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Lidar com o Superman, definitivamente, não é uma tarefa fácil. O super-herói mais importante da cultura pop ocidental, desde sua primeira publicação lá em Action Comics #1 em 1938, passou por várias adaptações, arcos e reformulações.

Com o sucesso estrondoso da trilogia O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolana Warner percebeu que já era hora de trazer novamente o azulão para as telas em uma nova roupagem, desta vez, inspirado no tom sério e semblante realista lucrativo dos filmes do Cruzado Encapuzado e no relançamento da DC Comics nos quadrinhos com os Novos 52, tendo descartado a sequência de Superman: O Retorno de Bryan Singer por uma recepção mista por parte do público e uma bilheteria aquém do esperado.

O homem chamado para capitanear a produção, pelo próprio Nolan, fora ninguém menos do que Zack Snyder, especialista em adaptações cinematográficas de quadrinhos, conhecido por conseguir adaptar o inadaptável – a exemplo de Watchmen.

Antes de entrar no quesito dos méritos e deméritos da obra, deixe-me esclarecer uma questão pessoal: o Superman é e, provavelmente, sempre será o meu super-herói preferido. Não só se trata do personagem que me fez conhecer o cinema pela primeira vez com o longa de Richard Donner mas também os quadrinhos com Paz na Terra. O que quero dizer é que tive suficiente tempo para conhecê-lo e estudá-lo para tentar entender quem ele é, do que se trata seu contexto de criação e como se dão os simbolismos e analogias que o envolvem.

Portanto, como todo bom fã, sinto que sou o primeiro a elogiar quando um artista consegue se aproveitar do cânone e natureza do personagem para contar alguma boa história que adicione positivamente ao seu histórico e o primeiro a apontar quando outro apenas utiliza esses elementos como gancho e se apoia na marca para não ter de se esfoçar em criar uma narrativa coerente, desrespeitando o legado no processo.

Meu relacionamento com O Homem de Aço foi deveras incomum. Lembro que, lá em 2013, no dia de estréia, havia amado o filme, saído deslumbrado do cinema com a nova releitura, as cenas de ação e o forte teor de ficção científica. Entretanto, com o passar dos anos, durante uma revisitada ao longa em antecipação ao lançamento de Batman vs Superman: A Origem da Justiça o efeito fora completamente oposto. Havia enxergado uma obra vazia, com torto desenvolvimento de personagens e foco desnecessariamente excessivo em cenas de ação grandiloquentes.

É bastante incomum achar uma pessoa que coloque o filme na classificação “mais ou menos”, se tratando mais de um daqueles casos de ame ou odeie, defenda ou critique, divisivo assim como seu sucessor e da grande maioria dos filmes de Snyder. O que, de forma alguma, no caso, se trata de algo negativo. Significa que há muito para ser interpretado por diferentes pontos de vista e debatido sobre a visão artística. Não se trata, porém, de uma obra puramente comercial. No cenário atual, considero muito mais valioso uma obra divisiva desse calibre do que outra que aparenta ter saído de uma fábrica de produtos matematicamente calculados, formulaicos e desalmados sem valor artístico ser superestimada e aclamada pela maioria por seu suposto valor de entretenimento.

Então, como ficou o meu veredito final para O Homem de Aço depois de tantas revisadas com diferentes olhares e observações e debates com pessoas dos dois lados da moeda?

É o que tentarei responder com clareza adiante.

DIREÇÃO SIMBÓLICA, TEXTO ATENTO

Começando pela análise de três pontos ligados diretamente ao diretor Zack Snyder pela introdução do longa: a concepção visual, a construção temática e seu jogo de câmera. Na abertura, vemos o nascimento de Kal-El, o primeiro natural em séculos, alternando entre Lara, Jor-El e o bebê Kal vindo à luz e chorando em um quadro que seria retomado mais adiante no final do filme com diferentes elementos.

Depois, Jor-El (Russel Crowe) tenta avisar ao Alto Conselho de Krypton sobre a iminente destruição do planeta, devido ao núcleo sobrecarregado, não sendo ouvido. Na sequência, o General Zod de Michael Shannon executa um golpe de estado. Seguem-se cenas de luta e fugas que já demonstram uma tendência – pouco comum em seus trabalhos – que o diretor iria utilizar no restante do filme, o excesso de zooms e a aposta em cortes rápidos, tudo para casar com a agilidade dos super seres e dinâmica do cinema de ação atual. Após Jor-El roubar o Códex – junção dos DNAs de futuros kryptonianos – e inseri-lo em seu filho para que pudesse salvar a espécie, Kal é enviado para a Terra e Zod é condenado a viver na Zona Fantasma com seus comparsas por assassinato – incluindo o de Jor-El – e alta traição. Krypton é, assim, destuída.

O que se segue é um verdadeiro show de simbologia enquanto Snyder e Goyer, lentamente, através do poder imagético, de síntese e contando com a capacidade do público de fazer conexões e de seu conhecimento extrafílmico constroem e desenvolvem o personagem de Henry Cavill, Clark Kent, de forma inédita no gênero como poucos conseguiram.

A começar pela representação do próprio planeta Terra, no longa,  como uma figura materna e Krypton, a paterna. Kal, seria o espermatozoide saindo de Krypton para se encontrar com o óvulo, na Terra, para, aos poucos ser gestado até nascer como Superman. Todos os processos da gravidez são retratados até o grandioso final. 

A primeira vez que vemos Clark é durante um salvamento em uma plataforma de petróleo que termina com o protagonista sendo “batizado” na água em posição de cruz. O que acompanhamos em seguida é uma narrativa não linear em que presente e passado se alternam na história em momentos propícios para efeito de simbolismo e construção de personagem. Ver o pequeno Clark descobrindo seus poderes de visão de raio X em uma sala de aula e ficado assustado é completamente diferente da proposta leve de Richard Donner. “Finja que é uma ilha, Clark. Nada até ela” diz Martha. Mais um simbolismo de batizado é mostrado quando Clark salva um ônibus escolar que cai num rio. 

O teor religioso da obra é intensificado quando, voltando ao presente, aparece o número 536 em uma casa enquanto Clark sai do litoral depois da plataforma para pegar umas roupas. Lembremos que em Lucas 5:36 é dito: “Ninguém deita um pedaço de uma roupa nova para a coser em roupa velha, pois romperá a nova e o remendo não condiz com a velha.” Substitua a roupa velha por Krypton e a nova pela Terra.

Há outro contraste, também, que enriquece bastante os conflitos internos do protagonista. Na Terra, Jonathan acha que o mundo ainda não está pronto para Clark e acha que deve esconder seus dons. Já Martha acha que Clark é quem não está pronto para o mundo. Quando Jor-El reaparece na história, outra perspectiva é inserida para elevar o protagonista. Trata-se do mesmo estar destinado a guiar a humanidade representando o melhor dos dois mundos: o símbolo de esperança da casa El e o símbolo Cristão de Jesus Cristo. Quando Clark consegue seu uniforme na nave, perceba que no primeiro shot em que ele aparece vestido, se encontra entre duas estruturas esféricas da nave. Uma destruída, à esquerda e outra intacta, à direita. Jor-El, ao explicar sobre a história de Krypton, também posiciona a figura paterna do lado esquerdo e materna do direito com ambos segurando o bebê na máquina de metal-holográfica, reforçando o simbolismo que citei mais cedo. É válido apontar que o caráter reliogoso novamente se faz presente já que na famosa passagem da transfiguração, Jesus é retratado entre Moisés – à esquerda – e Elias – à direita, com Moisés representando o Antigo Testamento.

A última etapa da jornada se dá com a chegada de Zod, reivindicando o Códex. Clark vai a uma igreja e se posiciona abaixo de um vitral com a imagem de Cristo enquanto recebe conselhos de um padre a respeito de se render ou não a Zod ou confiar ou não na humanidade, com a conclusão de que, às vezes, é necessário dar um salto de fé. Kal-El, então, se revela para o mundo de uniforme pela primeira vez, na contra-luz, quase que com uma auréola sobre sua figura voando. Além disso, a posição de cruz também é retomada quando Clark sai da nave de Zod durante o duálofo final com Jor-El e parte para a Terra.

O momento final da gravidez então, tem início. Uma mãe ao entrar em trabalho de parto, apresenta as fases de dilatação, expulsão do bebê e dequitação. A Terra, portanto, se prepara para dar à luz ao Superman ao ser machucada em um processo doloroso de dilatação e contração por via da máquina de terraformação de Zod. Até mesmo o núcleo Perry – Jenny – Lambert simula brevemente um trabalho de parto com Jenny representando a Terra em baixo dos escombros e Perry e Lambert tentando ajudá-la com os mesmos dizeres e movimentos comuns a tal acontecimento com direito a um desesperado Perry segurando sua mão no momento final. Eis que Superman, se esforçando para destruir a máquina voando contra seu impulso, a destrói e salva a Terra do perigo maior – há até mesmo uma cena de Clark usando sua visão de calor para destruir uma das naves.

Contudo, o nascimento só se dá mesmo no momento da morte de Zod. Repare como Snyder edita a cena de forma similar a primeira cena do longa com o nascimento de Kal-El. A alternância entre a expressão de Kal, Lois/Lara, o grito dado por Kal/Superman e a iluminação advinda do sol. Ali, nasce, de fato, o Superman, contribuindo para uma circularidade imagética muito forte.

IMAGEM E A POESIA MUSICAL

O que podemos tirar de tudo isso é que, definitivamente, Zack Snyder não é um diretor desinteressado. É delicioso assistir ao making of, por exemplo, e vê-lo pensar em cada detalhe de como transpor Krypton e sua cultura para as telas, as representações de suas roupas, armamentos, moradias, naves, tudo com uma bem vinda pegada sci fi. De como insistir na consistência de uma unidade temática por mais personagens que apareçam, nunca esquecendo da jornada do protagonista, antes perdido, vagando pelo país salvando pessoas e tendo que se afastar a cada ato heróico e, ao final, tendo achado e aceitado seu lugar no mundo. Os enquadramentos atenciosos à natureza religiosa do personagem imprimem mais força ao texto de Goyer que sintetiza a todo momento trechos da vida de Clark.

Entretanto, há os que criticam o diretor pelo modo que escolheu filmar o embate final, como um filme de guerra seria filmado em determinados momentos, com os já comentados cortes rápidos e uso de alguma shaky cam para passar mais impacto, agilidade e desespero com a ação, o que se concretiza também na primeira cena de voo de Clark, refletindo a instabilidade do ato e do próprio personagem  alternando entre planos abertos e fechados com foco na reação do protagonista, ao contrário dos planos mais longos do Superman de Donner com um Christopher Reve seguro de seu voo. De fato, é de se estranhar inicialmente o poquíssimo – quase ausente – uso de câmera lenta – marca registrada do diretor, mas há de se entender o que Snyder gostaria de passar com sua opção.

Já o roterista, erra na hora do didatismo em excesso e de elaborar alguns diálogos para Clark – que carecem de peso dramático e falas memoráveis – e Zod que às vezes o deixam com a impressão de um vilão mal de escrito e repetitivo. Além disso, Goyer e Snyder teriam se beneficiado bem mais se 15 ou 20 minutos de cenas de ação tivessem sido retirados da batalha final para investirem mais tempo no aprofundamento de Clark ou Lois, talvez até com mais cenas de salvamento e diálogos do protagonista lidando com situações e conflitos normais do cotidiano. 

A fotografia de Amir Mokri, com tons acizentados e dessaturados, por mais que queria retratar realismo, seriedade e gravidade, perde a oportunidade de compôr um visual mais agressivo, expressivo e  marcante, podendo até mesmo ter valorizado mais o perfeito traje azul de Michael Wilkinson

O elenco é excelente. Crowe, Lane e Coster cumprem o núcleo familiar com as costumeiras respeitáveis interpretações. Michael Shannon compõe um vilão de presença e com motivações críveis como um guerreiro tirano predestinado a uma só função na vida e que falha em proteger a perpetuação de Krypton e convencer o pratagonista. O núcleo do Planeta Diário não tem muito o que fazer mas não compromete. Laurence Fishburne funciona bem como alívio cômico. Amy Adams prova-se a escolha perfeita e ideal para viver a destemida e bem ativa na trama Lois Lane que estabelece uma relação de respeito e admiração com Clark. Henry Cavill se inspira no Superman de Alex Ross e Paul Dini, mais sério e torturado por suas incertezas quanto a sua identidade e função e, se acerta na maioria das vezes quando confere  presença, inocência, bondade, humanidade, raiva ou incerteza a Clark, erra na hora das interações com os hologramas de seu pai, não soando convincente. 

Hans Zimmer faz milagre com a trilha sonora. Se não supera o tema clássico de John Williams – e por mais que eu gostaria de ver um arranjo do mesmo – compõe temas absurdamente memoráveis com composições em piano e eletrônico e orquestras de guitarras, trompetes e tambores, abrindo todo o espaço possível para ápices dramáticos ou emotivos no geral. Perceba como as cenas do nascimento, do primeiro voo e da conclusão da batalha são elevadas e complementadas.

UM SUPERMAN PARA NOVOS TEMPOS

Aqui gostaria de escrever um adendo para aqueles que dizem que Snyder profanou o personagem e não conseguiu entendê-lo. Primeiramente, o tom. Ora, se estamos falando de um personagem fictício que luta por valores reais que existem em nossa realidade, qual o problema de o vermos sob uma ótica mais próxima da própria realidade contemporânea? 

O arco e desenvolvimento existem e não se dão somente pelo simbolismo – este é complemento- e o protagonista aparece cometendo atos de heroísmo a todo momento – salvo uma cena que envolve um caminhão que é patética. Na polêmica cena da morte de seu pai, Jonathan, realmente confesso que se trata de algo bem pessoal na hora de se analisar. Uns podem preferir a mensagem do “há coisas que nem o Superman pode controlar e evitar” como com o infarto no longa de Donner e outros digerem essa força da natureza representada pelo tornado – aquela que perturba a ordem por onde passa e é responsável pelo ponto de virada na vida de Clark – sem problemas como algo que reforça a crença de Jonathan e o conflito do protagonista, que teve de carregar o fardo.

Quanto a destruição de Metropolis, que tem início por um ato totalmente humano de Clark ao ver que sua mãe fora ameaçada, digamos que os efeitos são algo bastante comum nos quadrinhos e animações durante a luta de super seres, com nem sempre o herói posto na posição de salvar o primeiro que vê pela frente. Ele estava tentando, de fato, mover a luta para fora da cidade, e sendo impedindo a todo momento pelos capagans de Zod. Quando a batalha chega contra o general, a conclusão é inevitável. Ou era seu assassinato ou a perpetuação da destruição em outros locais com, consequentemente, mais mortes. O que, visualmente, mexe com o herói.

Ao final do filme, Clark não é o mesmo do início. De perdido e incerto, para um ser mais confiante que achou o seu lugar e fez uma escolha de quais princípios e valores gostaria de seguir ao final da luta com Zod. Este pode não ser o Superman de Christopher Reeve – como se esse fosse a única encarnação possível – mas certamente, se trata, sim, do Superman que cresci lendo. Aquele que antes de um personagem alegre, otimista, que salva gatos em árvores é um ser simbólico que precisou se definir através de escolhas em momentos extremos e deciões de qual ponto de vista utilizar para preservar os valores em que acredita e que foi criado através.

O Homem de Aço não é um filme para todos. Suas intenções enquanto obra de arte autoral são muito claras para os mais atentos. Cabe a você, fã ou não, decidir como quer encará-la de acordo com suas expectativas e projeções de como deveria ser um longa do Superman ou de acordo com a proposta de um jeito diferente e pouco usual de se fazer blockbuster. Se o longa perde valor por seu foco imagético excessivo, então devemos redefinir o conceito da arte que junta todas as artes , afinal, “Cinema é a técnica e a arte de fixar e de reproduzir imagens que suscitam impressão de movimento”, não é mesmo? Snyder, portanto não realiza aqui um filme sobre um super-herói e sim sobre um símbolo. Um símbolo que se perpetua a quase um século.

E não há presente maior para um fã do que ver o personagem sendo representado dessa forma, tão interessada e dedicada que uma vez compreendida, difícilmente será rejeitada. 

O Homem de Aço (Man of Steel, EUA/Canadá/Reino Unido – 2013)

Direção: Zack Snyder
Roteiro: David S. Goyer
Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Diane Lane, Russell Crowe, Antje Traue, Harry Lennix, Richard Schiff, Christopher Meloni, Kevin Costner, Ayelet Zurer, Laurence Fishburne, Dylan Sprayberry, Cooper Timberline
Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica

Duração: 143 min.

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