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O Declínio do Império Americano talvez seja um dos longas canadenses mais famosos ao redor do globo. Principal responsável por catapultar a carreira do diretor Dennys Arcand, Declínio é uma comédia do nicho quase esgotado sobre a famigerada “guerra dos sexos” com a abordagem distinta de fazer humor entre a ridicularização do discurso intelectualóide de integrantes acadêmicos das universidades.

A intenção de Arcand é justamente remover essa película turva e andrógina que a academia projeta em si mesma ao configurar discursos monótonos tão neutros que raramente conseguem despertar o interesse das massas. A hipocrisia entre o discurso público pedante e a esfera pessoal é o alvo do diretor que faz questão de contrastar uma frieza inicial com o trabalho para o calor das discussões envolvendo suas vidas privadas.

Guerras Cartesianas do Sexo

Acompanhamos oito integrantes em um grupo heterogêneo, mas com grande predominância de intelectuais que lecionam em faculdades canadenses em uma viagem para o interior. Em primeiro momento, a narrativa é separada em núcleos opostos: um focado totalmente nos homens que preparam toda a comida de um almoço festivo, e outro concentrado nas mulheres que relaxam durante a tarde em uma academia.

A sacada dessa primeira metade é inverter o jogo de clichês ao colocar as mulheres para malhar enquanto os homens cozinham, trocando os espaços sociais perpetuados por diversos anos em filmes românticos ou de comédias românticas noventistas de Hollywood. Por trazer o efeito cômico justamente pelo inusitado na época, o longa já ganha bons pontos ao prometer um entretenimento de muita qualidade, embora isso rapidamente se revele uma falsa impressão.

Não que O Declínio do Império Americano seja um filme ruim, mas também passa longe de ser uma experiência memorável. Arcand se baseia firmemente no estilo cômico dos filmes de Woody Allen e também na estética praticamente nula ou simples em excesso. O fato é que visto em 2018, o longa canadense é bastante datado com humor batido envolvendo tiradas clássicas sobre sexualidade e inseguranças masculinas e femininas durante as atividades entre quatro paredes.

O que mais interessa no texto é a sinceridade que ambas as partes têm com seus amigos enquanto traem os cônjuges por anos a fio de modo egoísta, tornando a relação mais íntima do casamento em algo frígido e banal. Ou quando busca semelhanças no discurso preconceito de ambos os sexos, apesar do véu da moralidade feminina. Isso sustenta bem a primeira metade do longa focada na montagem intercalada entre os grupos, além de apresentar flashbacks curiosos sobre as aventuras sexuais que compartilham entre si.

Pela força do elenco e das risadas genuínas, o filme conquista a atenção do espectador, mas isso logo decai quando os dois núcleos enfim são reunidos. Surge um inesperado melodrama envolvendo um casal relativamente afetado pelas traições do marido, além de uma pesada insistência na integrante mais jovem do grupo, revelando certas características nada usuais. Há ainda algo mais estranho como a inserção da narração over citando trechos românticos ou dramáticos em excesso.

O problema principal da escrita de Arcand talvez esteja centrado na repleta falta de empatia que esses personagens consigam gerar com o espectador. Muitos falam deles próprios em histórias que podem não despertar interesse algum, além de claramente o diálogo ser tão maquinal a ponto de perder a fluidez e organicidade. Por vezes, simplesmente não funciona.

O Risco da Idade

Em 1986, O Declínio do Império Americano realmente deve ter sido inovador e justamente por isso, merece certa consideração maior por parte do público. O longa quebrou alguns paradigmas dessas ditas “comédias de grupo” focadas em rodas de conversas monótonas e foi além ao apresentar com naturalidade homens e mulheres falando sobre sexo e suas aventuras românticas fora do casamento, além de outros tabus ainda muito sensíveis na época.

Hoje pode parecer que faça pouco sentido com o humor datado que até mesmo pode ser apontado como preconceituoso, mas não vejo dessa forma. O longa simplesmente envelheceu mal por fatores mais ligados a sua estética sonolenta e criação de personagens nada envolventes do que o próprio tema abordado.

O Declínio do Império Americano (Le déclin de l’empire américain, Canáda – 1986)

Direção: Denys Arcand
Roteiro: Denys Arcand, Gabriel Arcand
Elenco: Dominique Michel, Louise Portal, Pierre Curzi, Rémy Girard, Yves Jacques
Gênero: Comédia
Duração: 101 minutos.

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