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Em 1984, é publicado Neuromancer, a obra seminal do William Gibson, um marco na literatura de ficção cientifica. Este romance criou todo um novo subgênero, o cyberpunk, um dos mais interessantes de toda ficção cientifica, possivelmente meu favorito, onde se discute a obsolescência do ser humano, os impactos que uma tecnologia descontrolada pode vir ter em toda a sociedade, entre outros temas.

No inicio do livro somos apresentados ao proatagonista, Henry Dorsett Case, um cowboy. Um cowboy é basicamente uma pessoa, cuja profissão é ser hacker, conectando seu cérebro diretamente ao cyberespaço, a Matrix. Após cometer o erro de roubar de seu patrão, Case é contaminado com micotoxinas, que danificam seu sistema neural, o impossibilitando de exercer sua profissão.

Sem esperança de conseguir um novo emprego e no topo da lista negra de seu antigo chefe, Case acaba ficando suicida e paranoico, até que ele conhece uma ciborgue chamada Molly Millions. Molly é uma “samurai de rua”, basicamente uma super guarda costas. Ela tem garras metálicas nas unhas e tem óculos espelhados embutidos nos olhos, que servem como um visor de computador que passa informações para ela, detalhes bem interessantes.

Molly o apresenta a seu chefe, Armitage, que lhe oferece uma cura, caso Case trabalhe para ele, sem escolha, Case aceita. Assim, Case, sem saber está trabalhando em uma conspiração concebida por uma inteligência artificial, Wintermute.

Em termos de narrativa, Neuromancer é, de certa forma, um livro difícil. Além de utilizar jargões tecnológicos e gírias a quase todo o momento, o narrador não nos passa muitas informações. Tudo o que sabemos é praticamente o que Case sabe, o que não é muita coisa. Assim o leitor é forçado a, não somente a prestar bastante atenção, mas também a pensar e ir montando as peças com o pouco de informação que lhe são apresentadas.

Os exemplos mais claros de um quebra cabeça a ser montado nesse livro são as passagens onde o Case flipa (Se conecta) ao cérebro da Molly, nessas passagens ele fica um certo tempo vendo as coisas pelos olhos da mulher, saindo para conferir outras coisas, quando ela volta, ele já perdeu bastante do que a Molly viu. Caímos, literalmente, de paraquedas no meio da ação ou no meio de diálogos, ficando tão perdidos quanto o nosso protagonista.

Uma coisa interessante no romance são os são os backstorys dos personagens que nos ajudam a entender o universo em si e até mesmo a movimentar a trama, deixá-la mais interessante, destaque para Armitage e Molly.

Algumas pessoas podem se sentir incomodadas também com a grande complexidade do romance, na parte “visual”, há uma dificuldade em visualizar o que o autor está descrevendo, por exemplo, o cyberespaço. Se eu já não o tivesse visto em outras mídias visuais, seria quase impossível visualizá-lo com as vagas descrições do Gibson.

Neuromancer pode até ser considerado um livro difícil, claramente não para todo mundo, um pouco datado e até mesmo maçante em algumas partes, mas tem sua importância, pois este romance elevou a ficção cientifica a outro patamar, criando um novo subgênero e transcendeu o seu tempo.

Recomendado a todos os fãs de ficção cientifica, agora para aqueles que querem começar, melhor começar por outros autores como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, ou um bom e velho Julio Verne porque esse aqui é um pouco “pesado.”

Algumas reflexões

A ficção cientifica em geral, sempre é recheada de reflexões que são induzidas no leitor. Com  Neuromancer não é diferente. Gostaria de comentar um pouco sobre as reflexões as quais o romance me induziu, que é o que me faz considerá-lo um  romance fantástico. Considere essa uma “seção extra” da resenha.

Com os ciborgues, o livro levanta a questão: Qual o limite do orgânico pro cibernético para que ainda possamos nos chamar de seres humanos? Uma questão relevante, visto os avanços tecnológicos que temos feito, talvez logo teremos que nos perguntar isso, dessa vez pra valer.

As inteligências artificiais, provavelmente meu tema favorito de toda a ficção cientifica, nos fazem refletir também. Eles pensam, logo existem. Se eles existem e tem consciência disso, eles podem se afirmar seres vivos? Poderia um ser vivo ser feito de códigos de computador altamente complexos e só? Já que é assim qual a nossa diferença em relação a eles? Como decidir vida agora? Essa e muitas outras questões são levantadas pelas inteligências artificiais do romance.

Outra coisa que me deixou refletindo foi a questão do flatline, um constructo que é uma pessoa, já morta, que teve seu perfil clonado e transformado em dados,  qual a ética nisso? Uma discussão meio complicada. Agora pensando nisso me lembro de um episódio da série black mirror que apresenta essa mesma ideia e do site eterni.me. O site é similar ao que foi apresentado naquela série, uma pessoa coloca um  programa para simular os perfis das redes sociais dos falecidos para “matar a saudade”. Além da nova onda de Hollywood em reviver atores falecidos por meio de computação gráfica e os hologramas de artistas que já se foram que apresentam em shows. Então me pergunto se o Gibson ficaria surpreso em saber que até isso ele previu.

Semelhanças com outras obras populares

Segunda “seção extra” da resenha, agora falando de algumas semelhanças com outros trabalhos, principalmente Matrix, não podia ficar sem comentar um pouco sobre. Eu sei que muita gente gosta muito de Matrix e pode achar que o filme tenha uma certa originalidade… Não tem originalidade nenhuma, os Wachowski só fizeram copiar, Matrix não passa de uma colcha de retalhos de diversas obras diferentes. O maior pedaço está em  Neuromancer.

Veja bem, não estou criticando ou condenando os Wachowski nem nada disso, creio que há alguma verdade nas palavras do artista Salvador Dali: “Aqueles que não imitam não produzem nada”. Mas ainda fico surpreso ao ver Matrix ser aclamado até os dias de hoje,  enfim…

Matrix e Neuromancer possuem diversos elementos em comum, começando pela Matrix, apesar de a Matrix em Neuromancer ser bem  diferente da apresentada no filme, ela está mais para o cyberespaço apresentada no mangá/anime Ghost in the Shell, outra obra inspirada por Neuromancer, que por sua vez inspirou Matrix também.

Assim como em Matrix, Neuromaner possui uma Zion. São diferentes, mas o conceito se assemelha um pouco. A Zion de Matrix é para onde as pessoas que são acordadas da falsa realidade virtual vão. As pessoas da Zion de Neuromancer são uma comunidade rastafári que decidiu fugir da perversidade da distopia dominante da Babilônia (A terra) e construíram uma estação espacial para isso.

A inteligência artificial que está querendo se elevar a uma coisa maior e se tornar livre também pode ser encontrada em ambas as obras. Embora eu acredite que o meio que Wintermute usa para alcançar seu objetivo se aproxime mais do que o mestre das marionetes do Ghost in the Shell utiliza.

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