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Em seu filme mais ambicioso, Todd Haynes retoma a vontade de contar a história de um ídolo – a ideia de Velvet Goldmine –, reinterpretando o passado a partir daquilo que sobrou dele.  O tempo naturalmente corrói e transforma, e contar a história de alguma pessoa, ainda mais uma tão complexa quanto Bob Dylan, acabará sempre em um conto sobre a insuficiência, fragmentada porque consciente de sua natureza e vice-versa. Seria o diretor aqui um artista com liberdades historiográficas ou um historiador com liberdades artísticas? Qualquer que seja a conclusão que se chegue ao final de Não Estou Lá, permanece a experiência, uma tentativa de captar o corpo, a alma (e o fantasma) de Bob Dylan.

Após a sequência inicial, em câmera subjetiva, em que vemos o caminho do cantor até o palco no show de 1966, o mais famoso de sua carreira, Dylan, incorporado em Jude Quinn (em uma brilhante interpretação de Cate Blanchett), vai para uma mesa de cirurgias e é cortado com um bisturi. Em seguida, o espectador vislumbra as seis personalidades do cantor, cada uma em um ator diferente. Com esse simples jogo visual, Haynes esclarece os rumos de seu filme: apresentar diferentes momentos da vida de Dylan com representações radicalmente diferentes e com pouco contato entre si, senão pontualmente.

O poeta maldito Arthur Rimbaud (Ben Whishaw), em uma espécie de tribunal, com participações pontuais, funciona como um guia semelhante à participação de Oscar Wilde em Velvet Goldmine. A figura maldita, sob pressão, salva pela sua poesia, conecta-se, por sua vez, aos tempos mais reclusos de Dylan, dessa vez na pele de um Billy  The Kid (Richard Gere). Essas duas figuras, por mais distantes, em termos literalmente biográficos, que estejam da vida do cantor, são essenciais para fazer de Não Estou Lá um filme especial.

O que norteava Velvet Goldmine era a trajetória do jornalista interpretado por Christian Bale em busca do cantor Brian Slade, de sua vida e de como a sua experiência testemunhal complementava aquele contar. Mas aqui, o caso é diferente: nós mesmos nos tornamos testemunhas contemporâneas ao artista e somos desafiados a cada mudança de recorte/personagem. Essa perspectiva encontra-se presente na própria câmera que não consegue mudar de posição sem ser afetada brutalmente. Além da mudança dos atores, Haynes também opta por adotar o preto e branco com Rimbaud e com Jude Quinn (a imagem de Dylan que ficou), com um desejo semelhante ao de Philippe Garrel: um fetiche que engrandece os gestos, marcando-os de forma única – além de remeter a A Caminho do Leste (1967), de D.A. Pennebaker.

A partir dessa perspectiva, então, da câmera como criadora e testemunha da história, as seis narrativas que em si podem parecer um pouco desconjuntadas – as personagens são mais efígies que personalidades; rastros de uma mutilação no lugar de peças de um quebra-cabeça – retomam o fluxo imagético que Haynes não utilizava desde Veneno, seu primeiro longa. E tal como um livro de contos, há momentos menos interessantes, como acompanhar a perspectiva de Dylan como pai (a parte com Heath Ledger), ou a volta do cantor ao protestantismo como Pastor John (Christian Bale). Já as sequências como fugitivo (Marcus Carl Franklin e Richard Gere) ou como artista incompreendido (Blanchett), ora ativista dos movimentos sociais, ora bajulado pela elite, montam um arsenal tão rico de momentos e paralelos, de tempos diferentes (“O ontem, o hoje e o amanhã, tudo na mesma sala”, como afirma o Billy The Kid) que o espectador é, de repente, absorvido.

Absorção essa que Haynes não esquece de representar: após uma calorosa entrevista com o cantor, um crítico vai ao banheiro e encontra vários clones seus espalhados pelo local. Nesse curto momento, ao som de Ballad Of A Thin Man, quando a câmera finalmente tenta refrescar seu olhar, já está tudo contaminado.

Por isso mesmo, Haynes só mostra o Dylan “de verdade” nos últimos segundos do filme, e não com um punho fechado, como se a imagem tivesse qualquer tom conciliatório ou final, mas com uma consciência fatal e a satisfação de terminar um ótimo trabalho.

Não Estou Lá (I’m Not There. – EUA, 2007)

Direção: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes e Oren Moverman
Elenco: Cate Blanchett, Ben Whishaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin, Heath Ledger. Kris Kristofferson e Don Francks
Gênero: Drama, Biografia
Duração: 135 min.

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