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Sempre fui a favor do cinema de gênero no audiovisual brasileiro, que raramente flerta com produções populares que não sejam comédias de um nível bem baixo – ver as franquias De Pernas pro Ar, Até que a Sorte nos Separe e outras produções com o selo da Globo Filmes. Dito isso, sou a primeira pessoa a se empolgar quando anunciam que teremos um “filme de super-herói” brasileiro com O Doutrinador, lançando convenientemente em um período de eleições presidenciais no país.

A história também é situada em um ano eleitoral, nos apresentando a Miguel (Kiko Pissolato), membro do D.E.A., divisão mais avançada da polícia militar no país. Quando sua filha é morta por uma bala perdida e falece pela falta de apoio de um hospital público, prejudicado pelo desvio de dinheiro de um governador local, Miguel faz justiça com as próprias mãos e assume a identidade do Doutrinador. Agindo como vigilante pela cidade, a figura mascarada persegue políticos corruptos que sejam responsáveis pelo colapso interno do Brasil, contando com a ajuda da hacker Nina (Tainá Medina) ao mesmo tempo em que passa a ser perseguido pelas autoridades do qual ele mesmo faz parte. 

É a premissa básica de um filme do Justiceiro, com Miguel adotando a persona de vigilante violento e que pretendo triunfar sobre as amarras da corrupção, com uma moralidade duvidosa e muita violência. O problema é que falta à equipe de O Doutrinador, tanto no roteiro quanto na direção, maturidade e foco para lidar com sua temática, que parece essencialmente focada em um público mais adolescente. Ao passo em que tenta abordar a situação política do país, O Doutrinador também tenta oferecer entretenimento do nível de séries de TV de heróis – onde acaba soando mais como um Titans do como Justiceiro ou Demolidor, no que diz respeito a valor de choque.

O roteiro assinado pelo batalhão de Mirna Nogueira, L.G. Bayão, Rodrigo Lagos, Denis Nielsen, Guilherme Siman e Gabriel Wainers egue de perto a fórmula desse tipo de narrativa, com a perda do protagonista afetando suas ações subsequentes. Nada de errado com a fórmula, mas é executada através de diálogos tão artificiais e capengas, onde claramente nota-se que os roteiristas pensavam em determinadas frases em inglês (por trazer jargões típicos de blockbusters americanos) e que soam risíveis quando ditos em voz alta no bom e velho português, com “Sou hacker, caralho” sendo um de meus exemplos favoritos. 

O longa também nunca sabe onde se encontra em relação a seu protagonista, tentando oferecer uma mensagem sobre a corrupção, mas tudo soa como um adolescente de 12 anos que acaba de assistir a O Cavaleiro das Trevas e Tropa de Elite 2, sendo a versão mais reduzida e genérica desses dois filmes. A moralidade de Miguel raramente é discutida, com o texto retratando o policial de forma séria e  dramática, enquanto todos os políticos são – literalmente – personagens de quadrinhos altamente cartunescos e exagerados. São dois filmes conflitantes que não parecem entrar em sintonia, e que se perdem na cronologia acelerada do filme, que pula semanas em questões de minutos de forma abrupta.

Dirigido por Gustavo Bonafé – que contou com Fábio Mendonça na co-direção -, é um trabalho que, na maioria do tempo, não prejudica, mas é genérico demais. No pior dos casos, é desesperado para causar um impacto, como a pavorosa sequência da morte da filha do protagonista, que é dramatizada ao extremo com câmera lenta, desfoques de lente e todo o tipo de artifício barato usado para exacerbar um sentimento – algo que acontece com frequência em outros momentos mais dramáticos, que só ficam pior com a trilha sonora óbvia do Instituto. 

As cenas de ação até que são competentes, com Bonafé e Mendonça tendo uma boa noção da espacialidade dos eventos e também da urgência com seus personagens, mas não temos nada de verdadeiramente imaginativo ou inovador aqui, até porque temos poucas cenas de lutas corporais que tragam alguma coreografia elaborada. A sequência em que o Doutrinador invade uma cobertura, sendo auxiliado por Nina através de uma escuta, porém, representa o ponto alto do longa, por finalmente vermos a ideia de um super-herói no Brasil sendo bem executada. Algo bem distante do vício da dupla em tomadas de helicóptero onde o vigilante aparece parado em uma pose dramática no topo de um telhado, que soa artificial demais – e o letreiro em neon do Rei do Mate escancarado só reforça isso.

No setor do elenco, a situação não melhora. Com um texto raso em mãos, não há muito o que Kiko Pissolato possa fazer para aprofundar Miguel, ainda que o ator seja nitidamente esforçado em seu campo dramático, o efeito cômico da entrega das falas claramente afetadas por estrangeirismos são inevitáveis. O mesmo acontece com Tainá Medina como Nina, ainda que a atriz consiga arrancar momentos mais inspirados graças à natureza mais “descolada” de sua hacker, mas que também sofre do problema de superficialidade – com uma subtrama envolvendo sua mãe na prisão jamais dizendo a que veio. No campo coadjuvante, Carlos Betão faz um antagonista minimamente carismático na figura do principal político corrupto da trama.

No fim, o grande mérito que O Doutrinador merece é o de existir. Finalmente temos uma produção nacional que tenta brincar com a fórmula de um gênero essencialmente enraizado na cultura americana, mas que infelizmente não atinge o potencial de sua ideia promissora, faltando um trabalho melhor de roteiro, elenco e exatamente o tipo de filme que quer ser. 

O Doutrinador (Brasil), 2018

Direção: Gustavo Bonafé, Fábio Mendonça (co-direção)
Roteiro: Mirna Nogueira, L.G. Bayão, Rodrigo Lagos, Denis Nielsen, Guilherme Siman, Gabriel Wainer, baseado na obra de Luciano Cunha
Elenco: Kiko Pissolato, Tainá Medina, Eduardo Moscovis, Carlos Betão, Eduardo Chagas, Marília Gabriela, Tuca Andrada, Natália Lage, Eucir de Souza, Gustavo Vaz
Gênero: Ação
Duração: 

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