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Em toda sua carreira, Robert Bresson testou os limites do cinema como uma arte fria. Mesmo tendo criado obras inestimáveis para o Cinema Francês, o lance com Bresson sempre foi a distância em conjunto com o estudo humano em tragédias intimistas. Ao decorrer de doze longas, o cineasta discorreu sobre diversos campos, mas encontrou o submundo criminoso em O Batedor de Carteiras, um de seus maiores clássicos.

Logo, é curioso que seu último filme, O Dinheiro, um dos mais extremos em sua proposta estética, dialogue tão intensamente com O Batedor de Carteiras. Não somente a nível temático, mas por conta da motivação do crime e suas derradeiras consequências sem pesar moralismos ou fazer julgamentos através das obras.

Efeito Dominó

Bresson adapta um conto de Liev Tolstói para guiar toda a tragédia de O Dinheiro. A história segue o cinismo do efeito cascata ou efeito dominó saindo de uma problemática estúpida até chegar no completo caos e degradação. No início, temos contato com um rico garoto parisiense que pede um adiantamento na mesada para seu pai a fim de pagar uma dívida com um amigo. Com o pedido negado, o garoto e o amigo tentam passar adiante uma nota falsa de quinhentos francos em uma loja de artigos fotográficos.

Conseguindo se livrar da nota e com os proprietários logo descobrindo o golpe, contratam um faz-tudo chamado Yvon Targe, homem simples de classe trabalhadora, para reparar alguns equipamentos na loja. Inocente, o mecânico aceita quase todo seu pagamento em notas falsas que os proprietários repassam e logo acaba encontrando problemas com a polícia quando tenta pagar um café momentos depois. Nessa guinada ao azar, Bresson mostra as consequências dos atos desonrosos na vida de Targe e do balconista da loja, Lucien.

Como disse, não há dúvidas: O Dinheiro é o longa mais frio e fiel à uma proposta estética radical de Bresson, em seu momento mais pessimista. O discurso envolve como o mecanismo do dinheiro favorece rapidamente o florescer da corrupção no homem. Não se trata apenas da moeda, o que Bresson põe em debate é o papel social do dinheiro e como ele afeta nosso dia-a-dia a ponto de estabelecer relações entre nós baseados em preconceitos.

É, obviamente, algo muito idealizado que pode fugir da realidade, mas o modo fixo e inflexível que Brisson filma tudo transforma essa opinião em uma realidade cruel. Isso ocorre por conta do diretor sempre tratar a câmera como um elemento imóvel na vasta maioria do filme, deixando o plano totalmente estático e hermético permitindo somente que o enquadramento comande a encenação. Enquadramentos estes que geralmente trabalham com simetria ou, através da montagem, geram uma ilusão eficiente de continuidade de modo realmente mágico.

Com a imagem gélida, temos uma história tão fria quanto, pois Bresson observa tudo com muita distância. Além de estabelecer as relações humanas baseadas pela quantia de riqueza monetária, também temos o desenvolvimento do protagonista da história, Yvon, que ao se ver injustiçado e renegado pelo mundo, resolve ele mesmo negar a tudo e ceder a completa psicopatia e violência.

Bresson não entra no mérito se nosso protagonista já tinha essa enorme sede de violência ou se apenas foi motivado a entrar no submundo por conta do descrédito de sua honestidade depois de virar vítima de um golpe praticado por pessoas mais ricas que ele. Como o filme também carece de diálogos e as atuações beiram o robótico como bem o diretor gostava, isso nunca é verdadeiramente discutido.

Mas pela eficiência da direção do francês, temos plena ciência da transformação absurda que corrompe Yvon. Curiosamente o mesmo acontece com o balconista da loja que, assim que vê a corrupção dos donos, passa a roubar do caixa e falsificar o fluxo até ser pego e acabar demitido o que o leva para a criminalidade aplicando golpes a diversos cidadãos.

Nessa desesperança, corrupção moral, falta de ética e sede de vingança, Bresson pavimenta o caminho para um dos terceiros atos mais desoladores de toda sua carreira e, quiçá, do Cinema. Nele, vemos Yvon interagir com uma estalajadeira idosa que lhe oferece apoio e uma chance de recomeçar. Nesse segmento, repleto da exploração de texturas, além de contrapor os pecados da cidade contra os do campo, Bresson traz diálogos puros e realmente interessantes que tiram um pouco da monotonia da obra. Seguindo o tom pessimista da obra, temos a reviravolta final absurdamente impactante.

Sendo um filme bem conceitual e de moral aterradora, Bresson traz sua estrutura cinematográfica minimalista, mas aliada com um profundo grau de realismo bastante antiquado que acaba prejudicando o ritmo da obra, já que o diretor basicamente nunca recorra a elipses, por mais simples que elas sejam. Por conta disso, o espectador é obrigado a assistir muitos minutos envolvendo banalidades como o abrir e fechar de portas, caminhadas em corredores, etc.

A Vida como Arte

Sendo seu último longa, Robert Bresson não pesou a mão ou procurou fazer um enorme testemunho que fugisse da condução geral de sua filmografia muito apoiada pelo catolicismo. Em O Dinheiro, o histórico diretor apenas se despede trazendo uma tragédia absoluta que conversa ferrenhamente com a facilidade da corrupção da natureza humana. Desde seus primeiros momentos de existência até virar completamente escrava do dinheiro.

O Dinheiro (L’argent, França, Suíça – 1983)

Direção: Robert Bresson
Roteiro: Robert Bresson, Liev Tolstói
Elenco: Christian Patey, Vincent Risterucci, Caroline Lang
Gênero: Drama, Crime
Duração: 85 minutos.

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