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Há um estigma acerca de celebridades e figuras de grande importância para a História mundial que é o da desumanização. Seja nos livros ou em sua retratação midiática, nomes como Rainha Elizabeth II, Margaret Thatcher e semelhantes sempre foram enxergadas como representações inalcançáveis e imateriais de ideais político-ideológicos. E é claro que tal estigma normalmente converse com o extenso e constante reconhecimento que o núcleo governamental do Reino Unido tem desde seus primórdios – não sendo nenhuma surpresa que, na última década, haja uma tentativa de levar suas reais narrativas para um público que se torna cada vez mais mainstream.

Se Meryl Streep conseguiu nos encantar com seu retrato da única primeira-ministra do parlamento inglês em A Dama de Ferro, e Claire Foy roubou a cena em sua rendição como a contraditória governanta real na série The Crown, o fato de que Joe Wright tenha resolvido investir seus esforços para um relato mais poético e abrandado do legado de Winston Churchill também não emerge com grande euforia, mas deixa uma certa expectativa no ar, principalmente se levarmos em consideração sua filmografia que inclui obras-primas como Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação, ambas adaptações cinematográficas de romances atemporais. Aqui, o diretor resgata mais uma vez todos os seus maneirismos e propõe ao público mergulhar de cabeça em uma jornada através de um dos momentos mais tensos da sociedade moderna – o conflito entre Inglaterra e Alemanha durante a II Guerra Mundial.

Baseada na biografia assinada por Anthony McCarten, a narrativa inicia-se no ano de 1940, momento de grande desestabilização política dentro da câmara britânica pelo fato do atual primeiro-ministro, Neville Chamberlain (Ronald Pickup) não ter o necessário para conduzir a nação em meio ao crescente avanço de Adolf Hitler pela Europa, cuja dominação já havia subjugado, à época, países como Holanda e Bélgica. Logo nos primeiros minutos, sentimo-nos em um ambiente familiar com o incrível plano-sequência proposto por Wright em colaboração com Bruno Delbonnel. Através de uma composição clássica e que preza pelo plongée absoluto, a câmera centralizada desliza de modo simétrico em meio ao debate caótico entre as duas partes do parlamento, mediadas sem sucesso por um juiz sem poder e por ataques entre os dois líderes.

Desde o princípio, o diretor permite brincar com os aspectos contraditórios que tanto o roteiro quanto a própria História permitem, dentro do escopo em questão. A partir disso, ele utiliza-se de inúmeras técnicas sobre as quais têm bastante domínio para fornecer uma perspectiva mais abrangente e intimista da vida de Churchill, começando com seu retorno para o “alto-escalão” após o desastre do governo anterior – e sua primeira aparição no longa é extremamente significativa: assim que decide-se colocar o homem como responsável pela condução do Reino Unido em meio à guerra, a cena muda da majestuosidade de Windsor para a imponente casa do protagonista, no momento em que uma datilógrafa, Elizabeth Layton (Lily James) é contratada para ajudar-lhe na escritura dos telegramas. Assim que ela entra no quarto, um velho e já exaurido Winston Churchill (Gary Oldman) acende seu charuto, embebido por uma escuridão plena apenas para ter suas feições marcadas pelas faíscas do fósforo (a “luz no fim do túnel”, por assim dizer).

Fincando-se com exímia cautela nessas concepções imagéticas, Wright explora quase de forma abusiva desses jogos simbólicos através de sua obra, incluindo no repertório o constante uso do zoom e da pragmática centralidade para aumentar a atmosfera de tensão e angústia. É claro que, depois de um tempo, tudo isso se torna repetitivo, mas compreensível, visto que a narrativa funciona basicamente como um ciclo vicioso: ao longo de seus 125 minutos, cada um dos clímaces conversa com os três complexos discursos proferidos pelo primeiro-ministro como forma de desafiar a derrota iminente – traçando paralelos inclusive com os eventos de Dunkirk – e entrar em guerra com o líder nazista, contrariando todas as tentativas de se chegar a um acordo de paz idealizado pela maior parte do parlamento.

Infelizmente, o longa se torna monótono pelas razões erradas e que poderiam sim ter sido previstas. Primeiro, trata-se de uma história baseada em fatos reais; utilizar-se de elementos verossímeis dentro de uma bolha sócio-política deve ser algo muito bem pensado para que seja compreendida pelo público. Segundo, se pegarmos o âmago do roteiro, as coisas movem-se em uma calmaria quase insuportável – e se você procura por alguma ação, sugiro que vá ver um filme clássico de guerra, levando em conta que tudo é pautado na verborragia extrema. Terceiro, a tão aguardada humanização de Churchill atinge níveis desnecessariamente altos: o protagonista é mais cômico que dramático, e alguns diálogos parecem jogados dentro de uma tentativa mais adocicada de representar tal figura política, em sequências um tanto quanto soltas se analisarmos a completude da obra. Essa mescla de tons narrativos tem potencial, mas ele infelizmente não é explorado com o mesmo apreço que sua composição estética, por exemplo.

Entretanto, não se pode tirar crédito da incrível e emocionante performance de Oldman. Além de estar irreconhecível em cena, o ator resgata os trejeitos do personagem sem cair na supersaturação ou na artificialidade, incluindo o crispar dos lábios em momentos mais analíticos e frios, bem como seu caminhar corcunda e pensativo. Mas talvez a maior expressividade ainda esteja contida em seus olhos, os quais correspondem exatamente à atmosfera das cenas.

Há duas sequências que dialogam dentro do filme e que são de imprescindível entendimento para o arco de Churchill e da própria Inglaterra: a primeira traz o primeiro-ministro em seu carro, observando uma paisagem urbana e totalmente tomada por tons mais neutros como o marrom, o cinza e o roxo, numa estética realista-naturalista que se assemelha a uma pintura. Conforme ele observa, seu motorista diz que “as pessoas estão muito calmas. Nem parece que estamos em guerra”. Momentos depois, ao final do segundo ato, temos uma representação muito semelhante da mesma composição, mas dessa vez o cenário é de um dia chuvoso e as pessoas apressam-se para se abrigar, como se previssem a chegada de dias tenebrosos. E é nesse momento que Churchill percebe que, caso queira tomar medidas realmente consideráveis, precisa ouvir daqueles que realmente são as forças-motrizes do governo britânico: o próprio povo.

A aproximação do protagonista com o público também é reafirmada pela trilha sonora: Dario Marianelli retorna para mais uma colaboração com Wright em sua criação caprichosa e com os mesmos ares de Orgulho e Preconceito. Toda a suposta alegria contida no piano e nos violinos logo mostra sua verdadeira pretensão ao servir como base para as epifanias de cada um dos personagens – incluindo os despontes de Kristin Scott Thomas como Clementine Churchill.

O Destino de uma Nação é, em sua maior parte, satisfatório. Com o brilho de um elenco incrivelmente confortável dentro do escopo narrativo, Wright consegue mais uma vez firmar seu nome na indústria do entretenimento, ainda que a completude da obra esteja manchada por algumas investidas equivocadas e que se mostram destoantes de sua mensagem final. De qualquer modo, não espere ver toda a visceralidade da II Guerra Mundial aqui, mas sim uma perspectiva infelizmente tragicômica sobre um dos nomes mais controversos de todos os tempos.

O Destino de uma Nação (Darkest Hour, Reino Unido, 2018)

Direção: Joe Wright
Roteiro: Anthony McCarten, baseado em sua própria obra
Elenco: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Ronald Pickup, Stephen Dillane, Nicholas Jones, Samuel West
Gênero: Biografia, Drama Histórico
Duração: 125 min.

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