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Para compreender O Homem de Mármore é preciso entender um pouco da História da Polônia depois das consequências negativas pós-Segunda Guerra. O país tinha recebido promessas de países ocidentais que não permitiriam o avanço de Stálin em tirar a soberania polonesa para criar mais um país socialista para o Bloco do Leste.

Obviamente que as promessas não foram cumpridas e em 1945 a Polônia já estava em uma “democracia” socialista que só iria ser abrandada depois da morte de Boleslaw Bierut em 1956, quando um novo líder surgiu Wladyslaw Gomulka, libertando presos políticos e devolvendo liberdades civis. Foi nesse cenário de intensa turbulência política que Andrzej Wajda cresceu e formou sua personalidade intelectual altamente anticomunista, afinal sentiu os efeitos do socialismo real na própria pele.

Com o progressivo afastamento da Polônia com o Bloco Soviético, mas ainda se mantendo uma república socialista, Wajda conseguiu criar um dos filmes-testamento mais intensos de sua carreira: O Homem de Mármore sobre a história de um cidadão modelado para virar símbolo de triunfo assim como o mármore é modelado para virar arte. 

Camarada Birkut

Wajda traz uma história de investigação e redescoberta sobre uma personalidade intrigante do passado: o líder camarada da classe trabalhadora Mateusz Birkut que sofreu uma das ascensões e quedas mais brutais que um cidadão pode aguentar. Com um roteiro aos moldes de Cidadão Kane, acompanhamos uma série de entrevistas realizadas pela cineasta estudante Krystyna Janda que busca a verdade sobre esse caso tão perturbador. Até que chega um ponto que sua investigação se torna um grande incômodo para os seus chefes da emissora produtora.

Apesar de ser um cinema político e claramente ideológico, Wajda não deseja perder o espectador ao apostar em formatos narrativos estritamente explícitos e artificiais. Há um cuidado exemplar para que a jornada de Krystyna na busca da verdade e dos entrevistados seja algo gradual, interessante e único, com cada elemento revelando novos detalhes da história.

O início dessa busca se dá através de um documentário-falso muito irônico feito nos moldes do Realismo Socialista para mostrar o grande triunfo do trabalhador Mateusz Birkut que após ter quebrado um recorde ao construir metade de uma casa em uma jornada de oito horas, rapidamente ascendeu como ícone trabalhista usado para inspirar diversos outros camaradas entrando para o politburo polonês.

Logo depois, Wajda nos mostra os bastidores desse mesmo falso documentário com a entrevista do cineasta Burski transformando O Homem de Mármore no completo oposto de uma obra do Realismo Soviético. Em tom ácido e comicamente constrangedor, vemos a história da motivação dos homens do governo em transformar Birkut em um ídolo socialista. Obviamente tudo envolve a manipulação das massas e do próprio trabalhador que, nesse ponto da narrativa, é um homem com fé cega no socialismo, aceitando rapidamente o desafio para virar o objeto de propaganda do documentário.

Assim esse recorde inútil é montado como prova da eficácia do comunismo, além de promover a corrida da disputa interna entre os países integrantes do Bloco do Leste. Wajda constrói muitos elementos exagerados através da encenação conseguindo retratar as cruéis vaidades stalinistas que outros governantes seguiam à risca como a obrigação de uma banda tocar incansavelmente durante as oito horas de trabalho intenso de Birkut e seus parceiros.

Nesse flashback, o diretor é cuidadoso em mostrar como o protagonista está exausto e impaciente, mas que ainda se submete aos caprichos bobocas do cineasta e dos líderes do partido acreditando que está realizando algo verdadeiramente bom. A demonstração da força de vontade logo faz com que Birkut seja uma peça importante para a propaganda socialista a fim de motivar a força trabalhista na fundação de Nowa Huta, uma cidade planejada para cem mil habitantes que precisa ser edificada em apenas seis anos – esses planos de metas curiosos que o governo JK importou diretamente do bloco soviético.

Com apenas esses ótimos segmentos, a estrutura do roteiro segue rígida, mas sempre bastante fluída e nunca se tornando repetitiva já que há um interesse real do espectador em descobrir mais da desafortunada história de Birkut. O exercício de metalinguagem sobre o “fazer” um documentário, logo é eclipsado pela iminente tragédia repleta de conspiração na vida do protagonista.

A desilusão do herói nada demora a chegar e a partir deste simples contraste, Wajda mostra como esse símbolo fracassado tenta combater um inimigo invisível que está sempre a espreita para sabotar todos os esforços políticos de Birkut. O homem tem intenções boas de oferecer moradias dignas para todos os trabalhadores, apesar de isso ir contra o interesse do partido, afinal nem todos são tão iguais aos outros no socialismo real.

A sucessão de decadência permite que conheçamos a transição desse homem alçado artificialmente como símbolo para se tornar um verdadeiro herói, apesar de fracassado. As imagens sombrias que o diretor constrói refletem toda a desilusão e desolamento que Birkut experimenta em sua jornada. Em um dos momentos mais fortes da obra, vemos o homem tentar avisar seus compatriotas sobre a intensa alienação que vivem e como o governo se livra de pessoas indesejadas, para logo ser interrompido por integrantes do partido com o hino da Internacional logo acompanhado em coro pelos demais.

Desolado, o personagem caminha para o lado oposto do qual todos estão virados a cantar, indicando sua ruptura completa com o sistema. O caminho autodestrutivo então é pavimentado para o herói trilhar revelando níveis sombrios de sua relação com outros personagens que lidam de diferentes modos sobre a manipulação traiçoeira que vivem. Através destes contrastes que Wajda consegue trazer um retrato muito puro para Birkut, um verdadeiro humano.

Também é bastante notável que através da narrativa não-linear repleta de flashbacks, Wajda compara o socialismo polonês dos anos 1950 com o de 1970 que, apesar de diferente em sua opressão, é ainda muito parecido. O povo ainda tem medo de um inimigo invisível, a censura é feita através de ameaças veladas e as bizarrices da corrida do desenvolvimento insano ainda continuam presentes, além de uma qualidade de vida bem rudimentar.

Isso é mostrado sempre no núcleo contemporâneo da obra com a narrativa da cineasta Krystyna que também é desenvolvida em paralelo ao cidadão Birkut, como se fosse a versão moderna do mesmo, mas já bastante cínica e rebelde contra o sistema que motiva toda a investigação em uma tentativa de reparação histórica que evoca memórias desconfortáveis sobre as imperfeições do regime.

Transitando entre esses dois tempos, Wajda oferece diferentes estéticas para diversas cenas. Há muito trabalho com câmera na mão e encenação simples, mas repleta de energia. E também há capricho em sequências mais intensas como a da filmagem do falso documentário e nos ápices dramáticos da vida de Birkut. A música, porém, só se torna muito mais solta e eclética quando acompanhamos o ponto de vista da diretora.

Cinema Rebelde

O Homem de Mármore é uma das peças mais fascinantes da carreira de Andrzej Wajda que iniciou aqui uma trilogia temática sobre a história da Polônia sob regime socialista trazendo retratos de diferentes homens, fictícios e reais, que tentaram mudar o status quo do país. Evocando um cinema rebelde e corajoso, sem medo da censura ou de perder a própria vida sob a vigilância incansável do lado oriental da Cortina de Ferro, Wajda só trouxe mais um manifesto de como o bom cinema político deve ser feito: com elegância, cinismo e uma narrativa que envolva o espectador.

O Homem de Mármore (Czlowiek z marmuru, Polônia – 1977)

Direção: Andrzej Wajda
Roteiro: Aleksander Scibor-Rylsky
Elenco: Jerzy Radziwilowicz, Krystyna Janda, Tadeusz Lomnicki, Jacek Lomnicki, Michal Tarkowski, Krystyna Zachwatowicz
Gênero: Drama
Duração: 165 minutos.

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