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O texto possui spoilers significativos.

2015 foi o primeiro ano que a Pixar lançou dois filmes, um exemplar e outro bom: Divertida Mente e O Bom Dinossauro, respectivamente. Chegando um pouco depois da estreia nos Estados Unidos, o filme finalmente estreia em território nacional.

Como de costume, a Pixar trabalha com sua principal força motriz – o pitch do E se? E se ratos cozinhassem? E se brinquedos tivessem vida? E se as emoções fossem pessoinhas controlando suas ações? E se só existissem carros no mundo? E se existisse uma sociedade inteira de monstros que vivem escondidos dentro dos armários? E se o asteroide que dizimou os dinossauros ao atingir a Terra há 60 milhões de anos tivesse tomado outro caminho? É com essa brilhante proposta que Pixar trabalha aqui.

O roteiro de Meg LeFauve – inspirado na história criada por mais quatro pessoas, acompanha a jornada do pequeno apatossauro, Arlo. Ele ajuda sua família diariamente com tarefas diárias para manter sua fazenda funcionando até o inverno. Porém, em um dia incomum, Arlo descobre um ser estranho roubando comida e decide persegui-lo na tentativa de recuperar o alimento. No meio da perseguição, o dinossauro se distrai e acaba caindo no rio de forte correnteza próximo a sua fazenda. Ao recobrar a consciência, ele percebe que está muito distante de casa e terá que descobrir o caminho de volta. A boa, ou má, notícia é que ele fará essa jornada ao lado do ladrão de sua colheita, um menino humano selvagem.

É inegável, O Bom Dinossauro passa longe do brilhantismo fantástico que a Pixar tem ao executar suas ótimas ideias. Talvez a fraqueza da história do longa tenha relacionamento direto com a produção conturbada do filme – boa parte da equipe abandonou o projeto resultando em alguns adiamentos de um filme que levou quatro anos para ficar pronto. A base da história é simples e faz uso de diversos clichês sem agregar muita coisa neles.

O retorno à casa, a provação física, a conquista da independência e a domação dos sentimentos é o cerne da proposta da narrativa. Para isso, temos características vindas diretamente de outros clássicos da animação como Dumbo, O Rei Leão, Era do Gelo, Mogli e, principalmente, Irmão Urso. Isso se dá principalmente no vínculo que Arlo cria com Spot, o menino humano, pois a amizade dos dois nasce de uma grande tragédia.

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Para salvar o longa de um grande marasmo durante a jornada de Arlo, a roteirista insere pontualmente novos personagens que servem para injetar vida a história até sua conclusão. Depois de um tempo, isso se torna um padrão, porém não incomoda, pois a cada novo coadjuvante, novas ideias são apresentadas.

As ideias são boas sim quando elas surgem. É interessante ver como a roteirista trabalha a mistura clássica do road movie aliado à atmosfera texana a la western. A começar, no filme, sempre temos uma ampla demonstração entre natureza selvagem vs. natureza domada e civilização. Ela apresenta essa nova “sociedade” de dinossauros e a evolução do modo de vida dos animais. Temos algum desenvolvimento tecnológico, incluindo a agricultura e a pecuária. Além disso, há o desejo pela eternidade representada na marca que a família da Arlo faz no silo como uma forma de recompensa por um trabalho grandioso.

Ela também explora um pouco o ambiente e a dinâmica familiar de Arlo em sua fazendo, mas é uma pena que tudo isso seja superficial na maioria do tempo – banalidade e Pixar não combinam. A superficialidade tange outros personagens também. As únicas figuras um pouco complexas são Arlo e Spot – ainda que os seus conflitos sejam clichês, explorados na repetitividade e que tenha uma resolução fraca usando outros artifícios clichês para finalizar o filme.

No que tange os personagens, ao menos em Arlo, temos um caso crônico de sofrimento, dor psicológica e física – o personagem se esborracha em pedras, é atropelado, aprisionado, caçado, fica repleto de hematomas, sofre com agentes depressivos e é acometido por melancolia. Nunca em um filme da Pixar vi um personagem sofrer tanto como o pequeno dinossauro. Se levar isso em consideração, eu sinceramente não recomendo o filme de forma alguma para crianças muito sensíveis, pois ele toma decisões muito curiosas que não agradarão de forma alguma diversos pais e assustarão crianças mais novas ou menos maduras.

Primeiro, tomando de O Rei Leão, o pai de Arlo tem uma morte trágica fazendo o protagonista acreditar, em partes, que a culpa de óbito seja dele – enquanto isso é explorado, Arlo joga a culpa da morte em Spot o que não é verdade. Temos então um raciocínio um tanto infantilizado para o protagonista e sua transformação se dá justamente nisso: na busca pela independência e na perda da inocência – algo bem corajoso para um filme que mira sua audiência na faixa etária de 4 a 10 anos. Além disso, a característica que define o réptil é a covardia. Arlo vive dando chiliques, clama por socorro, tem medo da própria sombra, além de carregar a estigma de ser o “patinho feio” da família.

Logo, há um choque de realidades na proposta intimista deste longa. Leve em consideração isso, esse filme tem um tom diferente, apesar de ser mais simples. A beleza dele se dá através da interpretação nos detalhes e em suas sutilezas. Como havia apontado anteriormente, Arlo, após ser jogado na natureza selvagem, encontra alguns outros dinossauros que tem funções narrativas distintas.

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O primeiro encontro com um personagem fora do núcleo principal é com um velho e paranoico paquirinossauro. O coadjuvante tem uma única função na narrativa – dar um nome a Spot. Então, dentro do filme, é outro bicho superficial e pouco trabalhado que nos deparamos. Porém, fora do filme, com alguma reflexão, é possível interpretar que ali começa a ser trabalhada uma das mensagens principais do longa: a família. Naquele primeiro encontro, Arlo ainda não sofreu a catarse. O dinossauro, na verdade, passa a ficar mais covarde por sofrer o trauma de perder seu pai em meio a um dilúvio. Porém, Arlo e o estranho dinossauro, compartilham da mesma covardia e da solidão mesmo que ela seja recente em Arlo. O outro dinossauro já é mais velho, acostumado a ficar sozinho ou com outros bichos que não dominam a fala – os quais ele transforma em totens de proteção. Logo, esse estranho encontro tem outra função: avisar a Arlo em uma premonição hipotética que se ele permanecer sozinho e covarde será tão lunático quanto o paquirinossauro. Sim, é cruel, mas como havia dito antes, esse filme é estranho em sua execução, pois enquanto aprofunda a reflexão, ele oferece uma história mais frágil e boba quanto bolhas de sabão.

A esquizofrenia estilística do roteiro persiste até o final trabalhando nessas dicotomias: solidão e família, covardia e bravura, egoísmo e gentileza. Não há meio termo, é tudo oito ou oitenta com O Bom Dinossauro. E isso é raríssimo com a Pixar.

Seguindo nossa análise, outra escolha interessante abordada pela roteirista e que com certeza contou com a opinião do diretor, Peter Sohn, é a troca de papéis. Os dinossauros, em sua maioria, são os seres que desenvolveram a linguagem, a tecnologia e também traços civilizatórios, ou seja, são antropomorfizados. Enquanto os humanos, representados por Spot, são animalizados, bestas selvagens, fortes, independentes e contam com domínio amplo da natureza sem o uso de instrumentos. No caso de Spot, o homem é um cão. Toda sua movimentação, gestos, expressões faciais nos remetem a nossos amigos caninos. Céus, o personagem tem até nome de cachorro! E essa ideia sutil com execução bruta me encantou, lhes confesso. Afinal, o normal seria pensar em quão legal seria ter um dinossauro de estimação que te defenda de todos os males, seja seu amigo para todas as horas e que seja leal até a morte. Bom, aqui justamente é o dinossauro que tem um humano de estimação. Porém, seguindo o cinismo refinado do filme, Spot é quem salva Arlo de todos os perigos encontrados na jornada.

A relação entre os dois é encantadora, assim como boa parte das sequências destinadas a envolver a amizade deles – só há uma um tanto fora de tom com uma cena alucinógena meio estupida. O legal é que, dada a limitação da linguagem, a amizade dos dois é construída através de ações físicas e trocas de olhares carregados de ternura e euforia – assim como na infância onde participamos de brincadeiras menos intelectuais e mais físicas como esconde-esconde ou polícia e ladrão. Logo, novamente, é mais “mostração” do que “contação”. Por isso a quantidade de diálogos é diminuta em comparação com filmes mais verborrágicos como Divertida Mente.

Então, obviamente, isso afeta a (rara) comédia que é muito menos refinada do que outros filmes da produtora. Aqui se faz o uso extensivo do slapstick mesmo quando o diretor corta o tom leve para inserir uma tragédia repentina – vide a tentativa solitária de Arlo em comer algumas frutinhas.

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Por sinal, o diretor Peter Sohn, mesmo que movimente a câmera com lindos movimentos e nos estonteie com enquadramentos de tirar o fôlego, não parece saber encontrar o tom que o filme quer seguir. Ou há momentos demasiadamente sombrios ou há cenas de encher os olhos de tão leves e bonitas. Isso ocorre constantemente. A proposta do diretor é a mesma da roteirista: amadurecer Arlo enquanto ele enfrenta seus medos ao sair de sua zona de conforto. No segundo encontro com outros dinossauros, um grupo de pterodáctilos, Sohn força o cinismo do filme.

Depois de outra forte tempestade – Sohn usa pelo menos três grandes tempestades para pontuar o crescimento emocional do protagonista, Arlo e Spot encontram os dinossauros alados. No texto, tudo leva a crer que eles são uma espécie de grupo de resgate. Nisso eles encontram um bichinho felpudo e fofinho que está aprisionado entre destroços de árvores. Acreditando fazer uma boa ação, Arlo aceita os pedidos de ajuda dos pterodáctilos. Após salvar a criatura, eles parabenizam Arlo – Sohn mostra tudo em closes para mostrar o bichinho resgatado. Então, numa fração de segundo, o diretor choca ao mostrar os dinossauros engolindo o mamífero e depois lutando entre si pela sua carcaça morta. Sim, é de fato pesado e é gráfico, além de tornar Arlo um cúmplice passivo dos vilões. Porém, mesmo que eu ache desnecessário esse tipo de abordagem, acredito que pelo setting pré-histórico e selvagem do filme, faz todo o sentido. Ali é mais um momento no qual Arlo é confrontado pelo terror da natureza, a fragilidade da vida e da cadeia alimentar. Novamente Arlo percebe que seu lugar é na segurança de sua fazenda onde tudo é confortável e tranquilo. Em tese, podemos dizer que o retorno de Arlo é a busca por sua Pasárgada pessoal. E também, em termos narrativos, o diretor finalmente encontra os antagonistas da trama – igualmente superficiais a outros personagens.

Logo antes disso, para ilustrar bem essas mudanças de tom repentinas que Sohn elabora, o diretor cria a cena mais bela do filme inteiro e bem pode ser uma das mais poderosas da Pixar. Trata-se de uma representação visual da família de modo bem primitivo na forma, mas muito elaborado na ideia. Íntimo, singelo e simples. Aquece nossos peitos e enchem os olhos de lágrimas de tão forte que a cena é revelando que o diretor consegue sim ter uma sensibilidade inexistente no filme até então. Também, para dar origem a essa cena, o diretor utiliza mais uma vez outra característica forte do filme que é a mágica entorna da figura dos vagalumes. Sabiamente, após a perda do pai, Arlo mostra a Spot os insetos luminosos – refletindo instantaneamente uma relação paternal com o garoto. Entao eles acompanham um vagalume perdido que sobe para o céu noturno perdendo-se entre as infinitas estrelas – o que evoca a lembrança da figura paterna e da família. Enfim, é um belíssimo momento.

No terceiro encontro com novos dinossauros, novamente é trabalhada outro ponto de guinada para o personagem que só havia conhecido a violência e a paranoia na natureza selvagem. Fina ironia, Arlo e Spot são acolhidos por uma família de tiranossauros nômades que vagam com seu rebanho entre o ermo. Aqui é explicito o tom aventureiro tirado dos westerns. Nessa passagem, ao contrário do que acontece com os pterodáctilos, Arlo é incentivado a ser corajoso pela primeira vez em sua vida. Finalmente vemos o personagem amadurecer um pouco – infelizmente o parceiro Spot permanece simples até o fim do filme. Com esses tiranossauros, o diretor emenda outra mensagem para definir outra dicotomia entre a selvageria e a civilização – o controle da fome. Enquanto os pterodáctilos e os raptores caipiras agem na base da violência para conseguir sanar seu apetite, os apatossauros e tiranossauros possuem sua própria produção de alimentos através da agricultura e pecuária o que também explica uma espécie fixar propriedade enquanto a outra prefere o nomadismo. Logo, com base nessa interpretação, entende-se por que uns seres são mais racionais e menos selvagens que outros.

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Permeando o extrafilme e sobre o que de fato está no filme, o diretor elabora uma reflexão até mesmo filosófica sobre a figura do rio caudaloso assim como faz com as tempestades. No começo do filme, o rio que elimina o pai da vida de Arlo, mas ele se salva. Não chega de fato a entrar no rio. Quando o protagonista enfim cai no rio enquanto persegue Spot, ele chora pela mãe, se debate sem saber nadar e se desespera. No clímax após o uso de alguns clichês – catarse pelo delírio, Arlo entra no rio mais uma vez, só que voluntariamente, na tentativa de salvar Spot. O dinossauro enfim perde seu medo do rio que tenta tirar tudo aquilo que ama. Arlo finalmente vai domar a natureza, vai exibir sua independência. E de fato ele consegue tudo isso. Temos o personagem transformado em um herói.

Toda essa emblemática em torno do rio me lembrou muito a filosofia de Heráclito, panta rei, tudo flui. Isso é sintetizado pelos escritos de Simplício onde conhecemos a máxima, “nunca um homem entrar no mesmo rio duas vezes”. Bom, nesse caso, o dinossauro. No âmago, Arlo está transformada na segunda vez que entra no rio. E o rio também não é o mesmo, apesar de ter função narrativa similar ao do primeiro encontro.

Enfim, é evidente que isso pouco importa para uma criança ou para um espectador que só está procurando uma boa história vinda da Pixar. Porém, essa beleza nos detalhes, esses cuidados e reflexões foram o que salvaram o filme para mim, pois de fato a história em si não surpreende em nada em meio a tanta previsibilidade e clichês. Portanto, existe muito mais do que os olhos podem ver em O Bom Dinossauro.

Porém, no que tange de fato a visão, este novo filme entrega o melhor trabalho da Pixar em toda sua história de sucesso. Temos uma animação absolutamente espetacular. Vemos a respiração dos dinossauros, sentimos as toneladas enquanto os fantásticos animais se movem pelo cenário esmagando suas patas, as expressões sempre muito variadas repletas de olhares que exclamam a vida desses seres digitais. Entretanto, estranhamente, a animação não é o fator predominante de destaque, mas sim o trabalho monstruoso que fizeram na texturização de elementos e na física deste longa.

Todos os cenários do filme são fotorrealistas em contraponto com os personagens de traços cartunescos. É como se fosse mais um cinismo do filme em dizer que tudo envolvendo nossos protagonistas trata-se de fantasia, uma ilusão onírica que dá vida ao cenário, esse sim, real, físico e sublime. Para se ter uma pequena ideia é possível ver a luz de fogueiras ou solar reagindo entre as escamas dos dinossauros enquanto eles se movem. Fora que todo esse trabalho de iluminação é constantemente alterado já que os bichos ficam molhados de tempos em tempos. Aliás, todo o trabalho de iluminação é muito bem pensado durante o filme inteiro para tornar sempre a atmosfera a mais palpável possível.

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 Continuando sobre as texturas, desde as ranhuras das folhas comidas por insetos até o aspecto áspero da rocha castigada pelo sol. Do cascalho arranhado do rio, da translucidez de suas águas por vezes espumada, das nuvens gordinhas que revelam efeitos divinos de god rays entre tantas outras características impecáveis. Já na física temos as belíssimas animações do farfalhar das folhas, dos cabelos, de pelos reagindo ao vento, além do intenso trabalho envolvendo a água, desde os filetes que escorrem pela face dos personagens até as águas revoltas do rio que explodem entre si, em rochas ou personagens.

O Bom Dinossauro não passa perto do brilhantismo apresentado por outros filmes originais da Pixar, infelizmente. Ele traz boas ideias, mas as explora pouco. Fica preso em contar uma história sobre retorno e provação pessoal que já foi contada milhares de vezes antes. Também sofre com o fato de ter poucos dinossauros para as crianças contemplarem, além de se perder no tom por vezes violento demais para catalisar reações dos personagens – mesmo que faça sentido dentro da proposta e de eu mesmo louva a coragem narrativa em exibir essas passagens.

Porém, temos uma história inofensiva com alguns bons personagens, além de nos presentear com o melhor nível de detalhes, texturas e animação que a Pixar já nos apresentou. Também temos a trilha musical absolutamente fantástica dos irmãos Jeff e Mychael Danna que conferem todo o ar único e mágico em diversas sequencias. Além de termos todos esses detalhes que estão sugeridos pelas sutis características do filme que abordei no texto. A mensagem do longa também é relevante, mesmo que seja uma repetição de outras animações consagradas.

O Bom Dinossauro evoca a importância da união, da família e da superação dos medos. Conta que somente juntos, é possível vencer e conquistar o amanhã. Trata-se mais um ótimo trabalho desse estúdio maravilhoso que nos conquista, periodicamente, desde 1995 e que com toda certeza continuará nos apaixonando por décadas a fio.

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