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Com o sucesso absurdo de Rashomon, Akira Kurosawa virou o nome mais quente do cinema japonês atraindo a atenção de muitos estúdios. Geralmente, são essas situações que geram a receita perfeita para um belo desastre: um cineasta repleto de confiança e um estúdio disposto a aceitar qualquer loucura que o contratado irá propor. Dispostos a tudo para ter um filme de Kurosawa, o estúdio Shochiku ganhou a grande batalha ao confiar cegamente no complicado projeto do cineasta.

Sem saber naquele momento, os dois firmaram um pacto atrapalhado. Kurosawa simplesmente queria adaptar um dos maiores romances de Fiódor Dostoiévski: O Idiota, um dos maiores e mais complexos livros da carreira do consagrado autor. Filmando um total de 265 minutos, Kurosawa deu um passo maior que as pernas para o cinema comercial japonês. O estúdio, tão assustado pela duração tremenda da obra, não estava interessado em perder múltiplas sessões por causa do capricho do diretor e logo ordenou que o filme fosse reduzido para uma versão de 166 minutos.

Nem é preciso dizer que o resultado dessa mutilação impensada prejudicou completamente O Idiota, o relegando a um posto compreensível de pior filme do mestre cineasta. Isso mostra também como a indústria pode cometer erros tão bobos a ponto de aprovar um filme de quase cinco horas sem pestanejar apenas para trabalhar com o diretor mais promissor do momento e, ironicamente, quase arruinar a carreira de Kurosawa.

A Audácia Castrada

Kurosawa foi bastante corajoso e trazer o romance de Dostoiévski para adaptá-lo em outro país, em outra época e com outros personagens, apenas preservando as características majoritárias do enredo. Em seu filme, tudo se passa imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial trazendo a história de Kinji Kameda (Masayuki Mori) ao retornar para Hokkaido, após ter sido perdoado por crimes de guerra momentos antes de ser fuzilado.

Com o trauma da experiência quase mortal, Kameda foi transformado em alguém todo bom, repleto de compaixão e amor ao próximo, se tornando, aos olhos da sociedade, um perfeito idiota. Porém, a moralidade inocente desse idiota consegue transformar a vida de todos próximos a ele. Em questão de pouco tempo, Kameda se vê dentro de um triângulo amoroso no qual duas mulheres disputam seu amor: a infeliz Taeko Nasu (Setsuko Hara) e a virtuosa Ayako (Yoshiko Kuga). Infeliz com essa disputa amorosa, o amigo de Kameda, Akama (Toshirô Mifune), apaixonado por Taeko, começa a planejar um assassinato para se livrar do idiota.

O grande problema do filme é o fato dele ser praticamente incompreensível. Os cortes do estúdio retiraram partes do começo, meio e fim e por conta disso temos diversas elipses brutais que retiram trechos inteiros de diálogos importantes, além de prejudicar o ritmo do longa. Assistir a O Idiota é de fato um teste de paciência devido a essa fragmentação surreal da narrativa, prejudicando a fluidez dos acontecimentos.

Por conta disso, não só a história do filme sofre bastante como os próprios personagens. A figura messiânica de Kameda torna-se superficial ao extremo, agindo do modo mais previsível possível, apesar dos esforços de Kurosawa em mostrar que o protagonista tem uma fome inacreditável pela tragédia, se aproximando sempre dos malditos talvez com segundas intenções. Já o resto do elenco cai nas mazelas maniqueístas para fixar a moral supervalorizada pelo artista.

Ou seja, o bastião de bondade que é Kameda, entra em confronto com as pessoas mais virulentas e detestáveis daquele lugar. Os pecados apresentados são muitos: avareza, cobiça, mentiras diversas, ódio extremo, sadismo, orgulho, preconceito, etc. Todos os coadjuvantes são mostrados dessa maneira para sofrerem alguma transformação redentora ao final da obra. Nada muito complexo, além disso.

Como a narrativa dá constantes pulos, é difícil ficar engajado com algum drama apresentado em tela, além do fato de ser extremamente fácil confundir quem são os personagens devido a caracterização muito pobre para cada um. Ou seja, é um filme confuso em diversos níveis, gerando frustração no espectador.

Ao menos, Kurosawa se esforça em tornar sua obra retalhada, no mínimo, compreensível – os inúmeros intertítulos no começo do filme para contextualizar o espectador funcionam, apesar do excesso de informações apresentadas em tão pouco tempo. Depois de muito tempo investido, o espectador se acostuma com a confusão narrativa, compreende alguns pontos da estrutura do filme, além da moral passar intacta, apesar do final também ser mascarado.

Ou seja, no fim das contas, é preciso ter lido o livro de Dostoiévski para se situar melhor nessa adaptação curiosa do diretor.

Pesando a Mão

Kurosawa queria fazer um melodrama épico com O Idiota e realmente acredito que ele tenha conseguido o resultado com versão completa da obra. Porém, a que temos disponível mostra um exagero tonal em diversas cenas repletas de gritaria, lágrimas e close-ups quase como se fosse uma novela mexicana – é irônico que Kurosawa possa ter configurado uma linguagem visual televisiva justo em 1951, ano que os televisores estavam surgindo para a venda.

Isso principalmente afeta o rendimento dos atores. No caso, o mais afetado é Masayuki Mori que interpreta o protagonista. Apesar dele acertar em cheio nas expressões faciais repletas de amor e inocência, Mori sempre mantém a mesma expressão corporal durante o filme inteiro fazendo com que o personagem se torne uma das peças mais monótonas do filme inteiro. Sem nunca conseguir passar a credibilidade necessária para o espectador, não há prazer algum para acompanhar a jornada do personagem.

Em uma nítida obsessão para adaptar linha por linha o romance russo, Kurosawa engessa a sua linguagem cinematográfica ao máximo abrindo mão de composições elegantes e do movimento que ele tanto preza em suas obras. Tanto que assistir ao O Idiota não se assemelha em nada com o restante de sua filmografia.

Kurosawa aborda a direção do modo mais quadrado possível para conferir um ar teatral excessivo. Por conta dos planos serem sempre tão afastados, isso também contribui para a confusão visual em perceber sobre qual personagem estamos acompanhando no momento. Os cenários são simplórios, o uso da música também, além da câmera estar quase sempre estacionada. Tudo pensado para não quebrar a ilusão teatral da obra que, infelizmente, torna o filme uma verdadeira chatice.

Idiotice Peculiar

A ambição de Kurosawa simplesmente a traiu com O Idiota. Confiando que o estúdio preservaria sua visão, o diretor realizou um dos maiores erros de sua carreira que nunca será reparado, pois os negativos excluídos muito provavelmente já foram descartados. Dessa forma, O Idiota como ele é hoje, se trata apenas de um filme muito medíocre e confuso, além de ser excessivamente lento com personagens desinteressantes.

Poderia ser sim um ótimo filme e um grande clássico do mestre Kurosawa, mas acabou sendo apenas uma obra cheia de caprichos equivocados a condenando para o rodapé da grande carreira do diretor.

O Idiota (Hakuchi, Japão – 1951)

Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Ejirô Haisata, Fiódor Dostoiévski
Elenco: Setsuko Hara, Masayuki Mori, Yoshiko Kuga, Toshirô Mifune, Takashi Shimura
Gênero: Drama, Romance
Duração: 166 minutos.

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