O exorcista é o famoso romance escrito por William Peter Blatty em 1971, que inspirou 5 adaptações hollywoodianas de grande sucesso e também o gênero de terror sobrenatural como um todo devido ao seu grande impacto cultural que perdura até hoje.

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O livro narra o drama da atriz Chris Mckay que se depara com a terrível situação de ver a filha com uma enfermidade inexplicável. Após diversas consultas com os mais diversos médicos, chega-se a conclusão de que a solução para a menina pode não ser calcada na ciência e a única coisa a fazer seria um ritual de exorcismo.

O livro é contado em três núcleos principais que se entrecruzam, há o da Chris Mckay e sua filha Regan, do Padre Karras e do Detetive Kinderman. Karras é um jesuíta que nos últimos tempos, após perder sua mãe começa  a duvidar da própria fé, afastando-se cada vez mais da igreja. Kinderman é um exímio detetive da divisão de homicídios que foi designado a investigação do caso da morte do diretor Burke Dennings, que dirigia o último filme da Chris e morreu nos arredores da casa da atriz.

Blatty estudou na universidade de Georgetown em Washington, por isso, decidiu que o livro também deveria se passar por lá, ainda que foi em seus tempos de universitário que o escritor ouviu falar de um caso de possessão demoníaca que o inspirou a escrever essa história. No decorrer da leitura do livro, podemos perceber o cuidado e a preocupação que Blatty demonstra com as questões espirituais, sendo ele próprio um católico.

O cerne do livro está refletido na própria figura do Padre Karras, que começa a duvidar qual o lugar de Deus em um universo tão caótico em meio de tanta perversidade, que o faz pensar em desistir de seu sacerdócio, com sua fé abalada. E é exatamente sobre essa questão que Blatty quer que reflitamos: Onde se encaixa a espiritualidade no mundo moderno?

Apesar de Chris ser uma ateia por toda sua vida, desesperada, ela se vê obrigada a implorar aos prantos para que um padre cure sua filha. No entanto, o sacerdote também possui formação em psiquiatria e se recusa a descartar as explicações mais racionais para resolver o caso da filha, mas após a relutância, aceita realizar o ritual de exorcismo.

A igreja aceita o pedido de Karras para realizar o ritual, mas designa que ele acompanhará alguém já experiente e esse alguém é o Padre Merrin. Merrin é o oposto de Karras, ele possui uma grande fé, inabalável, entretanto ele compreende o padre mais novo, pois já esteve no lugar dele e achou um jeito de continuar acreditando. Inclusive uma das passagens mais bonitas do livro é o grande monólogo em que ele justifica sua crença.

Além do subtexto religioso, o livro tem diversos outros pontos fortes. Todos os personagens são bem construídos e possuem uma dinâmica interpessoal extremamente interessante uns com os outros, incluindo aí os diversos coadjuvantes da história, os empregados de Chris e os colegas jesuítas de Karras.

Ao final do livro, no confronto final contra o demônio, Karras encontra o padre Merrin morto e se enfurece, explodindo do estresse acumulado pelas provocações e mal feituras  da malévola criatura, assim ele pede para que o demônio atormente a si no lugar da inocente Regan.

O que acontece depois é um pouco incerto pelo livro, mas é obvio deduzir que Karras se jogou da janela, suicidando-se em um ato de sacrifício para salvar Regan e a si mesmo dos tormentos do demônio. Em seguida o padre Dyer faz uma oração que liberta a alma de Karras e o auxilia a encontrar a paz na morte após sua bela demonstração de fé. Assim, o demônio serviu a um propósito benéfico no fim, sendo um teste de fé a todos ao redor e recuperando a fé do padre que duvidava.

O Exorcista, além de ser um ótimo romance, um dos melhores de seu gênero, é uma contemplação do lugar da religião nos  dias de hoje, em que Chris e Regan são produtos de seu tempo, ignorando completamente a religião. O padre Merrin é um arqueólogo ultrapassado com sua fé, e o padre Karras, sendo também um psiquiatra está no meio de tudo isso, se perguntando se sua crença ainda faz algum sentido.