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O terror só é eficiente quando arranca, de modo impiedoso, a força contagiante da alegria a transformando em trevas, desolação e desesperança. Não se trata apenas da ficção, das boas obras que conseguem arrepiar seus fios de cabelo, mas principalmente da realidade. A força de vontade para trazer o caos é poderosa e, ainda mais, quando se trata de enviar uma mensagem.

Grandes eventos que aglomeram pessoas são alvos fáceis e muito vulneráveis à ataques terroristas. Eventos históricos de suma importância chamam ainda mais a atenção. Apesar das táticas de guerrilha e alguns ataques terroristas acontecerem com alguma frequência nos anos 1970, poucos poderiam prever que o Massacre de Munique ocorreria nas Olimpíadas de 1972.

Sendo a primeira vez que os jogos olímpicos seriam novamente sediados na Alemanha desde os jogos de 1936, em plena Alemanha Nazista, o governo e a organização evitaram ao máximo dar a impressão de uma democracia muito militarizada. Logo, a segurança foi aliviada e isso, obviamente, preocupou algumas delegações.

Na segunda semana do evento, o pior acontece. Muito ignorada por agências de inteligência contraterrorismo, os membros da Organização Setembro Negro, um grupo militante palestino, se infiltraram na vila olímpica e fizeram reféns onze integrantes da equipe olímpica de Israel. O conflito se resolveu com rapidez caótica em negociações e operações equivocadas resultando em dezessete mortes, sendo onze vítimas israelenses.

O mundo conheceu a face do terror em sua forma mais chocante, mesmo que não fosse a mais fatal. Enquanto todos lidavam com o acontecimento, a Mossad, agência secreta de inteligência de Israel, já se preparava para a vingança imediata. Ao contrário do que muitos podem pensar, o clássico moderno de Steven Spielberg, Munique, não é sobre o atentado em si, mas sobre o que aconteceu depois.

Uma História de Violência

Munique é um filme realmente abençoado. A junção de talentos reunidos nesse projeto fez essa produção ser digna de um dream team hollywoodiano. A difícil tarefa de adaptar o excelente livro de George Jonas, Vengeance, ficou a cargo de dois roteiristas conhecidos pela eficiência narrativa das histórias e de diálogos apuradíssimos: Eric Roth e Tony Kushner.

Trazer uma história complicada sobre espionagem, diplomacia e vingança em um mundo extremamente polarizado sobre a questão Israel-Palestina é algo de extrema coragem. Não só pelo temor do óbvio julgamento, mas sobre como trazer os dois pontos de vista em uma operação israelense de retaliação, além de uma narrativa clássica propriamente dita.

Com eficiência completa, os dois apostam na competência de Spielberg para iniciar a “causa” de toda a “consequência” que se trata o resto de Munique. Estabelecendo o básico do atentado, rapidamente já conhecemos o protagonista, Avner, interpretado por Eric Bana em um dos seus melhores momentos. O oficial israelense é recrutado para uma operação ultrassecreta para apagar onze nomes responsáveis por planejar o Massacre de Munique.

Largando a esposa grávida em Israel, Avner parte para diversos países da Europa com um time de mais quatro espiões: Steve, Carl, Robert e Hans, para honrar sua pátria e vingar os assassinados. O que torna Munique tão peculiar é sua abordagem sobre como funciona um esquema real de espionagem. Esqueça o glamour e as poses de herói. Não há nenhuma beleza no que esses homens, totalmente desconhecidos uns aos outros, fazem.

Esse é um dos maiores acertos da dupla de roteiristas ao estabelecer o mínimo a figura do protagonista. O espectador pode simpatizar rapidamente com as questões familiares, do drama da distância, da ausência do personagem para criar a filha, afinal, são gatilhos triviais de toda narrativa clássica. É o que humaniza Avner, ao contrário dos seus parceiros que não recebem um detalhamento tão caprichado quanto.

Algo, novamente, proposital para engrenar conflitos posteriores nos quais a paranoia bate à porta causando desconfiança entre o grupo. Mas antes de mencionar isso, é preciso comentar sobre a estrutura narrativa de Munique. A missão é iniciada com onze nomes a serem eliminados então o espectador facilmente pode esperar onze realizações para assassinarem os alvos. De fato, a expectativa é atendida rapidamente e vemos o grupo conseguindo os alvos com os informantes, planejarem a missão, a executarem e viajarem em busca do próximo nome.

Apesar de ser um rio narrativo muito perene, Roth e Kushner inserem reviravoltas e curvas suaves para apresentar situações curiosas jogando o grupo em constante contato prévio com os alvos, apresentando os argumentos dos árabes/palestinos sobre a delicada situação e do ciclo de conflitos. Há ótimas surpresas envolvendo esse contato e choque de ideologias mesmo que algumas sejam previsíveis – ao menos deixam o roteiro redondo.

Alguns podem observar essa natureza repetitiva do roteiro como um grande problema de Munique, mas o fato é notar os leves contrastes que a dupla insere a cada nova missão, na diferença de comportamento nos personagens que começam a se questionar se estão agindo corretamente depois de consequências ainda mais violentas ocorridas após os assassinatos.

É desse modo que os personagens coadjuvantes conseguem se tornar complexos. O confronto sobre o papel que eles desempenham, dos sonhos individuais de cada um e até mesmo sobre a pátria, um conceito muito complicado de ser explorado. Todos são desenvolvidos na medida do possível, reverberando acontecimentos novos a cada missão até o desenlace de tudo.

Enquanto tudo isso é mantido ao longo do extenso filme, alguns temas são recorrentes para deixar o protagonista mais complexo como o fato dele sempre parar seu dia para admirar uma cozinha sob medida, sonhando com o sonho americano e de viver em paz, uma fuga da realidade para se lembrar de sua esposa e filha. Ou com o contato familiar cheio de cuidados da família do informante. Aliás, é até mesmo surpreendente que haja um trato significativo para o núcleo do informante, também o usando para colaborar com a crescente paranoia do protagonista.

É justamente nisso que o terceiro ato cai em qualidade, ao trazer a narrativa para terrenos mais seguros de mensagens que os filmes americanos costumam dar. O que é algo bastante esquisito já que o longa, em geral, é pró-Israel. Mas as mudanças ocorrem para diluir um pouco desse viés ideológico. O terceiro ato é inteiramente focado nisso ao tornar o protagonista um homem muito violento, extremamente paranoico e inseguro, temendo ter se tornado um alvo para outros espiões secretos ou independentes.  

Com isso, surgem sequências de sonho/flashbacks para mostrar o lado mais visceral do atentado, inferindo que Avner seja motivado agora apenas pela sede de sangue se tornando uma máquina de matar. Há até mesmo uma inserção muito bizarra desse recurso durante uma cena de sexo que é realmente muito complicada de compreender. Seria uma mensagem boba sobre “faça amor, não guerra”? É algo que beira o mau gosto, mas não compromete em nada o espetáculo que testemunhamos até então.

É digno de aplausos o esforço hercúleo dos roteiristas em deixar essa história tão bem amarrada, apresentar diversos personagens com personalidades distintas e marcantes a ponto de permanecerem por bastante tempo na memória. É um escopo monumental que temos aqui, com diversas peças em constante movimento dentro de um jogo de sangue e trevas. Tudo feito com o minucioso cuidado que essa história merece.

Spielberg Apaixonado

Poucos diretores podem afirmar categoricamente que são mestres no que fazem. A arte de filmar, atualmente, é muito subestimada devido à demanda altíssima de produtos audiovisuais de massa que geram oportunidade para muita gente medíocre brilhar, empobrecendo o recurso cinematográfico ao ponto de virar apenas um olhar trivial sobre uma história qualquer.

Esse bendito olhar que tanto repetimos é o que distingue o joio do trigo. Spielberg certamente é um dos cinco maiores diretores de cinema vivos da atualidade. Poucos sabem dominar o estilo Chapman crane como ele consegue. De tornar o assunto filmado em algo tão dinâmico e interessante com manobras espetaculares de câmera, do uso mais apropriado da montagem, da fotografia e da trilha musical. É um gênio completo.

Munique talvez seja seu filme mais pessoal, ao lado de A Lista de Schindler, afinal também comenta sobre um massacre contra judeus, religião da qual ele faz parte. Ao assistirmos ao filme, isso fica bem denotado. É um projeto importante que ele investiu ao máximo de sua criatividade para criar uma nova obra-prima. Nada melhor do que um gênio inspirado e determinado a fazer o melhor.

Já nos primeiros minutos, Spielberg impressiona ao investir em um manejo tão caótico de câmera. Mesmo que tudo seja muito bem encenado, o diretor faz questão de replicar uma abordagem jornalística de cobertura ao vivo de todo o caos que se instalou durante a negociação dos reféns. São detalhes dos terroristas, dos policiais, do governo e de jornalistas do mundo inteiro, além das distintas reações dos espectadores que assistem à cobertura, comemorando ou lamentando.

Tudo feito com maestria completa da direção e também da montagem agitada de Michael Kahn que consegue equilibrar todos os pontos de vista. Em questão de minutos, já temos outra jogada inteligente ao intercalar os nomes das vítimas com os nomes dos responsáveis pelo Massacre, dinamizando a origem da missão dos espiões. Uma ligação fortíssima impossível de ser ignorada.

Depois, temos diversos momentos de brilhantismo cinematográfico. Nos diálogos, há sempre uma movimentação de câmera para criar diversos planos em um, realmente envolvendo todos na conversa, uma assinatura já muito conhecida de Spielberg. Essa dança com a câmera se torna ainda mais fabulosa quando ele cria planos absurdos focando os atores em reflexos de vidros ou espelhos com maestria absoluta em guiar o olhar do espectador nas contínuas mudanças da evolução do plano. Cada ação, por mais trivial que seja, consegue se tornar em um espetáculo narrativo nas mãos de Spielberg que não cansa de valorizar seus atores e do glorioso design de produção – tenha em mente que é uma história que se passa em diversos países e em cada temos uma identidade arquitetônica forte.

Muitas cenas se destacam, inclusive pelo tom absurdo, mas há duas que simplesmente prendem a atenção do espectador como nenhuma outra: a do telefone e do assassinato do terceiro nome. Cada uma tem grandes distinções entre si. Enquanto a do telefone aposta ferrenhamente no uso da montagem e da brilhante questão do ponto de vista, a outra é um pouco mais comportada, chamando a atenção pelo estado cru e realista da consequência da explosão assim como a movimentação da câmera. Ele simplesmente consegue estabelecer toda a geografia da cena com apenas um plano em um dos manejos de câmera mais impressionantes de sua carreira.

Essa sequência do telefone é consideravelmente difícil de colocar em palavras, pois traz o melhor do cinema, o chamado indizível cinematográfico. Apesar do desfecho ser comportado, a execução é puramente brilhante, mostrando como Spielberg consegue ser um Hitchcock quando quer. Ou seja, um mestre do suspense.

Mas além dessas características já muito particulares à direção desse mestre, há algo realmente único em Munique: uma grande homenagem ao cinema da Nouvelle Vague, de Truffaut e Godard, em particular. É sabido que Spielberg é um fã inveterado do movimento, mas nunca havia encontrado espaço para brincar com as técnicas cinematográficas dele, pois não cabe em diversos gêneros que ele havia trabalhado.

Com Munique, temos a tempestade perfeita: o filme é thriller de espionagem, situado na Europa e nos anos 1970. Logo, temos muita exploração entre o observado com o observador, a questão dos olhares é enfatizada, a montagem se arrisca mais até mesmo com jump cuts mínimos. Mas o que mais chama a atenção, de fato, é a movimentação da câmera.

Em diversos momentos tempos zooms muito característicos de Godard, a típica câmera na mão e a encenação livre que esses cineastas pregavam. Claro que aqui nada é, de fato, “livre”. Apenas há a impressão disso como na ótima cena que Steve disputa por uma determinada estação de rádio em um quarto rudimentar. Os atores é que mandam na câmera, realizando toda a ação em apenas um plano. É a mistura da Nouvelle Vague com o olhar de Spielberg, algo muito belo e recompensador.

Claro que, apesar de ser uma obra-prima, Spielberg também mete os pés pelas mãos ao apostar sempre no melodrama em excesso, criando até mesmo cenas questionáveis como a já mencionada do sexo. A virada pseudo sentimentalista para concluir a mudança do ponto de vista de Avner também é guiada à mão pesada, dando a impressão de uma percepção bem menos inspirada do diretor que, sim, é pró-Israel como já deixou claro em algumas declarações. Como o filme decide não tomar partido em lado nenhum em sua conclusão, o trabalho parece mais impessoal e menos apaixonado.

Às vezes é melhor ser um Clint Eastwood que simplesmente coloca a sua visão e pronto, do que fazer algumas concessões para evitar polêmica. O curioso é que não adiantou de absolutamente nada já que muitos rejeitam o ótimo filme que Munique é por considerarem sua posição como pró-Israel – uma visão, que reitero, completamente superficial da obra.

Justamente por isso, o terceiro ato da obra tem esse pequeno declínio, apesar do diretor conseguir tirar boas sequências de suspense, paranoia, vazio existencial e contemplação com planos belíssimos de despedida, morte e paz. Méritos esses também da iluminação sempre fantástica de Janusz Kaminski, excepcional em dar peso para as imagens ao menor toque de contraste de sua fotografia impecável e muito injustiçada em não ser indicada às premiações do Oscar naquele ano.

O Terrorismo Antes e Agora

Munique é uma obra-prima. Um atestado completo de um diretor muito apaixonado pelo Cinema e também pelo tema que optou retratar de modo respeitoso e, até mesmo, mágico com o aprimoramento surreal de seu trabalho de câmera. Com duas horas e quarenta minutos de filme, é fácil se sentir desencorajado em conferir esse trabalho estupendo.

Spielberg é muito consciente da duração do longa e faz de tudo para capturar seu interesse com diversas encenações inteligentes, planos belíssimos e cenas hipnotizantes, além do auxílio do elenco excepcional – Daniel Craig está ótimo. Ele captura a real questão de um filme de espionagem baseado em fatos, trazendo tanto a realidade da violência para a tela, como a magia do cinema possibilitada pelo olhar certeiro. É uma homenagem completa tanto às vítimas que o Setembro Negro ceifou durante as Olimpíadas de Munique tanto para as vítimas do terrorismo de hoje.

Não é à toa que Spielberg encerra seu filme enquadrando uma serena paisagem da costa ao encontro do rio Hudson. Ali, bem ao fundo, em um véu fantasmagórico e de não-pertencimento, estão as torres do World Trade Center. Sutileza de mestre, amargor poderoso, filme inesquecível.

Munique (Munich, EUA, França, Canadá – 2005)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Tony Kushner, Eric Roth, George Jonas
Elenco: Eric Bana, Daniel Craig, Ciarán Hinds, Mathieu Kassovitz, Hanns Zischler, Ayelet Zurer, Geoffey Rush, Michael Lonsdale, Mathieu Almaric
Gênero: Thriller, Suspense, Drama
Duração: 164 minutos

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