhores trabalhos conseguindo até mesmo manter momentos repletos de poesia visual e delicadeza feminina.

Não é preciso esperar muito para que Jenkins mostre a que veio. Dos três diretores do DCEU até agora, ela é a mais atenta aos detalhes em termos de imersão visual. Basta sentir o impacto visual que Themyscira causa em questão de segundos. Mesmo com os malditos óculos 3D, conseguimos ver a riqueza de cores mais saturadas inspiradas no contraste divino entre azul e dourado, além de toda a organicidade da sociedade de amazonas.

O espetáculo do treinamento acrobático das guerreiras é capturado com diversos focos em slow motion – uma técnica que Jenkins usa recorrentemente, mas em bons momentos. Outro bom detalhe de valorização de produção é a enorme quantia de planos abertos que a diretora opta para nos mostrar toda aquela onipotência da Ilha Paraíso.

Essa assinatura grandiosa marca todo o filme que aparenta ser mais caro do que é – o orçamento é estimado em 150 milhões. Em Londres e no restante das locações, sempre há essa demarcação importante de um mundo vivo mesmo que esteja desolado e deprimido. Isso ajuda a conferir uma credibilidade de cena impressionante. Tudo parece vivo e independente. Realmente parece que o mundo está em guerra, com medo, sujo e acovardado.

A diretora sempre frisa Diana no quadro a separando da opacidade cinzenta de Londres sempre com algum recurso visual: seja pela ação, seja por uma gag, seja pelas cores de seu traje de guerra. Diana não pertence àquele lugar, mas, consequentemente, se tornará parte dele.

Em termos de ação, apesar do uso muito intenso de CGI ruim (se o espectador reparar nas expressões visuais das amazonas em algumas acrobacias, não conseguirá conter o riso), a diretora dá show. Sim, em alguns momentos há aquele excesso de cortes irritantes, mas na maioria das vezes Jenkins deixa a ação desenvolver-se organicamente. Vemos isso em diversos momentos na batalha da praia e na libertação da cidadezinha na qual temos um majestoso plano que captura com perfeição as manobras de Diana com o laço da verdade lutando ao lado de Steve.

Outro detalhe que me chamou muito a atenção no trabalho de Jenkins é o didatismo de sua câmera. Snyder não chega a ser tão clássico como a diretora é para a decupagem e transmissão da mensagem, mas isso talvez seja um acerto da mulher já que o filme não possui a menor reclamação de ser confuso ou atropelado.

Essa questão da didática é visível no longa inteiro que é sim didático em diversas pontas. Não tem a ver com Jenkins mostrar a ação em inúmeros pontos de vista, mas sim o modo que ela grava a história do filme. Em momentos-chave de drama, repare como os planos serão muito aproximados no sujeito e predicado da ação, além de receberem slow motion e efeito de isolamento acústico ou de dilatação sonora. Isso sempre acontece durante uma falha de Diana ou algo que a impacta além da conta: a morte de Hipólita, a morte de Steve, a revelação de Ares, etc.

Com essas interrupções de ação, Jenkins esfrega na cara do espectador o que aconteceu ali. Sempre dimensionando o ato, conferindo gravidade para o acontecimento como se deve. É uma técnica bastante antiga, praticamente oriunda do cinema silencioso que se popularizou muito em telenovelas até hoje. E, ainda assim, está provando sua eficiência em Mulher-Maravilha. O que quero dizer é: Jenkins não abre mão da mensagem ao deixá-la “no ar”. Ela vai fazer você ver do modo mais explícito possível – herança de Monster, trabalho anterior da diretora.

É algo que respeito profundamente, pois Jenkins não sente a necessidade de quebrar a tensão todo momento com piadas estúpidas como outros filmes de herói constantemente fazem. Apesar de ser um longa que aposta imensamente na margem de segurança, Mulher-Maravilha tem a coragem de contar uma história de modo clássico e apropriado. Impressionante eu ter que parabenizar um filme por um requisito que deveria ser obrigatório.

A atenção à paleta de cores é algo a ser elogiado igualmente. Jenkins e o fotógrafo Matthew Jensen se preocupam em evoluir Diana conforme o trabalho de cor avança. No começo, o poderoso contraste dourado/azul elabora o tom angelical, divino, seguro e inocente que a protagonista vive.

Mas basta a noite da viagem ser quebrada pelo despertar em Londres que o cinza opaco domina na tela, mas com ápices de tons amarelados como durante na cena da compra de roupas. É um indicativo de amadurecimento, mas não pleno. A partir disso, as cores se aprofundam no cinza até explodir no vermelho que engole tudo no clímax. O amadurecimento, o chamado coming of age, explode. Diana descobre sua identidade e seu poder evocando paixão e ira até a serenidade dos tons alaranjados que fecham o filme. Um calor próprio, vivo e imortal.

A própria fotografia de Jensen merece elogios à parte além da atenção às cores. O diretor de foto trabalha vividamente com iluminação barroca em diversos segmentos da obra que sempre conferem um look romântico e místico para os encontros noturnos de Diana e Steve. Aliás, é justamente na cena do primeiro beijo de Diana que sentimos a diferença entre ter uma diretorA em vez de um diretor.

Jenkins aproxima o momento com tanta delicadeza, com pouca luz e apenas com som ambiente. Uma encenação concentrada no olhar e no não dito. É sutil, apaixonado e romântico. A câmera apenas se aproxima timidamente em um movimento simples aguardando o corte. Quer provas de como é diferente? Bom, pegue qualquer Transformers ou blockbuster do gênero. A abordagem é sempre a mesma: a câmera explode envolvendo os apaixonados em uma poderosa rotação de 360 graus, com contraluz intensa acompanhada de trilha musical elevada. É a tal “pegada”…

É evidente que também não poderia encerrar os comentários sobre sua direção sem mencionar o fantástico primeiro momento da Terra de Ninguém. Jenkins transforma uma cena que poderia ser trivial em uma das melhores coisas que esse gênero teve o prazer de ver até agora. A transformação de Diana Prince é pontuada por um nada convencional slow motion. Não a vemos colocar a tiara em sua cabeça. A dilatação do momento é justificada pela revelação do traje de guerra. A ênfase continua sustentada pela câmera lenta com a heroína subindo no campo de batalha.

A bala indo até o encontro ao bracelete, os socos que defletem as balas, a correria, o foco nos soldados alemães incrédulos, a vontade dos soldados aliados em partir para o front, o crescente do alvejar das balas que a obrigam manipular o escudo até ser freada, a ascensão dos homens que abraçam à glória abandonando a mortandade pútrida das trincheiras até ajudá-la a superar a Terra de Ninguém. Todos esses detalhes são acobertados pela decupagem nada menos que magistral da diretora que marca o ápice do seu trabalho autoral na sequência.

Aliás, há outros pequenos momentos valiosos da direção de Jenkins que merecem ser igualmente ressaltados. A morte de Steve, com um longo plano que contemplamos um olhar satisfeito que apenas imagina o quão mágica seria a vida com Diana, sobre um tempo que nunca será. E, depois, em uma rima maravilhosa, com Diana acariciando o relógio do amado, lamentando o tempo que nunca foi. São boas imagens que demonstram tremenda humanidade e vida para o trágico casal. Jenkins faz com facilidade algo que é super difícil: se comunicar artisticamente com o espectador a ponto de envolvê-lo nas emoções dos personagens. 

Também levo em conta o bom trabalho com a direção de atores. Apesar de ter um evidente descompasso irritante com sotaques entre o elenco inteiro – principalmente com Gal Gadot, a diretora sabe dosar e aproveitar bem o talento dos atores que entregam sim boas performances. Gal Gadot é muito carismática e mesmo que seja bem medíocre em momentos mais dramáticos, esbanja poder e firmeza nos Money shots tão imprescindíveis para essas obras.

A Fé

Assim como tinha feito em Batman vs Superman, me reservo ao direito de analisar as contínuas simbologias cristãs que Snyder insere nessas obras desde O Homem de Aço. Caso ache irrelevante ou não goste do tema, o convido para pular para a conclusão do texto.

Como havia apontado, Diana é a representação do Espírito Santo nesse universo. Ela mesmo já existe antes de Jesus Cristo (Superman), assim como o Espírito na Bíblia. Aqui, um grande discurso presente é mostrar que Jesus Cristo e Espírito Santa tratam-se, essencialmente, da mesma coisa.

A encenação que Jenkins constrói diversas vezes remete Diana à figura de Jesus Cristo. A primeira delas é tomar a visão subjetiva de Steve enquanto ele se afoga no mar. Assim como ele, nós a vemos como se andasse sobre as águas, pairando como um anjo emoldurado pela contraluz. Já no final, quando enfim Diana se prepara para matar Ares, temos uma pose similar à do Cristo crucificado. Diana limpa o mal do mundo, redimindo assim os pecados da humanidade.

Enquanto Superman/Jesus tem envolvimento com humanos, Diana/Espírito Santo era preservada da humanidade. Outra boa indicação disso é a cena na qual a heroína deixa claro que fala todos os idiomas – dom que alguns apóstolos recebem ao serem tocados pelo Espírito Santo em Pentecostes. Diversos conflitos sobre moralidade e heroísmo entre Steve e Diana também caem na natureza do homem não conseguir compreender as ações de Deus.

E a principal delas: o amor. Diana, assim como o Espírito Santo, deixa claro que possui sentimentos pesarosos pela dor da humanidade, ela se emociona com o que temos para oferecer. O dom do amor e a escolha nessa crença a tornam a verdadeira representação do Espírito Santo na obra.

Também é bastante óbvia a representação do Diabo em Ares. Um agente das sombras, manipulador e cínico que se redime de culpa a todo momento. Assim como o Diabo tenta seduzir Jesus, o mesmo acontece no primeiro diálogo com Diana e Ares. Àqueles sob sua influência tornam-se os malfeitores completos, possuídos. E justamente por isso, o diálogo piegas que Diana proclama antes de matar Ludendorff tem ares carregados de um monólogo exorcista.

Em sua relação com Ares ela o chama de irmão se dirigir a ele, remetendo a divindade que ambos possuem, sendo que Ares como representação de Lúcifer é um ser que como todos os anjos partilha da essência de Deus, bem como o ES. Daí essa noção de irmandade entre eles.

A Primeira Paixão de Diana Prince

Mulher-Maravilha é um arrasa quarteirão que ronda nas rotas da segurança. O respiro necessário provou-se um verdadeiro acerto da DC, assim como a indicação de Patty Jenkins na direção cujo trabalho só reservo elogios, pois se trata de uma competência verdadeiramente completa. Apesar do roteiro não surpreender muito e trilhar caminhos tortos nos últimos atos pouco caprichados, a história de Diana Prince não poderia ser melhor ilustrada no cinema. São problemas pequenos demais para uma obra tão completa.

Uma história fantástica de autodescobrimento embalada com tudo que um blockbusters precisa e muito mais. Esse “mais” dedico para a surpreendente trilha musical de Rupert Gregson-Williams que consegue fugir da obviedade em diversas faixas, além de raramente apostar no uso da já consagrada música tema.

Assim quase como no filme, Diana Prince demorou 75 anos para aparecer no mundo dos cinemas. Uma espera que foi recompensada com muito estilo, graça, poder e, principalmente, heroísmo. A era dos deuses da DC finalmente começa. Que assim permaneça por um bom tempo.

Mulher-Maravilha (Wonder Woman, EUA – 2017)

Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg, argumento de Jason Fuchs, Zack Snyder e Geoff Johns
Elenco: Gal Gadot, David Thewlis, Connie Nielsen, Robin Wright, David Thewlis, Danny Houston, Elena Anaya, Lucy Davis, Ewen Bremer, Doutzen Kroes, Saïd Taghmaoui, Eleanor Matsuura, Mayling Ng, Samantha Jo, Eugene Brave Rock
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 141 min

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