Quando a Sony Pictures optou por descartar a produção de Homem-Aranha 4, projeto que Sam Raimi já vinha desenvolvendo a um tempo após o sucesso financeiro de seu terceiro filme, um reboot rapidamente foi anunciado. Mesmo com um intervalo de apenas 5 anos, a ideia de O Espetacular Homem-Aranha foi aprovada, o que nos levaria a mais uma origem de Peter Parker e uma abordagem que fosse diferente daquela contada tão brilhantemente por Raimi no primeiro filme do personagem, em 2002.

Assumindo inspiração na linha Ultimate dos quadrinhos, os produtores Avi Arad e Amy Pascal contratam Marc Webb, da comédia romântica hit 500 Dias com Ela, para tocar o barco e apresentar um novo tipo de Homem-Aranha aos cinemas, explorando alguns detalhes nebulosos da mitologia do personagem, principalmente a misteriosa relação com os pais. No fim, o longa de 2012 não tinha nada de espetacular, sendo uma cópia apressada e genérica dos filmes de Raimi, que pontualmente traz seus bons momentos.

A história começa com um prólogo que nos revela a fuga dos pais do jovem Peter Parker, que são perseguidos por alguém e forçados a abandonar uma pesquisa envolvendo a genética de aranhas, deixando seu filho com os tios Ben e May (Martin Sheen e Sally Field). Anos depois, já na forma de Andrew Garfield, Peter segue uma vida pacata no colégio, com uma queda pela colega Gwen Stacy (Emma Stone) e instigado em descobrir a verdade sobre seus pais. A investigação o leva até os laboratórios da Oscorp, onde conhece o Dr. Curt Connors (Rhys Ifans), um antigo colega de trabalho de seu pai, e acaba sendo picado por uma aranha geneticamente modificada, garantindo-lhe poderes que o transformam no Homem-Aranha.

História Nunca Contada… Desse Jeito

É praticamente a mesma coisa que já vimos antes, o que gera um inevitável senso de comparação com o trabalho feito por Raimi em seus longas excepcionais – e ao colocá-los lado a lado, O Espetacular Homem-Aranha leva uma surra homérica. A forma como o roteiro de James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves (inacreditável uma trinca tão eficiente ter errado) balanceia a investigação do passado dos pais com a origem do herói é defeituosa e acaba limitando ambas as narrativas, mas especialmente aquela que motiva Peter e se tornar um herói. Faz falta um “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”, já que Peter simplesmente se torna o Homem-Aranha… Porque o filme precisa que ele se torne, servindo apenas para seguir sua caçada pelo assassino de Tio Ben.

Não temos nada como aquelas incríveis sequências de montagem do primeiro filme, onde Peter desenha no caderno os primeiros rascunhos do uniforme ou quando a câmera nos leva para a rua, coletando depoimentos do público, dos cidadãos comuns, sobre o surgimento do Homem-Aranha. Aqui, é tudo muito rápido e limitado em um universo minúsculo, sendo difícil levar a sério ou se envolver quando personagens como o Capitão George Stacy (Denis Leary) e Peter discutem sobre as ações do herói durante um jantar, já que não vimos absolutamente nada que sirva para sustentar a ideia de que o Aranha é uma figura pública. Nem ao menos o Clarim Diário aparece, figurando apenas em um pequeno easter egg quando vemos uma pilha de jornais na rua. Pode parecer apenas um fã querendo service de ver a figura de J. Jonah Jameson, mas a verdade é que esse núcleo jornalístico é importantíssimo para criar uma interação forte entre o herói e o universo comum da cidade.

O grande diferencial vendido pelo marketing, a tal “história nunca contada” envolvendo os pais de Peter Parker é outra decepção. Temos a criação do mistério, pequenos macguffins como a maleta de Richard Parker, o símbolo riscado do projeto dos Cruzamentos de Espécies e um fio condutor que praticamente move todo o primeiro ato. Porém, tudo isso é deixado de lado assim que Peter transforma-se no Homem-Aranha, não oferecendo nenhum desfecho ou resolução para todo esse mistério estabelecido – uma das muitas pontas soltas para a continuação, claro. De maneira similar, o roteiro comete o mesmo erro ao explicar melhor a passagem de Peter como um mero vigilante caçando o assassino de seu tio para um herói propriamente dito. Há uma tentativa disso durante um diálogo com Gwen Stacy, onde Peter fala sobre como sente-se responsável por impedir o Lagarto, justamente por tê-lo criado, mas nunca temos uma transição abrupta entre essas duas personas de Peter, faltando uma interação mais demarcada entre o público e Peter.

E por falar em interação, talvez a mais crucial seja onde o longa mais falha: o protagonista. Sim, todos sabemos que Webb e os roteiristas desagradaram os fãs ao criar um Peter Parker mais moderno e longe da figura do nerd tímido de Tobey Maguire, conferindo a ele um visual hipster e até o hábito de andar de skate. É de se admirar que a equipe tenha optado por criar algo novo, e Garfield se sai bem ao trazer essas características um tanto awkward desse Peter – sendo um retrato apurado de algumas tribos sociais. O problema é que esse Peter Parker é difícil de se criar qualquer tipo de apego. Mesmo que Garfield tenha uma carga dramática notável, nunca torcemos por seu Peter, nunca sentimos seu amor por Gwen Stacy ou sua vontade de realmente fazer o bem; quando ele decide lutar contra o Lagarto e assumir responsabilidade por sua criação, falta a catarse e o crescimento emocional do personagem, que parece assumir o manto do Aranha “por obrigação”.

Porém, as cenas em que Garfield contracena com a excelente Emma Stone trazem ótimos momentos onde Marc Webb faz o que sabe fazer melhor: dirigir atores. Sempre regadas com um notável improviso e muita naturalidade, vemos o casal interagir e conversar e o espectador pode sentir uma química explosiva entre os dois (os dois acabaram namorando na vida real após o filme), que transcende o roteiro ruim e os diálogos risíveis, do tipo “Eu fui picado…”, “Eu também” ou o clássico “Você beija muito bem”, entre outras abominações. Mesmo que a conquista de Peter seja muito “fácil”, em relação ao platonismo incendiário de Tobey Maguire pela Mary Jane de Kirsten Dunst, Webb é hábil ao oferecer enquadramentos intimistas e um ritmo acertado em tais cenas – o mesmo se aplica à relação turbulenta de Peter com sua Tia May, vivida por uma eficaz Sally Field, e que garante um dos momentos mais inesperadamente dóceis do filme envolvendo ovos orgânicos.

Como falei de Sally Field, nada mais justo do que falar daquele que provavelmente é o melhor ator de todo o elenco: Martin Sheen. É difícil se equiparar ao trabalho magistral de Cliff Roberston na trilogia de Raimi, mas Sheen acerta ao fazer de seu Tio Ben um sujeito um pouco mais esquentado e irônico, chegando até mesmo a dar broncas rígidas à Peter, mas sempre buscando uma lição moral digna no meio da gritaria – mesmo que, novamente, o texto seja desajeitado nessa proposta, como se tentasse ao máximo evitar a frase “grandes poderes, grandes responsabilidades”, oferecendo algo como “não é uma escolha, é responsabilidade”. Linhas de diálogo confusas, mas Sheen definitivamente garante uma ótima presença em cena.

Nada de Espetacular

Já na condução das cenas de ação, infelizmente Webb não é o tipo de cara para esse serviço. Nenhuma das set pieces faz jus ao título do filme, com efeitos visuais borrachudos e com uso constante atrapalhando a imersão nos eventos, que ainda carecem de imaginação para golpes, saltos ou outras coisas que só o Homem-Aranha pode fazer; sempre que o herói entra em conflito com o monstruoso Lagarto, é só um festival de efeitos sem graça. Certamente influenciado pela onda sombrio e realista de Christopher Nolan em sua trilogia Cavaleiro das Trevas, Webb aposta em algumas poucas sequências onde o Aranha é vivido por dublês e acrobatas, rendendo a cena de balanceamento por teias mais sem graça e escura que poderíamos imaginar, um erro tremendo para um personagem tão colorido e fantástico quanto o Cabeça de Teia. Vale mencionar também como a música em tais cenas é tão sem imaginação quanto seu diretor, representando um dos trabalhos mais fracos de James Horner, que diversas vezes ecoa Titanic (nos momentos errados) e prefere optar por belas melodias quando deveríamos ter algo mais intenso, vide a luta entre o Aranha e Lagarto nos corredores da escola.

Os únicos bons momentos nesse sentido são quando Webb busca algum intimismo nessas sequências, como quando o Homem-Aranha tira sua máscara para ajudar um garoto preso em um carro em chamas (ainda que Garfield torne-se aqui um Peter completamente diferente do resto da produção), com o diretor criando uma tensão palpável ao variar entre planos claustrofóbicos do interior do carro e alguns detalhes como o fogo crescendo ou o pára-choque que o herói segura lentamente se deteriorando. Essa tensão também está presente naquela que talvez seja a melhor setpiece do filme, quando o Homem-Aranha rastreia o Lagarto até os esgotos e confecciona uma gigantesca teia que atravessa todos os túneis do local, a fim de detectar os movimentos de seu inimigo com os toques em cada fio. A cena é curta, mas se estende bem quando diferentes movimentos vão ativando os “sensores” da teia, e aqui sim a trilha de Horner acerta ao apostar em instrumentos e elementos que capturem o fator animalesco do vilão, principalmente pela linha vocal sinistra.

E ainda que não seja exatamente uma cena de ação, a sequência onde Peter treina suas habilidades recém-descobertas com um skate, ao som da linda “Til Kingdom Come”, do Coldplay, é também uma das cenas mais bem elaboradas de toda a projeção, especialmente pelas elipses sutis e a sensação crescente de que o personagem está se tornando mais poderoso, marcado pelos cortes precisos que vão revelando o aumento de altura dos obstáculos utilizados por Peter para saltar de skate. Mas, claro, Peter Parker não anda de skate.

Porém, é de se espantar que a mão de Webb falhe tanto naquele que é mais crucial momento dramático da produção: a morte do Tio Ben. Eu nem vou me dar ao trabalho de comparar com o trabalho de Sam Raimi novamente, pois todos nós já entendemos a superioridade absoluta daquele filme em relação ao reboot, mas é difícil prender a língua – ou, neste caso, o teclado. O assassinato de Ben Parker se dá da forma mais abrupta e fria possível, com o senhor tentando brigar com um assaltante para tomar sua arma. Mesmo. Não bastando a circunstância absurda do ato, Webb a filma como se fosse qualquer outra cena, apenas usando a óbvia câmera na mão para oferecer algum impacto – e também por um plano detalhe um pouco mais edgy por mostrar o sangue nas mãos de Peter, que só é um pouco exacerbado pela música mais delicada de Horner. E se as pessoas criticam Tobey Maguire, queria ver a defesa para o overacting pavoroso de Andrew Garfield ao chorar diante do corpo do tio. 

Um recurso que acaba envelhecendo muito rápido e que só funcionara nos cinemas são as câmeras em primeira pessoa, inseridas abruptamente em algumas cenas apenas para que o 3D do filme marcasse algum efeito, já que Webb definitivamente não explora bem a profundidade de campo para criar imagens que façam valer a exibição do filme no formato. O problema nem é o uso desse recurso limitado e mais propício para atrações de parques de diversão, mas sim a maneira como são literalmente jogadas no meio das sequências, em uma decisão estranha dos montadores Pietro Scalia, Alan Edward Bell e Michael McCusker, mas que certamente fora uma exigência do estúdio a fim de “fazer valer o ingresso”. Isso sem falar que a fotografia um tanto escura de John Schwartzman aposta demais em sombras e níveis de preto, o que rende uma péssima experiência com o formato 3D – e, convenhamos, não é a escolha mais apropriada ao se retratar o Homem-Aranha.

Por fim, e isto talvez seja a crítica mais inútil e imperceptível, mas… O Espetacular Homem-Aranha talvez tenha o pior elenco secundário/figurantes que já vi em uma produção do gênero. Basta lembrar do caixa no mercadinho onde Peter acaba encontrando o assaltante que acabaria por matar seu tio, que varia entre uma mistura bizarra de piadista com valentão; e nunca consigo deixar de reparar em como ele é uma versão mais jovem do Hurley de Lost. Mas o pior exemplo é a recepcionista da Oscorp, que conversa com Peter como se – literalmente – fosse um andróide, e não ajuda que a pobre coitada seja vítima de um diálogo horroroso, que “sutilmente” brinca com a moral do filme ao perguntar (não uma, mas duas vezes) se ele “está tendo problemas ao se encontrar”, referindo-se a seu crachá de identificação. Não é do meu feitio ficar reparando na atuação de figurantes ou personagens secundários, mas o nível neste filme é tão deprimente que acabou realmente se destacando de forma negativa.

A Besta Opaca

Então, chegamos ao antagonista. Como os conhecedores de quadrinhos bem sabem, o Homem-Aranha talvez seja o herói com a melhor e mais variada galeria de vilões que há, perdendo somente para a igualmente rica coleção de vilões do Batman. Tendo isso em mente, a escolha do Lagarto como vilão poderia render uma história mais intimista e até voltada para o suspense, com uma inspiração no clássico O Médico e o Monstro. Infelizmente, graças a essa trama maior envolvendo a Oscorp e os pais de Peter, temos um Lagarto que é inteligente e megalomaníaco, com a absurda motivação de… transformar toda a população de Nova York em lagartos. Não, isso não é mentira. Não, não estamos falando do seriado do Batman dos anos 1960, mas sim de um longa que assumidamente é “sombrio e realista”.

Como se não bastasse a ideia risível, as soluções visuais de Webb e sua equipe de efeitos especiais são ainda mais vergonhosas. O visual do Lagarto é defeituoso em sua tentativa de oferecer expressividade à criatura, principalmente nos movimentos duros e artificiais, quase como se renderizamento gráfico da animação não estivesse completo. Felizmente, Rhys Ifans é capaz de oferecer uma performance memorável como o lado humano do vilão, Curt Connors. A dicção do ator é quase shakesperiana, conferindo imponência e suavidade a todas as suas cenas com Peter, e também explorando um lado animalesco notável em seus momentos mais insanos – vide seu transe logo após se “destransformar” do Lagarto pela primeira vez, onde o ator fica ofegando rapidamente por um bom tempo com a câmera centrada em seu rosto.

Porém, por mais eficiente que Ifans seja em sua performance, também falta muito ao personagem de Connors. Sabemos apenas que é um cientista bem intencionado que visa recuperar seu braço perdido, além de ter a visionária ideia de eliminar deficiências e imperfeições da espécie humana, utilizando o DNA de lagartos para um cruzamento genético. E Connors não vai além dessa nota. Um personagem unidimensional e sem grande desenvolvimento, onde nem ao menos a velha carta de “pai substituto” é usada em sua relação com Peter, algo que tornaria suas cenas um pouquinho mais interessante – e traria mais risco para suas muitas cenas de briga. Vale mencionar que o filme teve diversas cenas cortadas, e algumas delas traziam um núcleo com o filho pequeno do personagem, e é uma pena que tenham acabado de fora do corte final, já que poderiam trazer uma merecida profundidade à Connors, e também às suas motivações pessoais.

No fim, este “espetacular” Homem-Aranha surge muito aquém de sua proposta, surgindo como uma versão mal feita e sem identidade da maravilhosa trilogia de Sam Raimi, e a impressão que fica é que era cedo demais para seguir os passos de um gigante. Andrew Garfield compõe um perfil interessante e diferente de Peter Parker, mas justamente por isso acaba criando um protagonista difícil de se afeiçoar ao público.

O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, EUA – 2012)

Direção: Marc Webb
Roteiro: Alan Sargent, James Vanderbilt, Steve Kloves
Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Sally Field, Martin Sheen, Denis Leary, Irrfan Khan, Campbell Scott
Gênero: Aventura
Duração: 136 min

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