Robert Zemeckis é um diretor querido por todos os fãs de cinema. O diretor foi responsável por uma das trilogias mais amadas dos anos 80, De volta para o Futuroe também por um dos filmes mais aclamados e discutidos da história, Forrest Gump. Em 2004 o diretor partiu para uma nova empreitada, adaptar a obra Expresso Polar do escritor Chris Van Allsburg, o mesmo escritor de Jumanji e de Zathura. Zemeckis, usando técnicas avançadas para poder criar seus cenários e personagens, criando um enredo que ao mesmo consegue ser simples e sombrio, nos entregou uma belíssima obra e que se mostra uma obra digna do Natal, conseguindo demonstrar os seus valores

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A trama nos conta a história de um garoto (não é lhe dado um nome, nem pra ele ou para qualquer outro personagem), que vive na América do Norte, na década de 1950. Esse jovem começou a perceber que existiam incoerências na existência de Papai Noel. Como ele consegue, em apenas uma noite, entregar o presente de bilhões de crianças? Como ele consegue habitar um lugar tão inóspito quanto Polo Norte? O garoto perde toda sua fé na data, tanto que não escreve para o Papai Noel, não tira fotos com ele em lojas e impede que sua irmã deixe biscoitos para o bom velhinho. Durante a noite da véspera de natal, o personagem é visitado por uma locomotiva chamada Expresso Polar, que irá levar crianças para o Polo Norte a fim de conhecer o Papai Noel. No começo o garoto tem receio e não embarca, mas depois decide ir a bordo e nessa viagem, todo aquele ceticismo que ele tinha criado dentro de si começa a ir por água abaixo.

Zemeckis ao criar essa obra não tinha em mente em fazer uma obra-prima revolucionária, ele apenas fez um filme para que possamos nos relembrar qual o verdadeiro valor do Natal, algo que estava se perdendo. Isso é deixado bem claro em uma cena na qual o condutor leva os três personagens principais da trama para uma ala do trem onde estão brinquedos que foram deixados para trás por seus donos. Ou seja, a data tem se tornado cada vez mais materialista, uma época em que o interesse está apenas em ganhar presente. As pessoas vem esquecendo, mas o Natal é muito mais do que a troca de presentes entre si, é uma data onde se celebra o amor, a vida, a família, as amizades. Essa é a melhor mensagem que o filme tenta nos passar, que existem coisas muito mais importantes do que um simples embrulho

A obra de Zemeckis nos dá a impressão de ter bebido de diversas fontes. Ao mesmo tempo que O Expresso Polar traz um pouco de otimismo e animação, também traz um tom meio misterioso e sombrio, algo que lembra muito as animações de Tim Burton. Essas características são personificadas através do personagem Andarilho, uma figura misteriosa que anda por cima do trem e vive desaparecendo e reaparecendo. Há um pouco de Um conto de natal, de Charles Dickens, nessa obra também, tanto pela temática mais sombria, tanto pela critica social ( já citada aqui em cima ) e também pelo fato dos dois personagens apresentarem mudanças no comportamento após uma viagem fantástica. Existe, claro, uma pequena inspiração vinda de A Fantástica Fábrica de Chocolate, que é apresentada por meio do bilhete dourado dos passageiros da locomotiva.

Mas não podemos negar, o grande acerto de Zemeckis nesse filme foi na parte técnica. Para criar os personagens da trama, ele usou o método da captura de movimento. Todos os atores do filme atuaram em frente a uma tela vazia e em seus corpos estavam captores de movimento. A partir dos dados que esses sensores recolhiam, imagens eram mandadas até computadores. A partir disso tinha-se o molde para poder criar os personagens e, então, as texturas eram colocadas. Esse método garantiu que os movimentos dos personagens ficassem parecendo muito mais realistas, idem com suas feições, onde as emoções eram mostradas de uma maneira muito mais orgânica. A captura de movimento tinha sido usada na produção de O Senhor dos Anéis, para a criação do personagem Gollum e foi precedida pela rotoscopia, uma técnica criada por Max Fleischer, para deixar suas animações da época mais reais, para tentar competir com a Disney.

Os cenários virtuais criados por Zemeckis também são de encher os olhos com suas beleza. Desde a vizinhança, em que o personagem principal vive, até todo o caminho que o Expresso Polar faz até chegar ao Polo Norte, tudo é feito com máximo de detalhamento, mostrando o grande apuro técnico da produção. O que me chamou muito a atenção foi como fizeram a cidade onde mora Papai Noel com seus elfos. Lembrava e muito alguma vila européia, devido a arquitetura. Esse estilo faz bastante sentido porque foi na Europa, mais precisamente na Alemanha, em que as histórias sobre essa persona mítica começaram a surgir, para depois ganhar o mundo. Também existe uma versão da lenda de Papai Noel dizendo que ele habita na verdade uma região na Escandinávia.

Zemeckis fornece ainda belo momentos com o uso da câmera. Durante o caminho para o Polo Norte o Expresso Polar acaba por chegar na garganta da geleira, que é uma trecho bastante íngreme, e temos então um momento bastante extasiaste. O diretor mostrou todo esse momento utilizando a câmera em primeira pessoa, fazendo com que nós, que estamos vendo, nos sintamos como se participássemos da ação. Outro momento que vale recordar, é quando o bilhete da personagem principal feminina acaba escapando pela janela. Acompanhamos todo o seu caminho de volta até o trem, trata-se de uma cena esteticamente linda e uma ótima referência à cena da pena em Forrest Gump, do mesmo diretor.

O Expresso Polar não é nem de longe uma obra-prima irretocável. Porém, tenho certeza que a maioria que assistir a essa obra irá se encantar com a mensagem que a obra quis passar. Em um mundo que se parece cada dia mais frio e com valores sendo esquecidos, filmes como O Expresso Polar são necessários, para nos fazer sentir que ainda há esperança e que seria ideal se o mundo inteiro fosse feito a partir da visão das crianças

O Expresso Polar (Polar Express – EUA, 2004)

Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Robert Zemeckis e William Broyles J
Elenco: Tom Hanks, Leslie Zemeckis, Edie Deezen, Nona Gaye, Peter Scolari, Brendan King, Andy Pellick
Gênero: Animação
Duração: 100 min.

Texto escrito por Raphael Aristides