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Sabe-se lá como você, caro(a) leitor(a) interpretou o subtítulo desta crítica. Se para alguns parece um elogio, para outros pode soar pejorativo. De toda forma, acho que qualquer pessoa, minimamente cinéfila, já cria uma boa expectativa quando se trata de um exemplar do cinema argentino. Motivos não faltam, mas há quem diga que o filé que chama atenção deste lado da fronteira encobre uma imensa produção local não tão respeitável.  No Fim do Túnel (Al Final del Túnel) pode até ser um desses casos e, sim, em vários aspectos, lembra fórmulas das produções da terra do Tio Sam. Como nos acostumamos com o que os hermanos têm de melhor e mais característico, isso se torna um problema. Nem por isso chega a ser ruim, mas vamos ao que a obra tem a oferecer.

O roteiro, assinado pelo próprio diretor, Rodrigo Grande, acompanha um difícil momento da vida de Joaquín (Leonardo Sbaraglia, de O Silêncio do Céu e Relatos Selvagens), um cadeirante que vive sozinho e melancólico, por conta de uma tragédia, em uma casa espaçosa em Buenos Aires, dividindo o tempo entre a rotina doméstica e seu trabalho como técnico de computadores. Com dificuldades financeiras, ele aluga um dos quartos do imóvel e a primeira interessada a procurá-lo é Berta (Clara Lago), uma stripper trazendo consigo uma filha de seis anos com problemas psicológicos. Relutante a princípio, ele a aceita, mas começa a incomodar-se com ela por perto, que faz de tudo para ser prestativa.

Paralelo a esse evento, como Joaquín trabalha no subsolo da casa, percebe barulhos estranhos no terreno ao lado. A descoberta de que são ladrões cavando um túnel que passa por baixo de sua casa, com o objetivo de chegar ao cofre do banco vizinho, faz com que ele decida espionar o grupo liderado pelo psicopata Galereto (Pablo Echarri), com câmera e escuta, pretendendo tirar algum proveito do roubo.

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Entre os recursos mais manjados desta história, o recluso atingido pela tragédia, recebendo um raio de luz em sua vida com a chegada de uma desconhecida. O drama do cachorro de estimação até passa, mas é difícil não encarar como apelação a presença de uma criança com problemas. Betty, a filha de Berta, afeta Joaquín de uma forma mais que previsível, mas a menina ainda é utilizada mais à frente na narrativa para forçar alguns sentimentos do espectador, sem muito efeito. O lado “MacGyver” do esperto cadeirante também pesa e pede uma suspensão de descrença maior do que esperávamos.

Em seu quarto longa-metragem, Rodrigo Grande não parece ter grandes pretensões com No Fim do Túnel, o que é bom, pois seu roteiro não tem absolutamente nada de especial. No entanto, isso não o exime de perder-se no miolo desta narrativa. Se Joaquín se apresenta no começo com um pano de fundo claro, exposto sem a necessidade de diálogos explicativos, depois ele acaba perdido no meio de manobras e reviravoltas que prejudicam a dramaticidade e verossimilhança da situação. Esse deslize sacrifica um pouco a experiência do espectador, apesar de um suspense eficiente aqui e ali, mas Leonardo Sbaraglia ainda se esforça com o material que dispõe, segurando-se bem na pele do protagonista.

Ainda sobre o texto, o cineasta/roteirista, lamentavelmente, opta por um exagero gritante na construção de Galereto. Essa falta de sutileza é um dos motivos da comparação com alguns produtos de Hollywood. A maldade do antagonista da trama estava bem justificada até determinado momento, mas uma revelação – que cai na história com a delicadeza de um meteoro – parece tentar obrigar o público a odiar o sujeito. Na mesma via do protagonista, Pablo Echarria, entrega uma boa atuação, apesar da limitação do roteiro.

Abrindo o filme com a câmera movimentando-se em travelling pelo interior da casa, onde se passa a maior parte da duração, o filme promete bastante neste momento. Ainda que falhe na construção conceitual, o diretor consegue bons planos e enquadramentos no espaço restrito e a decupagem é competente. A produção pôde contar com a fotografia de Felix Monti, do excepcional O Segredo de Seus Olhos, um detalhe que evita a queda na vala comum de filmes meramente esquecíveis. Bem trabalhado em ambientes pouco iluminados, com as inevitáveis sombras, as imagens estão de acordo com o conceito e conferem algum charme ao conjunto.

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Do vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, também veio o compositor Federico Jusid, aqui trabalhando com Lucio Godoy. A trilha sonora é outro ponto que valoriza o filme como um todo, aliado ao bom trabalho na mixagem de som, fundamentais em qualquer suspense.

Chegando aos seus momentos finais, No Fim do Túnel consegue crescer e recuperar algo do que perdeu lá pela sua metade. Talvez se beneficiasse com uma duração mais enxuta, mas, enquanto aproxima-se da resolução, entrega momentos e situações que amarram pontas soltas. Nada extraordinário ou memorável, além de lembrar dezenas de situações que você já viu em filmes dos EUA, mas é o melhor momento da trama e o mais divertido, recompensando o espectador que manteve a fé diante da irregularidade. Sobre o derradeiro momento da projeção, pode até desagradar por vários motivos, mas segue um tom já delineado antes, portanto, não surpreende quando chega.

Bom para uma – e apenas uma – sessão descompromissada, o filme de Rodrigo Grande fica aquém da vitrine do cinema portenho. Mesmo assim, ainda consegue um pouco mais de sofisticação do que a grande maioria que infesta as salas de cinema atualmente. Se for um alívio não sentir-se tratado como idiota enquanto assiste a um longa, vale a pena encarar.

*Via parceiro Formiga Elétrica.

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