» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

O final do século XIX, seja na Europa, seja no Brasil, foi marcado por inúmeros acontecimentos de suma importância para a constante evolução da crescente sociedade burguesa e capitalista. Apenas no ano de publicação da primeira edição de O Ateneu, tivemos a aprovação e a outorgação da Lei Áurea pela Princesa Isabel, cujo momento revelava uma necessidade de contra-ataque ao exacerbado conservadorismo em nosso país. Mas ao contrário do que se imagina, movimentos liberais já despontavam em inúmeras esferias socioculturais, principalmente na literatura – afinal, sete anos antes Machado de Assis ganhava um destaque controverso com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, marcando o início do Realismo brasileiro.

Raul Pompeia talvez tenha seguido nestes mesmos passos com sua obra-prima, uma das únicas que conversa com o movimento impressionista europeu. Entretanto, analisar seu livro é uma tarefa árdua que requer uma bagagem cultural não tão pequena assim se quisermos compreender cada uma de suas ácidas críticas que delineia com um excesso de prolixidade provocativo e proposital – e, se analisarmos a fundo o microcosmos criado pelo autor, percebemos que suas tendências narrativas se expandem para outras escolas literárias. Não é à toa que o romance tenha caído num esquecimento quase centenário até ser resgatado para estudos acadêmicos e, atemporalmente, servir como panorama da sociedade contemporânea.

Ateneu é o nome que recebe um grande colégio interno localizado em Jacueganga, administrado pelo rigoroso e “paternal” Aristarco, o diretor. Sua formação militar e sua afabilidade para a manutenção de um regime tradicional já servem de base para compreendermos com o que o protagonista, Sérgio, estará lidando ao longo de um grande compêndio de memórias narrado em primeira pessoa. Então não se enganem: apesar de trazer como foco um garoto de onze anos que passa sua juventude sob os cuidados de um sistema educacional opressor, porém mascarado com a imponência de seus corredores e de sua simbólica filtração da comunidade que os cerca, a fluidez esperada dá lugar a uma narrativa não-linear que parte da perspectiva de um adulto recordando de seus tempos na escola.

Pompeia tem um sucesso aplaudível quando pensamos na mensagem que queria nos entregar: afinal, o colégio é uma representação microcósmica da hipócrita sociedade que sempre o rodeou – e que até mesmo hoje se faz muito presente e influente. A começar pelo lema repetido mais de uma vez por Aristarco, que defende a instituição de ensino como um lar para “a fina flor da mocidade brasileira”. Em outras palavras, um lugar elitista que preza não pela popularização da educação, e sim por educar aqueles que merecem – e isso se faz presente já nas primeiras páginas. Não é à toa que a maioria dos pais que colocam seus filhos lá sejam cafeicultores, magnatas, empresários ou amigos pessoais do diretor – e aqueles que não o são, são tratado com uma diferença marcante.

Ao longo de seus anos nas robustas paredes do Ateneu, Sérgio se transforma em um adolescente que percebe que a máxima “o mais forte sobrevive e o mais fraco perece” é real. Afinal, inúmeras personalidades habitam o colégio interno, desde os valentões (representado por Barbalho e sua trupe) até os mais inteligentes e retraídos (Rebelo). E mais: o nosso herói também percebe que deve confiar naqueles que sejam de melhor valia para sua segurança e sua sanidade mental; não é surpresa que, ao longo das páginas, Sérgio praticamente pulule de amizade a amizade, buscando algum conforto emocional que lhe é renegado desde o momento que coloca os pés forçosamente para fora de casa.

É possível compreender a obra como uma tradução amalgamada do Realismo e do Naturalismo, pelo único fato de, em uma mesma narrativa anacrônica, trazer o pior de seus personagens e do real significado de sua própria existência – sempre floreada com discursos filosóficos para enaltecimento moral daqueles que o comandam -, seja pela constante presença do determinismo. Àqueles que não estejam familiarizados com o termo, o determinismo é uma corrente arquitetada por pensadores que declara que o homem é fruto do meio em que vive: Sérgio é a materialização de tal pensamento, visto que molda-se de acordo com aquilo que lhe acontece, entrando em brigas para salvar sua reputação, abandonando “amigos” que se mostram interesseiros e até mesmo enfrentando superiores que não têm em nada a lhe acrescentar.

De forma perceptível, porém muito sutil, Pompeia também abre espaço para falar do despertar sexual dos jovens garotos. Tal momento é breve e se dá logo depois do quase afogamento de Sérgio e sua posterior salvação pelas mãos de Sancher durante uma aula de natação. Após ser retirado da piscina, o protagonista se sente na obrigação de manter-se ao lado do novo colega como forma de gratidão – entretanto, logo percebemos que suas intenções vão muito além disso. É possível inclusive traçar paralelos entre essas sequências e os momentos carnais de O Germinal, escrito por Émile Zola três anos antes: o sexo é compulsório, quase animalesco, e ainda que ocorra entre familiares, é quase mandatório. Aqui, tratando-se de pessoas de uma idade muito menor, o autor faz questão de “deixar no ar” e analisar as consequências de uma negação consciente nas páginas posteriores (Sérgio acaba negando essa aproximação e Sanches se torna seu inimigo).

O drama não chega a beirar o melodramático, apesar do excesso de digressões narrativas que pode cansar o leitor. As quebras ocorrem quando retornamos para o tempo presente e quando temos a presença de D. Ema, a figura maternal que funciona como um respaldo familiar para os meninos – afinal, eles se tornam desamparados em certo momento por estarem por conta própria. E quando pensamos também que tudo está bem, a cena se transforma em uma literalmente tempestuosa briga por comida, regado a uma bebedeira libidinosa que traz o pior de nossos garotos à tona – a descrição da sequência do acampamento é enojante e angustiante para qualquer um que o leia, causando exatamente o proposto pelo romancista.

Pompeia parece endossar uma “previsão” para a sociedade da época ao trazer um trágico e merecido fim ao Ateneu, colocando-o dentro de um incêndio que põe fim à tirania paternalista de Aristarco e colocando em xeque a influência que exerce dentro do mundo em que vive. As palavras finais de Sérgio no livro funcionam como um breve adeus epistolar e deixam em aberto seu próprio futuro – além de recuperar todas as críticas que faz durante a obra.

O Ateneu é uma obra-prima inquestionável, ainda que mais cansativa que obras predecessoras. Mesmo com os poucos deslizes, ainda é inegável discorrer acerca de sua importância para a literatura brasileira – e não é nenhuma surpresa que a atemporalidade da obra se estenda até os dias de hoje.

O Ateneu (Idem, Brasil – 1888)

Autor: Raul Pompeia
Editora: Aillaud & Cie
Edição: 1ª edição de 1888
Gênero: Romance, Drama
Páginas: 324

Comente!