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Em 1977, Stephen King lançava seu terceiro romance e construía cada vez mais seu nome como um dos gênios da literatura contemporânea, revitalizando e até mesmo reconstruindo o gênero do terror com obras incrivelmente dilacerantes. Não demorou muito até que O Iluminado ganhasse sua versão para os cinemas nas mãos de outro incrível nome da indústria do entretenimento, Stanley Kubrick. E ainda que tenha recebido duras críticas do próprio autor, é inegável dizer que o filme tornou-se um clássico irretocável que trouxe, além de um elenco de ponta, uma incrível preocupação artística e intimista que trouxe à vida as macabras páginas de um livro amedrontador.

No longa-metragem, Kubrick nos apresenta à família Torrance, cujo patriarca Jack (Jack Nicholson) aceita o trabalho de zelador no imponente Hotel Overlook durante a temporada de inverno, na qual a construção permanece fechada. Assim, ele poderá se livrar do bloqueio criativo e escrever suas obras em paz, acompanhado apenas da mulher Wendy (Shelley Duvall) e de seu filho Danny (Danny Lloyd), dotado de habilidades psíquicas inexplicáveis que potencializam os problemas a serem enfrentados pelo núcleo protagonista. Desde o primeiro ato, o tom melancólico e misterioso é construído de forma gradativa, atingindo vários ápices conforme as viradas se tornam cada vez mais angustiantes. Danny é capaz de conversar com entidades intangíveis, as quais são encaradas com excessiva normatização pelos pais, visto que é normal que as crianças tenham amigos imaginários.

Entretanto, o garoto é uma representação simbólica e paradoxalmente amadurecida do que está prestes a acontecer com seu pai. Ao contrário do filho, Jack não tem o mesmo controle mental acerca das aparições e sofre de uma esquizofrenia pulsante que alcança sua maximização dias depois da família viajar para o hotel. O campesino alojamento é imenso e parece ainda maior quando está vazio. Não é à toa que Kubrick resolva retratar seus personagens de modo pequeno, quase opressor, prezando por uma simetria inenarrável e uma composição geométrica de tirar o fôlego. Conforma a narrativa se desenrola, o diretor cria alguns dos quadros mais bonitos e temerosos do cinema – podemos nos lembrar claramente do aparente infinito corredor no qual Danny encontra os fantasmas das irmãs gêmeas mortas.

Optar por uma perspectiva mais pueril, em relação à altura da câmera, também conversa com o retrocesso psicológico sofrido por Jack, colocando-o como alguém que não consegue lidar com sua “habilidade” sobre-humana. Em diversos momentos, o baixo teto dialoga com o enquadramento propositalmente mais fechado, concentrando os esforços cênicos no rosto enlouquecido de Nicholson – que se entrega a uma de suas melhores performances. Em contraposição, Danny gradativamente encontra um espaço mais amplo para demonstrar sua superioridade em relação ao pai, seja no escopo da trama ou na arquitetura imagética.

A paleta de cores segue o mesmo princípio das investidas técnicas. A princípio, a vida sem atribulações é perscrutada por tons claros e bem demarcados; à medida que o protagonista se transforma e mergulha num abismo de loucura que se converte em ameaças e agressões físicas à sua mulher e a seu filho – como a icônica sequência do machado e do Here’s Johnny, na qual Duvall e Nicholson se entregam a uma mistura de pânico e amargor muito equilibrada -, a sobriedade fala mais alto, buscando tons mais incômodos e duros, indicando um desfecho inexorável. Kubrick, ao lado de Diane Johnson canalizam as principais transformações sofridas pelos personagens no romance de King e orquestram uma tragédia grega remodelada em perspectivas modernizadas: cada quadro busca pela perfeição e, no geral, encontra um sucesso iminente.

O diretor, além da aspiração à transcendência cinematográfica, vê-se frente a frente com um terreno fértil para inúmeras referências do próprio universo imortalizado, jogando algumas dicas do que irá acontecer. Ao passo que a trama se desenrola e a persona de Jack encontra uma barreira quase psicossomática que o transforma num louco movido pelo ódio, certos elementos bem visíveis brotam na tela, como a palavra murder (assassinato, em tradução literal) cravada ao contrário em várias portas, o rio de sangue que premedita um possível massacre, e outros um pouco mais sutis. O nome do Hotel Overlook, quando colocado no português, significa negligência, conversando com cada uma das situações em que os personagens ficam alheios a si próprios.

Não é apenas de drama que o longa-metragem se vale. O medo e o suspense também ganham forma em uma cena de perseguição final descontruída, na qual o filho foge do pai, totalmente inebriado pelas vozes em sua cabeça. Os dois traçam um desfecho que pode parecer um tanto quanto convencional, mas que mantém traços tanto com o material original quanto com a resolução para os maniqueísmos que são encarnados no cenário principal. Apesar dos pequenos deslizes – os quais provêm da parca capacidade de King em conseguir terminar suas histórias de forma digna o suficiente -, o pano de fundo já é o suficiente para nos manter vidrados o tempo todo.

O Iluminado é uma obra-prima que, à época de seu lançamento, não recebeu toda a atenção que merecia. Logo, é sempre bom trazer à memória e à contemporaneidade uma das melhores produções de Kubrick, que alcança um patamar aplaudível em qualquer quesito que possamos pensar.

O Iluminado (The Shining, EUA – 1980)

Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Diane Johnson, baseado no romance de Stephen King
Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers, Barry Nelson, Philip Stone, Joe Turkel, Anne Jackson, Tony Burton
Gênero: Drama, Terror
Duração: 146 min.

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