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Em toda a História do Cinema, raramente existem parcerias entre diretores que realmente são proveitosas a ponto de cunhar filmes excepcionais. Um dos casos mais extraordinários e, provavelmente, famosos é a dupla Michael Powell e Eric Pressburger. Apesar de serem muito conhecidos pela realização excepcional de Os Sapatinhos Vermelhos, os dois já haviam atingido um nível de sinergia impressionante com Coronel Blimp – Vida e Morte, mas é possível afirmar com um bom nível de segurança que um dos maiores filmes de destaque da dupla seja Narciso Negro.

Ambos trabalharam na adaptação do livro homônimo de Rumer Godden trazendo uma história bastante inusitada de um grupo de feiras anglicanas que são enviadas ao Himalaia em missão para firmar um hospital e uma escola para a pequena comunidade local. O problema é que a antiga edificação já servira como harém e está repleto de pinturas e esculturas eróticas aumentando o desafio das freiras permanecerem puras. Para dificultar a situação, há a presença incômoda de um conselheiro do antigo dono do edifício, Mr. Dean (David Farrar) que adora importunar as irmãs sempre que há uma oportunidade.

Convento em Fúria

Narciso Negro é, acima de tudo, um resultado de seu tempo e, por conta disso, envelheceu terrivelmente se sustentando muito por conta de sua estética caprichada. Logo, a narrativa certamente não é a melhor característica do longa, apesar de haver muita substância nas sutilezas que Powell e Pressburger inserem em momentos-chave da trama. Pode não parecer, mas existe um subtexto sexual muito poderoso aqui, como se fosse um teste divino para as irmãs do convento superarem e renegarem suas paixões humanas mais poderosas.

Logo, o contraste é ferrenho entre os modos rígidos das irmãs e com a “selvageria” dos habitantes da vila que somente frequentam o convento porque o general os paga. Esse choque de culturas acaba por indignar as freiras que praticamente são malvistas por toda a comunidade, apesar de seus esforços de elevar a qualidade de vida de cada um. Logo, há um punhado de diálogos preconceituosos, mas condizentes com a realidade da época ainda mais em 1947 quando a Índia estava muito próxima de conquistar sua independência.

Esse ressentimento britânico com certeza atravessa camadas da obra a tornando ainda mais interessante, porém o cerne de Narciso Negro não está somente no choque cultural e toda a atmosfera exótica da obra. O fato do erotismo latente entre as feiras que tentam ignorar o antigo ofício do prédio, além da presença de Mr. Dean que evoca essa tensão sexual muito reprimida nas mulheres. Colabora também o ingresso da bela garota Kanchi (Jean Simmons) que simplesmente traz uma carga sexual fortíssima para o convento, nunca obedecendo aos mandos das irmãs.

Já as freiras falham em ter alguma personalidade forte ao decorrer do filme, excetuando a irmã Clodagh (Deborah Kerr fantástica) e irmã Ruth (Kathleen Byron). Todas são categoricamente definidas logo no início da obra como a líder, a forte, a popular, a agricultora e a doente perturbada. Com Clodagh sendo a líder que conduz seu trabalho e as outras irmãs servindo como alívio cômico refinado e também falhas em seus ofícios, apenas Ruth fica como o contraponto perfeito, apesar de muito calada.

Os cineastas, ao estabelecer sempre uma relação voyeur de Ruth observando Mr. Dean na distância, são eficientes em desenvolver essa paixão latente sem o auxílio de diálogos. As imagens já bastam para justificar a motivação das loucuras que Ruth comete no sombrio terceiro ato. Já com a protagonista, há um desnecessário esforço dos roteiristas em inserir flashbacks revelando seu passado cômodo e uma aventura amorosa fracassada. Isso, apesar de parecer redundante, pode ser interpretado como uma dica para sugerir que Clodagh possa ou não estar também apaixonada por Dean.

Isso é um mistério não resolvido, mas muito bem sugerido por ápices visuais da obra. Aliás, em termos gerais, Narciso Negro possui uma narrativa fraca que pode não atrair a atenção do espectador em primeiro momento. O desenvolvimento de grande parte dos personagens é pífio e certos acontecimentos importantes surgem sem qualquer preparação de atmosfera prévia. Em geral, é uma história bastante esquisita e sem um foco exato sobre o que pretende contar deixando o longa superficial ou simplesmente desleixado com algumas pontas soltas.

Brilho do Himalaia

Então o que realmente torna Narciso Negro um ótimo filme? A direção e a fotografia excepcional de Jack Cardiff. Toda a estética é pensada milimetricamente para conferir um equilíbrio de composição bastante firme que se mantém por toda a obra. É uma simetria que foge da simplicidade ao explorar níveis de profundidade de campo, da altura dos cenários, da disposição dos objetos e até mesmo da movimentação e posicionamento meticuloso dos atores em cena.

Logo, o sentimento geográfico das cenas é absolutamente perfeito, permitindo a criação dos jogos de olhares que Pressburger e Powell tanto gostam. Aliás, os cineastas até se arriscam em características vanguardistas de sequências em montagem bastante rápidas como durante a cena da reforma do convento, além do trabalho magnífico de perspectiva durante o ritual das badaladas do sino localizado na beira do precipício da região montanhosa que o convento está instalado.

Pela ênfase nessa imagem icônica, fica claro que teremos uma grande resolução neste espaço tornando o clímax da obra um tanto previsível. Com o uso das pinturas em matte painting para criar a ilusão da perspectiva, o resultado foi tão marcante que chegou a influenciar Alfred Hitchcock em Um Corpo que Cai. Aliás, todo o trabalho envolvendo as matte paintings enganam bastante a ponto de acreditarmos que tudo foi filmado em locação. Pelo trabalho impressionante do design de produção e do figurino, temos a ilusão perfeita de estarmos em um ambiente indiano.

O figurino por si tem uma grande importância simbólica para a obra, já que os cineastas elaboram contrastes poderoso no terceiro ato quando Ruth se livra do hábito e usa vestes provocantes exibindo toda sua feminilidade reprimida pelas vestes castas. O mesmo contraste é visto em uma transição perfeita entre um flashback de Clodagh para o presente reprimindo toda a beleza de seus cabelos.

Outro momento poderoso somente com o encanto visual está na dança de Kanchi momentos antes de conhecer o jovem general que adentra os aposentos de supetão, ou quando os cineastas mostram Ruth correndo tresloucada pelo convento retirando todas as mantas que cobriam esculturas de outras divindades.

Aliás, o terceiro ato inteiro impressiona pelo domínio visual da dupla que consegue criar imagens muito inusitadas explorando ângulos corajosos ou mesmo com brincadeiras sublimes envolvendo o forte contraste de luz e sombras ou com a experimentação fantástica com maquiagem em Ruth jogando o filme para uma esfera de terror bastante curiosa.

Narciso Envelhecido

Apesar de contar sim com o efeito implacável do tempo, além de uma história consideravelmente desconexa e pouco interessante, Narciso Negro traz um dos melhores trabalhos envolvendo subtextos complexos sugeridos com sutileza pelos cineastas. Assim, acaba se transformando em uma obra bastante profunda explorando uma esfera psicológica pouco explorada pelo cinema como um todo: a vida em convento e o compromisso das freiras com a fé.

Não somente pelo teor erótico sutil e do sacrifício que essas mulheres aceitam passar, mas também por conta de uma estética fascinante que coloca essa obra praticamente a frente de seu tempo por inúmeros artifícios visuais, além do uso exemplar da técnica Technicolor. Mesmo sendo uma obra difícil, Narciso Negro ainda é um exercício cinematográfico interessante que merece uma conferida de espectadores mais curiosos.

Narciso Negro (Black Narcissus, Reino Unido – 1947)

Direção: Michael Powell, Eric Pressburger
Roteiro: Michael Powell, Eric Pressburger, Rumer Godden
Elenco: Deborah Kerr, Flora Robson, Jenny Laird, Judith Furse, Kathleen Byron, Sabu, David Farrar, Jean Simmons
Gênero: Drama
Duração: 101 minutos.

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