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O primeiro trimestre para lançamentos comerciais nos cinemas geralmente é reservado para os filmes bomba dos estúdios. Longas tão ruins e de baixo potencial de público que praticamente passam despercebidos em meio a tanta correria típica do início de um novo ano. Claro que essa regra não se aplica ao Brasil já que temos as estreias dos tão aguardados filmes do Oscar que quase sempre esbanjam tremenda qualidade.

Porém, mesmo preparado psicologicamente para encarar alguns filmes ruins nesse período do ano, nada poderia me preparar para a verdadeira bizarrice que se trata O Chamado 3. Outrora um filmão de terror em sua estreia com uma atmosfera inquietante, boas atuações, condução muito competente de Gore Verbinski, além de uma narrativa lotada de mistério, O Chamado foi reduzido a um filme de comédia involuntária. Nada pode te preparar para a experiência proporcionada por essa terceira parte. Nem mesmo esta crítica.

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Don’t

S.O.S – Sistema Operacional Samara

Três mentes pensaram na “brilhante” história de O Chamado 3: David Loucka, Jacob Estes e o infame Akiva Goldsman, um dos piores roteiristas do ramo. Esse é o melhor exemplo que nem sempre mais cabeças pensam melhor do que uma. A premissa até que é interessante. Um professor de biologia, Gabriel (Johnny Galecki, o Leonard de The Big Bang Theory, já tornando difícil levar o personagem a sério), compra um aparelho de VHS em um antiquário.

Ao ligar o aparelho, Gabriel descobre a fita Watch Me, o vídeo maldito que provoca a ligação de Samara avisando sobre os 7 dias. Nisso, a trama apresenta os dois outros personagens, um casal, que guiarão a história pelo restante do filme. Depois de algumas descobertas, o namorado de Julia assiste ao vídeo amaldiçoado. Para salvá-lo, Julia assiste a cópia tomando a maldição para si. Porém, o que ela não esperava, é que sua maldição é diferente e muito mais intensa do que as que já conhecia. A partir de visões, o jovem casal terá que resolver um grande enigma para quebrar a maldição de uma vez por todas.

O que já dá para perceber é o quão burocrático o roteiro é. A história começa três vezes antes de engrenar o conflito majoritário indicando o propósito da narrativa. Temos um prólogo completamente desnecessário que apresenta um ataque de Samara em um avião em pleno voo que já define, involuntariamente, o tom de pastiche que o longa carregará em sua totalidade.

Apesar de mudanças tão drásticas para justificar encontros que não precisavam de todo esse “cuidado”, os roteiristas apresentam boas ideias sobre um filme que teria sido mais interessante de assistir. Como já devem ter percebido, a história de O Chamado 3 é praticamente a mesma de O Chamado. Apenas mudaram algumas regras do jogo, definiram um novo mistério e colocaram outra protagonista para solucionar uma ameaça maior. A sequência lógica é praticamente a mesma da estrutura do original. Até mesmo revisitando o clichê clássico do “fantasma benigno que só quer a sua ajuda, mesmo tentando te matar a cada três cenas” que já pintou nessa franquia.

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Tem o Leonard.

A boa ideia apresentada se trata do grupo de estudos de Gabriel, o professor aloprado de biologia, em tentar trabalhar a maldição de Samara em método científico, comprovando a vida após a morte. Para isso, ele dissemina a maldição para alguns alunos já os ensinando como se livrar da morte certa através das cópias do vídeo – que aqui tudo foi modernizado para usar gadgets eletrônicos contemporâneos como notebooks e smartphones. Essa espécie de “seita científica” teria sido uma das maiores proezas do texto abissal de O Chamado 3, porém, os roteiristas, em vez de enxergarem a oportunidade de criar uma história original em cima dessa ideia, rapidamente a descartam para trilhar o mesmo caminho da narrativa dos filmes anteriores.

Ou seja, o único ponto original que esse filme possuía, é abandonado rapidamente. Os diversos problemas do texto não necessariamente surgem a partir do ponto que os protagonistas investigam o passado “não revelado” de Samara Morgan. O festival de conveniências narrativas e diálogos expositivos beiram o absurdo, principalmente por conta de Julia se tornar uma verdadeira “xeroque rolmes” a partir do segundo ato que concentra o miolo da investigação do casal a respeito de Samara.

A mulher presume tanta coisa tão rápido que torna passagens do texto que deveriam transbordar tensão, em verdadeira comédia, pois Julia atesta o óbvio para toda a plateia. Alguns exemplos da exposição: “Prenderam ela aqui! Ela viveu aqui! Eu estava lá e nem percebi! ”. Até mesmo em passagens de solilóquio, quando a personagem fica completamente sozinha, Julia já se prontifica a explicar para si mesma que tal personagem morava ali ou quem estava grávida, etc.

Dentre tantos clichês do gênero, O Chamado 3 consegue atingir elementos mais graves pela cópia de conceitos de filmes muito recentes e melhor realizados. As principais influências são Premonição e Corrente do Mal para a primeira metade e O Homem nas Trevas para a segunda. E mesmo se “inspirando” em histórias melhores, o filme não consegue decolar.

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Clássico: fotografia clara e colorida no começo até ficar completamente pálida e sombria ao fim.

Muito vem do fato do mistério não engajar ninguém, já que é difícil simpatizar com os personagens seja devido a nulidade de desenvolvimento ou pelos diálogos horrorosos. Logo, o terror que se pretende fazer é flácido, pois é difícil ligar para os personagens que não tem desejos, histórias próprias ou até mesmo um passado. Tudo jogado no pouco carisma dos jovens atores. Os roteiristas criam detalhes do mistério que servem para reviravoltas nada impactantes e também de quase nenhum sentido.

Praticamente nada tem uma lógica aparente, pois detalhes importantes da história são deixados de lado, esquecidos ou mal explicados. Outros problemas narrativos surgem com a inserção de novos personagens no segundo ato, principalmente do cego Burke, interpretado com boa vontade por Vincent D’Onofrio que, involuntariamente, arranca risadas pela óbvia associação de um dos seus papéis mais famosos: o Rei do Crime no seriado do Demolidor, um super-herói cego.

Não obstante em apostar nos caminhos mais manjados para delinear sua narrativa, os roteiristas conseguem embalar a crítica/analogia mais estúpida contra o cristianismo que eu já tenha visto em um filme de terror. Hollywood tem uma obsessão em pintar o cristianismo como o algoz da humanidade. Em certos filmes, isso funciona e ajuda a qualidade da história criando obras geniais como A Profecia e O Exorcista. Já em O Chamado 3 é extremamente gratuito que só consegue afundar ainda mais a deplorável qualidade do filme.

Em um momento específico, jogando uma situação bem similar a uma sequência de O Chamado, um personagem pega uma estola – o “cachecol” sagrado usado por padres em datas comemorativas, estampada com uma imensa cruz dourada para sufocar uma personagem enquanto prega orações. Não contentes com esse tipo de “simbologia”, ainda forçam uma equiparação esdrúxula inferindo que Samara seria um “Jesus Cristo” naquela diegese – que inclusive contou com 12 “seguidores”. Péssimo, simplesmente péssimo.

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Azar de Principiante

Com uma história tão abissal, o que há para se salvar em O Chamado 3? Bom, nada, pois a direção e outros aspectos técnicos não conseguem marcar algum ponto relevante. A direção do estreante F. Javier Gutiérrez é competente no sentido mais básico possível: o filme é cinematográfico, como obrigatoriamente há de ser. Logo, há um cuidado simples com movimentação de câmera, jogos de magnetismo de plano e contraplano, além de alguma tentativa com simbologias e pistas visuais que são tão óbvias que revelam as reviravoltas previsíveis.

Porém, na sua função de tentar salvar o texto criando uma atmosfera genuína de terror, Gutiérrez falha bastante. É difícil ficar apreensivo por conta de sua mão pesada na encenação que praticamente revela onde um jump scare aparecerá por conta de algum barulho alto. Como na franquia de O Chamado os roteiristas quebram constantemente a regra mais básica: veja o vídeo e morra daqui sete dias, a direção arrisca flertar com outros clichês de encenação em vez de apostar na atmosfera densa e marcante do filme original.

Logo, diversas cenas têm essa comédia involuntária causada pelo exagero do diretor vide, novamente, a infame sequência do avião. Coisas básicas do gênero como a relação entre claro e escuro, solidão e confronto com a criatura são ineficazes pela completa falta de identidade que a encenação desse filme sofre. É algo batido demais que só deve assustar criancinhas.

Algumas ideias visuais são interessantes e até mesmo uma explícita simbologia com o mito de Morfeu parecem tentar elevar a chatice completa que é assistir a esse filme. Mas, como de costume, roteiro e direção tendem a esquecer as boas ideias e investem em peso nas piores. Outros elementos manjados do trabalho de Gutiérrez é a presença constante do número 7 em diversas cenas.

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O caso de miscasting mais bizarro de 2017.

Outro bom exemplo de como suas decisões são equivocadas é o momento que Julia encontra o grupo de estudos do professor Gabriel. Ela se depara em um corredor mal iluminado que praticamente anuncia perigo. Depois, ao abrir uma porta, ela encontra a sala divertida dos encontros com música e joguinhos para todo o lado. São mudanças tonais bizarríssimas que permeiam a experiência inteira. Muitos dos problemas de atmosfera vêm justamente da péssima trilha musical de Matthew Margeson que parece não ter muita ciência de que compôs músicas para um filme dito de terror.

Altas, de melodias mais convenientes a filmes de super-herói, Margeson destrói a encenação através da trilha equivocada e da má inserção em diversas cenas. Gutiérrez, já sabendo que uma história como O Chamado é mais complicada de provocar sustos, não busca mimetizar o clima criado por Verbinski que exalava paranoia e presença maligna constante. Ele escolhe o caminho mais fácil: criar os jumpscares mais idiotas que você verá por um longo tempo.

Ele tenta te assustar sempre com a sonoplastia e através de transições ordinárias da montagem. Seja com um personagem abrindo um guarda-chuva, outros dois invadindo um quarto durante uma sessão de confidências via Skype, alguém quebrando uma janela com um tijolo, um cachorro latindo e outras coisas marginais bobocas. O terror e medo genuíno ficaram para trás, a comédia prevalece.

Fora o enorme problema que é o roteiro em termos de didatismo e exposição estúpida, a direção de Gutiérrez não fica atrás pegando vícios de Gore Verbinski no primeiro filme, mas os usando em extremo exagero. Toda bendita vez que a personagem visita um local que esteja no novo vídeo surrealista amaldiçoado, o diretor já encaixa rápidos frames com os filtros visuais rudimentares para que o espectador ateste o óbvio: se tratam do mesmo lugar e que a mocinha está cada vez mais próxima de concluir o mistério.

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C.S.I.: Samara

O Fundo do Poço

O Chamado 3 leva Samara aos níveis do pré-sal em termos de qualidade cinematográfica. A ressurreição da garotinha que mata quem ousar assistir ao seu vídeo-arte não consegue nem atingir a margem da mediocridade. As pouquíssimas boas ideias, o cuidado estético simplório do design de produção e fotografia são completamente obscurecidos ou “tampados” pelo trabalho horroroso da direção inexperiente, da trilha musical equivocada e, principalmente do roteiro esburacado que recicla os dois filmes anteriores a fim de engrenar uma promessa de uma nova “aventura”.

Difícil recomendar até mesmo como entretenimento banal, já que como terror, é um fracasso. Já como comédia, um sucesso. O maior medo de Samara pode ser testemunhado aqui: definitivamente, O Chamado chegou ao fundo do poço.

O Chamado 3 (Rings, EUA – 2017)
Direção: F. Javier Gutiérrez

Roteiro: David Loucka, Jacob Estes, Akiva Goldsman
Elenco: Matilda Lutz, Alex Roe, Johnny Galecki, Vincent D’Onofrio, Aimee Teegarden, Bonnie Morgan
Gênero: “terror”
Duração: 102 minutos.

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