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Fellini já estava em alta depois do sucesso de Os Boas Vidas em 1953, mas mesmo com o impulso na carreira, o cineasta só encontraria sua primeira obra prima em 1957 com o lançamento do belíssimo Noites de Cabíria, um filme completamente amadurecido. Já bem afastado do Neorrealismo Italiano caminhando para seu próprio estilo que explodiria no próximo filme de sua carreira, Fellini ainda preservaria traços de seu primeiro sucesso, incluindo a narrativa de acompanhar rejeitados sociais, mas com corações de ouro.

No caso, o diretor apresenta a história da pequena e pobre prostituta Cabíria (Giulietta Masina no melhor momento de sua carreira). Ao contrário das outras colegas de ofício, Cabíria tem sua própria casa e um código de trabalho bastante pessoal, mas apesar disso, ela guarda segredos íntimos dos seus sonhos dignos de um conto de fadas.

Por trás de toda sua rispidez, Cabíria deseja casar na esperança de encontrar um homem correto que não tente tirar vantagem de suas pequenas conquistas e que se esforce em construir uma vida digna ao seu lado. Porém, em suas noites, o destino sempre insiste em esmagar as aspirações fantasiosas da jovem mulher que tenta não se render diante de tantas frustrações.

Onde Há Vida, há Esperança

Apesar de todo o contexto pesado envolvendo a prostituição, Fellini continua tratando suas narrativas com bastante leveza. Noites de Cabíria impressiona em primeiro momento pelo contagiante ar descontraído e muito bem-humorado podendo até mesmo ser classificado como uma comédia. A apresentação da personagem protagonista dá justamente o tom para toda a obra.

Cabíria é quase assassinada ao ser jogada em um rio por seu namorado que deseja roubar algumas liras que ela tem em sua bolsa. Ao ser resgatada e ressuscitada, ela se revolta contra seus salvadores ao notar que o amado só estava interessado em seu dinheiro. Tudo era uma farsa para roubá-la. É importante que o espectador fique atento ao começo do longa, pois ele dita toda a personalidade fantástica de Cabíria ao ser ressuscitada por alguns poucos jovens que se dispuseram a resgatá-la da morte certa.

A personagem repleta de veia cômica, já revela essa profunda melancolia da traição e do próprio existir. A personagem repleta de sonhos amorosos, de um resgate digno de um conto de fadas, também luta contra uma depressão que a faz desejar a morte em momentos mais frágeis.

Fellini elabora isso com extrema rapidez e eficácia. Depois da apresentação de Cabíria, não há mais o que pedir de desenvolvimento da personagem, já que o artista deseja experimentá-la em diversas situações episódicas nas quais irá elevá-la e depois jogá-la para a realidade. Isso acontece por diversas vezes, mas nunca Fellini deixa as situações caírem na repetitividade.

Todas oferecem vislumbres valiosos sobre o quão simples pode ser Cabíria diante de situações surreais como uma noitada com famoso e ricaço ator italiano ou depois de uma frustrante sessão de humilhação pública depois de ser hipnotizada. Cada sequência oferece o contato da protagonista com os mais íntimos de seus sonhos que encantam o espectador pela leveza de todas as situações, além da habilidade incontestável de Giulietta Masina em dominar todas as cenas que participa.

Fellini também se importa em trazer alguns pequenos detalhes sobre a realidade por vezes implacável que as prostitutas passam durante as noites de serviço ao fugir de policiais, mas sempre evita em mostrar o envolvimento de Cabíria com seus clientes. Ou seja, apesar de dramático e realista, Fellini apela pouco para um melodrama mais pesado a fim de sustentar o clímax nada menos que apoteótico.

A última narrativa, a mais elaborada, é a manifestação pura de Fellini pelo apreço do valor à vida e de toda sua beleza inesperada. Comentar por extenso sobre o que ocorre no terceiro ato da obra, seria uma imoralidade a todos que não deram alguma chance para Noites de Cabíria. Não é por mero acaso que se trata de um dos finais mais bonitos do Cinema como um todo.

Nele, Fellini atinge um verdadeiro ápice narrativo e na técnica, juntando imagens levemente sobrenaturais, muito inspiradas no trabalho de George Stevens em Um Lugar ao Sol, além de utilizar com precisão o primeiro grande close para capturar todo rebuliço emocional que atinge os dois personagens. É uma culminação fantástica extremamente bela que, acompanhada da ótima trilha musical, é capaz de gerar uma das intensas catarses no espectador.

Noites de Clássicos

É bem provável que Noites de Cabíria seja o melhor filme de toda a carreira de Federico Fellini. Mesmo que tenha conquistado clássicos incontestáveis após o lançamento desta obra, poucos chegam ao nível apoteótico desse conto espetacular. A mistura perfeita de comédia e tragédia para representar a beleza do espírito humano mesmo diante das piores possibilidades. Onde há vida, há esperança.

Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria, Itália – 1957)

Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini
Elenco: Giulietta Masina, François Périer, Franca Marzi, Aldo Silvani
Gênero: Comédia, Drama
Duração: 110 minutos