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O caminho do universo cinematográfico da DC foi turbulento, para dizer o mínimo. 2016 trouxe um verdadeiro pesadelo para a Warner Bros quando Batman vs Supernan: A Origem da Justiça e Esquadrão Suicida foram trucidados pela crítica especializada, e arrecadaram menos do o esperado – atrasando também  o desenvolvimento da empresa e o rumo das narrativas, deixando-os ainda mais confusos na intenção de montar sua Liga da Justiça e estabelecer uma franquia equiparável à concorrente Marvel Studios.

Com os dois soldados abatidos, todos os olhos viraram-se para o próximo lançamento da DC: Mulher-Maravilha, a primeira vez que a maior super-heroína de todos os tempos ganharia sua estreia nas telonas. Não é apenas uma chance crucial para salvar a reputação da editora nos cinemas, mas também para um importante símbolo de representatividade no cinema de ação, cada vez mais marcado pela presença feminina. Felizmente, o longa de Patty Jenkins é bem sucedido em ambas as suas propostas, e garante o maior acerto da nova fase da DC nos cinemas.

A trama nos leva às origens de Diana Prince (Gal Gadot), nascida como uma Amazona na mítica Ilha de Temiscira, ligada à mitologia de Zeus e vivendo isolada do mundo dos mortais. Quando o piloto Steve Trevor (Chris Pine), acaba invadindo seu paraíso ao fugir de soldados alemães durante a Primeira Guerra Mundial. Recebendo a ajuda da princesa amazona, os dois partem para a frente de batalha, onde Diana desconfia da influência de Ares, o Deus da Guerra, como causa central do conflito entre os homens.

Se fossemos estabelecer uma comparação, este Mulher-Maravilha é um misto entre Thor e Capitão América: O Primeiro Vingador, ao trazer a abordagem cômica à mitologia do primeiro e o contexto da Guerra Mundial do segundo. Porém, Patty Jenkins consegue alcançar um resultado superior a esses dois filmes da Marvel, contando a boa e velha história de origem de super-herói, em um longa divertido e aventuresco na linha de um Indiana Jones. É um equilíbrio muito eficiente entre humor e drama, com o arco de Diana sofrendo drásticas transformações ao ter seu ponto de vista de encontro com a realidade sombria do século XX: a protagonista é ingênua e otimista durante o primeiro ato, e esse desenvolvimento cru é um dos grandes acertos do roteiro de Allan Heinberg – que partiu do argumento em conjunto de Zack Snyder, Geoff Johns e Jason Fuchs.

É um filme mais leve e descontraído do que os antecessores, preocupados demais com os aspectos sombrios e soturnos de seus personagens, ou na tentativa de torná-los engraçadinhos demais (Esquadrão, sim), e o grande adjetivo para Mulher-Maravilha é equilíbrio. Com começo, meio e fim, o filme traça uma história simples e que se resolve bem ao longo de seus 141 minutos, trazendo uma estrutura e coerência que os dois antecessores peneram para alcançar – é bem claro que a montagem do filme é eficiente o bastante para cuidar de uma trama totalmente linear. Há muito do Superman de Richard Donner aqui, na forma com que lida com os elementos fantásticos e também pela performance de sua protagonista – que até usa um traje “civil” similar ao de Christopher Reeves.

O que nos leva à Gal Gadot, que surpreende em seu primeiríssimo papel como protagonista. Confesso que eu mesmo tive minhas dúvidas quanto a capacidade da atriz em liderar um longa desse tamanho, mas fiquei aliviado em testemunhar seu imenso carisma e expressividade de nas diferentes facetas que o papel exige. Gadot varia do cômico para o confuso e curioso com incrível naturalidade, sendo auxiliada também por sua beleza exótica espetacular e toda a fisicalidade durante as cenas de luta. Por fim, a atriz também convence durante as cenas mais dramáticas, fruto de uma explosiva química com o ótimo Chris Pine, que torna a relação dos dois um dos elementos mais interessantes e fortes em uma produção do gênero até agora – em outras palavras, nada descartável ou genérico como os arcos de Natalie Portman ou Rachel McAdams em produções da Marvel, por exemplo.

Com uma atriz carismática segurando perfeitamente o protagonismo, eis que temos a entrada de Patty Jenkins no universo da DC, uma das poucas mulheres a embarcar no gênero de super-herói na função de direção, e o resultado não poderia ser mais satisfatório. Jenkins estabelece um universo coeso e colorido, com as imagens embasbacantes da ilha paradisíaca oferecendo um contraste gritante como uma Londres toda cinzenta e preenchida pela névoa e fumaça das indústrias, já trazendo um bom paralelo para a jornada de Diana em um trabalho muito competente do diretor de fotografia Matthew Jensen. E nunca pensei que fosse dizer isso de um filme da DC, mas o 3D realmente funciona e oferece certa profundidade à maioria das cenas com planos abertos.

Quando as cenas de ação começam, Jenkins surpreende ao trazer lutas excepcionalmente bem coreografadas e filmadas, com uma mise em scéne simples, mas que explora com perfeição os movimentos da protagonista e também das demais guerreiras amazonas. Há, sim, um excesso de slow motion em diversas cenas – uma herança de Zack Snyder, provavelmente – mas admito que o efeito é usado pontualmente para ressaltar alguns golpes realmente memoráveis. Só a imagem da Mulher-Maravilha defletindo balas em plena Terra de Ninguém do campo de batalha é o suficiente para impressionar, mas também fiquei surpreso com a criatividade no uso do Laço da Verdade como uma verdadeira arma de guerra ou a batalha entre as Amazonas a cavalos contra alguns soldados alemães na praia – incluindo um genial foreshadowing para uma ação que ocorreria em outra batalha, e tudo só melhora quando o compositor Rupert Gregson-Williams traz de volta o magistral tema em violoncelo elétrico de Hans Zimmer para a personagem, dosando-o sabiamente nos momentos certos.

Claro, não é um filme perfeito. Ironicamente, a DC que sempre beneficiou-se de ter a melhor galeria de vilões dos quadrinhos acaba patinando justmanete nesse quesito aqui. Marcados principalmente pelas figuras de um general alemão (Danny Houston) e uma química maligna (Elena Anaya), o núcleo antagonista é de longe o mais fraco do filme, mas ambos os intérpretes parecem ter ciência do aspecto cartunesco de seus personagens – diversas vezes os vemos trocando risadas maléficas ou exagerando no sotaque carregado, enquanto outros antagonistas menores exibem características físicas nada sutis, como um marcante bigode que parece ter saído de um desenho da Hanna-Barbera ou algo similar aos vilões de Caçadores da Arca Perdida.

Quando chegamos no grande Ares, a situação melhora, especialmente pela natureza de sua revelação e o interessante discurso sobre a natureza da maldade no Homem, que rende um honesto diálogo onde Steve Trevor explica para Diana que os humanos não preicsam ser ruins apenas por causa de uma interferência mitológica, mas que seria algo enraizado a eles mesmos. Uma linha narrativa muito fascinante, mas infelizmente o embate entre o Deus da Guerra e Diana acaba prejudicado pelo excesso de CGI. Porém, é algo muito melhor do que as porcarias de Doomsday em BvS e… Aquele irmão esquisito da Magia em Esquadrão Suicida, e que também compensa pela bela catarse da protagonista ao final do conflito.

No fim, Mulher-Maravilha é o primeiro grande acerto do universo DC nos cinemas. Oferece um longa mais amarrado e coeso do que seus antecessores, além de trazer o perfeito equilíbrio de humor, heroísmo e todos os temas dramáticos que os heróis da editora carregam consigo. Nas mãos de Gal Gadot e Patty Jenkins, o futuro do gênero nunca pareceu tão promissor.

Mulher-Maravilha (Wonder Woman, EUA – 2017)

Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg, argumento de Jason Fuchs, Zack Snyder e Geoff Johns
Elenco: Gal Gadot, David Thewlis, Connie Nielsen, Robin Wright, David Thewlis, Danny Houston, Elena Anaya, Lucy Davis, Ewen Bremer, Doutzen Kroes, Saïd Taghmaoui, Eleanor Matsuura, Mayling Ng, Samantha Jo, Eugene Brave Rock
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 141 min

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